TRANSPORTES AÉREOS PORTUGUESES, COM
CERTEZA
Fala-se muito da privatização da Tap, nestes dias em Lisboa. Segundo o presidente da aérea, Fernando Pinto, o processo deverá se definir neste primeiro trimestre e já haveria empresas estrangeiras interessada em ficar com parte das ações, cujo percentual ainda não foi quantificado pelo governo português. Uma seria a Qatar Airways, mas poderia ser outra maior,como a IAG, International Airline Group ,que nasceu da fusão da British com a Iberia ou,ainda, a Lufthansa. Todas elas tem grande interesse nos mercados do Brasil e da África, onde a Tap está se expandindo.
Desde
Transcorreu mais de uma década, desde que quatro brasileiros foram contratados para reorganizar a maior companhia aérea de Portugal, administrada até 2000 por Norberto Pilar, ex-funcionário da empresa estatal de transportes ferroviários. No início desse ano, a Tap Air Portugal, para enfrentar problemas financeiros que ameaçavam a sua existência, havia cedido 34% de seu capital (US$ 152 milhões) para o conglomerado SAir Group, controlador da Swissair, aérea que também havia demonstrado estar interessada em ficar com ela. Mas a união com o SAir Group não agradou a opinião pública, motivando o governo a procurar uma solução aparentemente mais caseira, em vista do bom relacionamento com o Brasil. Aí surgiu o convite a Fernando Pinto, na época ainda presidente da Varig -- mas já sob o bombardeio de seus colegas gaúchos desejosos de substituí-lo no comando da aérea -- que foi oficialmente respondido e aceito em meados de 2000.
A necessidade de privatizar a Tap, ainda sem data face ás restrições existentes, se encontrava na lista das providências que o governo se propunha realizar, complementando a ampla reestruturação que estava sendo confiada a Fernando Pinto. Havia mudanças de natureza técnica, planos de natureza promocional, cálculos de custos e rentabilidade a serem feitos. Por isso o novo presidente não foi a Portugal sozinho, apesar de não acreditar nas vozes “amigas” segundo as quais nas relações entre alguns setores da economia portuguesa e profissionais brasileiros de várias categorias corria algo azedo. Na verdade, dado o tamanho da missão, talvez não queira se expor ao risco de um round-trip Rio/Lisboa/Rio, caso não encontrasse um ambiente favorável e assessores competentes para com eles mudar o caminho da Tap. Assim quis que três brasileiros de comprovada capacidade, Mór, Torres e Connolly fossem a Lisboa com ele para tomar conta, respectivamente, do marketing, do planejamento e das finanças da empresa portuguesa, que estava encerrando o ano 2000 com US$ 137,07 milhões de prejuízo.
O panorama mudou em dois anos: já em
· Mas os transportes aéreos, por eficientes que sejam, raras vezes compensam no curto prazo os investimentos feitos e exigem continua disponibilidade de capitais, para cobrir os custos de novas rotas, o leasing de modernas aeronaves,a atualização técnica de seus sistemas de reservas e os salários. Tudo foi feito, além da expansão da rede de rotas, para incrementar as receitas e reduzir os custos. Em 2005, na celebração do 60º aniversário da Tap, já sem a designação Air Portugal na sua logomarca, haviam sido definidos entre outras iniciativas, a associação à Star Alliance, o relançamento do programa de fidelidade Navigator, rebatizado pelo nome de Victoria, a aquisição da PGA Portugalia, cujos aviões passaram a servir as rotas domésticas menores, mais vôos para a África. Sem contar aquela que, segundo os analistas de mercado, foi a jogada mestre, fruto do grande conhecimento do Brasil de parte do quarteto de executivos: a progressiva abertura de novas rotas no país, transformando as restrições bilaterais que excluíam mais freqüências para São Paulo e o Rio de Janeiro, em opções para operar novos pontos no país, hoje 8 em 75 conexões diretas semanais com Lisboa.
Entretanto, todo os anos o assunto privatização voltava à mesa das discussões políticas mas , na prática , sua implementação ficou limitada a alguns serviços de terra, com resultados satisfatórios. Há quem afirme que os sucessos obtidos pelos executivos brasileiros contribuíram, involuntariamente, para adiar a tomada de providências de alcance total. Pelo menos até os meses finais do ano passado,quando a crise econômica mundial derrubou alguns países europeus, e incluiu Portugal entre os financeiramente mais debilitados.
Com a exigência atual de um vigoroso corte em todos os gastos governamentais, “blindando o Orçamento do Estado” para evitar a intervenção do Fundo Monetário Internacional, a privatização da Tap voltou a se destacar entre as providências prioritárias. Depois do longo período de euforia pós-ditadura que, segundo economistas, fez o país esquecer “as finanças públicas, se endividar e perder oportunidades para crescer”, a volta do moderado de centro-direita Anibal Cavaco Silva, reeleito presidente de Portugal com mais de 53% dos votos no primeiro turno das eleições da semana passada, indicariam o afastamento da maioria dos portugueses das tendências do outro principal candidato, ainda ligadas a teses nacionalistas que contribuíram a bloquear as privatizações, afastando o país do caminho da União Européia. Parece que desta vez a privatização vai.