TRANSPORTES AÉREOS PORTUGUESES, COM CERTEZA

 

Fala-se muito da privatização da Tap, nestes dias em Lisboa. Segundo o presidente da aérea, Fernando Pinto, o processo deverá se definir neste primeiro trimestre e já haveria empresas estrangeiras interessada em ficar com parte das ações, cujo percentual ainda não foi quantificado pelo governo português. Uma seria a Qatar Airways, mas poderia ser outra maior,como a IAG, International Airline Group ,que nasceu da fusão da British com a Iberia ou,ainda, a Lufthansa. Todas elas tem grande interesse nos mercados do Brasil e da África, onde a Tap está se expandindo.

Desde 1998 a privatização foi aceita pelo governo de Lisboa como uma opção necessária.  Haviam transcorrido quase 25 anos da revolução e Portugal estava afastando a imagem de país subdesenvolvido que se havia consolidado no período da ditadura. Se encontrava entre os países membros da União Européia, mas tinha dificuldades para aderir ás normas aprovadas em Bruxelas. Pediu tempo, passaram os anos, e o governo continuou se responsabilizando por uma empresa aérea que, segundo a EU, não poderia receber ajudas financeiras. Um dos maiores obstáculos à privatização era a permanecia de conceitos nacionalistas que, ao identificar na companhia aérea do país a empresa de bandeira, virtualmente representando Portugal nos aeroportos onde aterrissava, não aceitavam a transferência de sua política e de seus destinos a investidores privados, que supostamente só procurariam lucros. A Tap, na época com pouco mais de 50 anos de existência era, e ainda hoje é, um símbolo de progresso entre os mais queridos do país.Por isso, entregá-la totalmente ao capital privado nunca foi cogitado e ainda hoje – quando a privatização bate à porta numa conjuntura nacional que não aceita mais demoras –-se sabe que  o governo não abrirá mão totalmente da aérea. Todavia, em tempos de abertura global, além da maioria de capitais nacionais serão aceitos investimentos externos, cujo aporte é indispensável para permitir o crescimento de uma empresa que, a partir de 2001, tem demonstrado possuir um elevado potencial.

 Transcorreu mais de uma década, desde que quatro brasileiros foram contratados para reorganizar a maior companhia aérea de Portugal, administrada até 2000 por Norberto Pilar, ex-funcionário da empresa estatal de transportes ferroviários.  No início desse ano, a Tap Air Portugal, para enfrentar problemas financeiros que ameaçavam a sua existência, havia cedido 34% de seu capital (US$ 152 milhões) para o conglomerado SAir Group, controlador da Swissair, aérea que também havia demonstrado estar interessada em ficar com ela. Mas a união com o SAir Group não agradou a opinião pública, motivando o governo a procurar uma solução aparentemente mais caseira, em vista do bom relacionamento com o Brasil. Aí surgiu o convite a Fernando Pinto, na época ainda presidente da Varig -- mas já sob o bombardeio de seus colegas gaúchos desejosos de substituí-lo no comando da aérea -- que foi oficialmente respondido e aceito em meados de 2000.

A necessidade de privatizar a Tap, ainda sem data face ás restrições existentes, se encontrava na lista das providências que o governo se propunha realizar, complementando a ampla reestruturação que estava sendo confiada a Fernando Pinto. Havia mudanças de natureza técnica, planos de natureza promocional, cálculos de custos e rentabilidade a serem feitos. Por isso o novo presidente não foi a Portugal sozinho, apesar de não acreditar nas vozes “amigas” segundo as quais nas relações entre alguns setores da economia portuguesa e profissionais brasileiros de várias categorias corria algo azedo. Na verdade, dado o tamanho da missão, talvez não queira se expor ao risco de um round-trip Rio/Lisboa/Rio, caso não encontrasse um ambiente favorável e assessores competentes para com eles mudar o caminho da Tap. Assim quis que três brasileiros de comprovada capacidade, Mór, Torres e Connolly fossem a Lisboa com ele para tomar conta, respectivamente, do marketing, do planejamento e das finanças da empresa portuguesa, que estava encerrando o ano 2000 com US$ 137,07 milhões de prejuízo.

O panorama mudou em dois anos: já em 2003 a Tap registrava um lucro de mais de 20 milhões de euros, superando o target de 12 milhões previamente fixado. A empresa cresceu, solidificou a sua presença na Europa e no Brasil e a série de balanços positivos continuou até 2008, quando foram inevitáveis os reflexos negativos das crises internacionais sobre a indústria de transportes aéreos. Mas o período de lucros evidenciou que a Tap estava conquistando metas nunca atingidas antes e reduziu a urgência da privatização, dando folga ao governo português, que de outra maneira não teria como suportar perdas médias anuais de cerca de 100 milhões de euros, principalmente depois que o SAirGroup foi vencido pela crise e desapareceu, junto com a proposta da Swissair.

·        Mas os transportes aéreos, por eficientes que sejam, raras vezes compensam no curto prazo os investimentos feitos e exigem continua disponibilidade de capitais, para cobrir os custos de novas rotas, o leasing de modernas aeronaves,a atualização técnica de seus sistemas de reservas e os salários. Tudo foi feito, além da expansão da rede de rotas, para incrementar as receitas e reduzir os custos. Em 2005, na celebração do 60º aniversário da Tap, já sem a designação Air Portugal na sua logomarca, haviam sido definidos entre outras iniciativas, a associação à Star Alliance, o relançamento do programa de fidelidade Navigator, rebatizado pelo nome de Victoria, a aquisição da PGA Portugalia, cujos aviões passaram a servir as rotas domésticas menores, mais vôos para a África. Sem contar aquela que, segundo os analistas de mercado, foi a jogada mestre, fruto do grande conhecimento do Brasil de parte do quarteto de executivos: a progressiva abertura de novas rotas no país, transformando as restrições bilaterais que excluíam mais freqüências para São Paulo e o Rio de Janeiro, em opções para operar novos pontos no país, hoje 8 em 75 conexões diretas semanais com Lisboa.

Entretanto, todo os anos o assunto privatização voltava à mesa das discussões políticas mas , na prática , sua implementação ficou limitada a alguns serviços de terra, com resultados satisfatórios. Há quem afirme que os sucessos obtidos pelos executivos brasileiros contribuíram, involuntariamente, para adiar a tomada de providências de alcance total. Pelo menos até os meses finais do ano passado,quando a crise econômica mundial derrubou alguns países europeus, e incluiu Portugal entre os financeiramente mais debilitados.

Com a exigência atual de um vigoroso corte em todos os gastos governamentais, “blindando o Orçamento do Estado” para evitar a intervenção do Fundo Monetário Internacional, a privatização da Tap voltou a se destacar entre as providências prioritárias. Depois do longo período de euforia pós-ditadura que, segundo economistas, fez o país esquecer “as finanças públicas, se endividar e perder oportunidades para crescer”, a volta do moderado de centro-direita Anibal Cavaco Silva, reeleito presidente de Portugal com mais de 53% dos votos no primeiro turno das eleições da semana passada, indicariam o afastamento da maioria dos portugueses das tendências do outro principal candidato, ainda ligadas a teses nacionalistas que contribuíram a bloquear as privatizações, afastando o país do caminho da União Européia. Parece que desta vez a privatização vai.