“CLASSE EXECUTIVA”, CRUZ E DELÍCIA DAS AÉREAS

 

Em épocas remotas, nos anos 30 e após 1945, voar era um luxo que aos poucos estava atraindo também os executivos e a classe média. No início somente os ricos e os mais audazes viajavam, Mas com a vinda dos últimos DC-8 havia bastante espaço para preencher nas aeronaves e nem todos gostavam ter que encarar passageiros desconhecidos.Surgiu a palavra “privacy” e logo as empresas aéreas  criaram uma classes especial para quem podia pagar mais, e gostava de poltronas mais cômodas e de menús selecionados,onde o caviar e o champanhe francês faziam a diferença : sem contar o serviço personalizado,que às vezes começava em terra e se estendia pela viagem toda e na chegada,onde havia um Public Relations para recepcionar os ilustres visitantes. Era algo aparentemente discriminatório, ao gosto da época, com o objetivo de conquistar a preferência de quem viajava mais e possuía meios para pagar uma passagem bastante cara.

 Mais recentemente, há algumas décadas, para conquistar as preferências dos “frequent travellers” as empresas aéreas descobriram uma maneira mais barata, que acabou sendo estendida a todos. Quem começou foi a American Airlines e aos poucos seu uso se difundiu entre a maioria das companhias: o passageiro entra no programa de “milhagem” e acumula pontos em cada viagem, que poderá trocar por outra passagem ao totalizar valores pré determinados pelas empresas.

Mas a “privacy” é outra coisa, mais pessoal, uma exigência de passageiros ricos, ou importantes, ou de autoridades que amam viajar de maneira discreta e que raras vezes pagam suas passagens. A  first class foi inventada para as elites e teve sucesso e longa vida,ocupando 24 ou mais poltronas na dianteira das cabines de aeronaves sempre maiores.O preço das passagens,quando efetivamente pago,chegava a totalizar mais da metade da inteira receita de um voo de longa distância.Mas as crises econômicas reduziram a procura pela primeira classe e muitas dessas poltronas vazias eram oferecidas grátis a personalidades,ou eram ocupadas por executivos da empresa e da indústria,assim como por outros passageiros menos qualificados.

Assim, para reduzir o impacto negativo do preço da passagem foi criada outra classe, não tão cara e sofisticada como a first, mas com poltronas maiores daquelas da econômica, menus servidos em seqüência, bebidas e cortesias mais abundantes. Teoricamente dedicada aos executivos, conviveu por algum tempo com a primeira, mas acabou ocupando o seu lugar,quando a maioria das empresas aéreas decidiu oferecer-la como substituta da ex-first ,que desapareceu da maioria dos voos. E foi batizada com nomes diferentes pelas companhias: atualmente entre eles domina o promissor “Premium”.  

Começo assim o segundo capitulo da história da “executive class”. Presente na quase totalidade dos vôos domésticos e internacionais, ela praticamente substitui  a primeira classe, incorporando  muitas características que eram dela. Aliás, em algumas empresas ela proporciona serviços e comodidades acima daquelas que eram oferecidas pela velha first. Uma delas, que é a mais procurada, está relacionada com o tamanho dos assentos, que inclui outras sofisticações, como programas de TV individuais, tomadas para todos os modelos de computadores, além da exclusividade de vinhos e comidas.  

Atualmente as empresas competem para oferecer aos passageiros a “melhor” executiva, como fez nos anos 80 a TWA, que na tentativa de reagir à pressão dominante da Pan Am no tráfego internacional instalou na sua executiva um assento maior, que era parecido com um berço. Mas a atual  competição generalizada  para tornar mais atraente essa classe, começou quando a British Airways ,decidiu trocar os assentos da sua executiva por aqueles da first ,que eram totalmente reclináveis, sem rivais entre as congêneres.O evento ocorreu no ano 2000, e a partir de então o número de aeronaves com a primeira classe ficou sempre mais reduzido, enquanto as companhias procuravam para seus vôos de longa distância poltronas-camas sempre mais cômodas e subiam os preços das passagens de executiva ,atualmente mais caras de 4 a seis vezes  em comparação com aquelas de econômica. Com isso, por exemplo, nos novos aviões com mais de 200 assentos, com em média 36 poltronas de executiva ocupadas por passageiros pagantes, a empresa arrecadaria delas cerca da metade da receita total estimada para esse vôo. E se é verdade que isso não acontece com freqüência, está também comprovado que atualmente as aéreas sem poltronas amplas na executiva estão fora de competição.

Todavia a instalação desses assentos depende do tipo de avião, e exige um investimento bastante oneroso, inclusive pelos reflexos operacionais. De fato o custo de uma poltrona de largura acima de 60cm supera em média US$ 80 mil, e pode adicionar 100kg ou mais (incluindo os motores nelas instalados) ao payload da aeronave.Suas implicações na segurança e no consumo de combustível , elevam o custo da aeronave e das operações.  São problemas que, segundo informações das construtoras, já se tornaram partes dos projetos. Parece que as poltronas de executiva representam atualmente um novo “sales tool” que Airbus e Boeing não podem ignorar, pois as empresas estão apostando no crescimento dos embarques nessa nova classe para superar parte dos obstáculos econômicos que afetam a sua rentabilidade. Com esse objetivo, procuram poltronas que podem chegar a 2 metros de comprimento e ter mais de 130kg de peso, frustrando parcialmente os avanços técnicos para reduzir o peso das aeronaves e o consumo de combustível, e para diminuir os gases poluentes que elas dispersam pelos céus.