HISTÓRIAS QUE O TEMPO LEVOU
O CULTO DA
VARIG NUM SHOW ANUAL
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Tem épocas, ou dias ou horas na vida da gente nas quais as lembranças
fluem sem ter sido chamadas. São eventos que já fazem parte de nossa memória.
Um deles, para quem pertencia à estrutura executiva da Varig, é o meeting anual, a esperada Reunião de
vendas, uma cerimônia, um rito, uma tradição que consolidava a união entre
todos. Durava dois dias, ou três, não importa quantos, pois aqui não se faz uma
crônica nem se lembram fatos históricos, nem quando e onde aconteceram.
Sabe-se, apenas, que até o começo dos anos 90 aconteciam todos os anos. Entre
elas, talvez uma das mais lembrada foi a fabulosa reunião de Manaus, mas houve
também outras espetaculares, nas quais de fato se decidiram os rumos da Varig.
Havia nelas sempre um programa a cumprir. Antes se convocavam os
gerentes e representantes do Brasil e do exterior, se juntavam diretores e
assistentes. Cabiam ao presidente as ações principais, após os relatórios de um
ou de outro, as analises técnica de Robert Gate nunca mais repetidas por seus
sucessores depois de seu desaparecimento; e os balanços finais, sempre cheios
de esperanças, mas as vezes amargos. Nas últimas dessas reuniões o clima não era
mais aquele dos anos de glória. Os presentes sabiam que os compromissos
financeiros estavam causando problemas e que não seria suficiente aumentar as
receitas para resolve-los. O ambiente era mais tenso, todos estavam conscientes
das mudanças que haviam ocorrido e de suas graves responsabilidades. Na década anterior havia sempre tempo bastante
para rir das últimas piadas do inesquecível gerente mexicano, para visionar os
balancetes da granja no Nordeste, para aplaudir quem recebia os títulos de
membro da Fundação Ruben Berta, ou para um trago amigo e um almoço de
confraternização.
São dezenas as imagens de ex-gerentes e representantes. Motivados,
orgulhosos por pertencer á empresa maior da América Latina, 26ª no mundo. Mas
com a crise o número de participantes diminuía e depois veio a vez dos cortes
nas filiais, grandes e pequenas, que deviam ser fechada para reduzir custos
gerais, eliminando alugueis e salários. Decisões difíceis, as vezes complicadas
pelos sindicatos locais.
Na fase de declínio, havia uma saudade imensa dos velhos meetings de venda, onde dominavam
motivação, confiança, decisão de lutar para melhorar o faturamento, superar o target, contribuir ao crescimento da
companhia. Essas reuniões eram uma espécie de linfa que renovava a cada ano o
entusiasmo de executivos e de funcionários. Independente da origem, fossem eles de São Paulo, Frankfurt, ou Montevidéu ou Nova
York, havia para todos a mesma palavra de ordem: aumentar as vendas
e cortar os custos. Depois os cortes se tornaram obrigatórios, foram
decididos no Brasil, mas já era tarde, a roda do destino havia mudado de rumo.
Coube ao jovem paulista eleito presidente enfrentar todos os desafios
múltiplos que se haviam acumulado na época, a começar pelos leasings vencidos,
e depois as ameaças de cortes do combustível, de restrições operacionais, a
pressão dos credores, sem contar as conspirações internas para destronar-lo,
que vinham também de supostos colaboradores e colegas fieis.
Mas nas reuniões de venda não havia somente os representantes e gerentes
do exterior e seus colegas brasileiros. Estavam presentes também diretores e seus
assistentes, alguns tão medíocres que, depois de quase 20 anos, continua firme
a convicção de que não foram eles que fizeram a Varig prosperar. Ainda bem que
existiram, espaçados no tempo, punhados de exceções. Eram os mais
técnicos, uns bons administradores e os autores dedicados dos serviços
oferecidos a bordo.
Mas numa empresa de quase 30 mil, eram poucos os que estavam
qualificados e possuíam dotes para dirigir e orientar um exército de devotos,
que vestiam a camisa com entusiasmo maior de que um torcedor de futebol. Hoje é
fácil perguntar o que se podia esperar de diretores nomeados por méritos
regionais ou por razões de rodízio, ou dos que vinham de setores primários e
haviam aprendido o marketing por correspondência, só para se candidatar à
diretoria. Pela verdade, o sucesso alimentou um equívoco: depois do brilho de
Berta parecia fácil tomar conta de uma empresa multinacional como era a Varig,
contando na dedicação pessoal de quem, nas grandes cidades do país e do exterior,
madrugava para receber no aeroporto Vips e menos Vips; de quem fazia
das relações públicas com autoridades – para conquistar apoios à
empresa que foram sempre escassos - sua arma de vendas; de quem
coletava dados preciosos para o desenvolvimento de novas rotas.
Por eles e em nome da legião de devotos sem nome, na Reunião de vendas
era celebrado anualmente um evento que de fato era parecido com um culto à
Varig. Parecia, às vezes, estar num templo, participando de uma cerimônia coletiva,
real e inesquecível, pois nela havia celebrantes, fieis, rezas e, no final, não
faltaram os Judas.