TAM/LAN: CASAMENTO INEVITÁVEL

 

Ainda aos tempos heróicos do Cmte. Rolim, quando a Tam lutava para se inserir entre as grandes do país, quando ainda havia Vasp e Transbrasil se agitando para tirar da Varig aquele que elas consideravam o monopólio dos vôos para os Estados Unidos, desde então as famílias Rolim Amaro e Cueto, donas da Tam e da Lan Chile, namoravam visando uma união que frearia a expansão da Varig e criaria uma companhia jovem e poderosa, com enorme potencial de crescimento.    

A morte inesperada do Cmte Rolim abriu problemas mais urgentes para a Tam, cuja família, representada pela dinâmica Maria Claudia Amaro, não somente decidiu continuar a obra do fundador, como também investiu em executivos e em projetos, com resultado nem sempre brilhantes, para dar à aérea um perfil internacional. Mas logo descobriu que lhe faltava a estrutura e a experiência para se expandir com sucesso no exterior e, quando a Varig faliu ,não aproveitou,como se esperava , a preciosa herança da “pioneira”. Rotas e prestígio foram desperdiçados por ela e pela congênere Gol. Era um capital acumulado em 70 anos pela empresa rio-grandense, que poderia ser o ponto de partida de uma grande companhia internacional, mas que nem uma nem outra das nacionais esteve em condição de aproveitar.

A Tam, mais que a Gol, nunca desistiu de ser a empresa brasileira que representaria o país na Europa e no resto do mundo. E conseguiu levar a sua frota para várias cidades e capitais do exterior, enquanto a Gol ainda está lutando para se afastar de sua origem modesta de aérea low-fare, tendo se dedicado de início apenas às rotas para o Sul do país.

Aliás, por um ou outro motivo a maioria das empresas da América Latina, nela incluindo Avianca, Aerolineas e Mexicana, tem lutado para resolver problemas financeiros ou políticos, que cortavam eventuais intenções de se impor sobre as congêneres continentais. Com exceção para a Lan Chile, que com obvia inspiração européia conseguiu se expandir voando de Santiago não somente para a América Latina,mas também para destinos mais afastados e prestigiosos.  Nas mãos da família Cueto, a Lan conseguiu crescer sem molestar às congêneres chilenas e as irmãs latino-americanas, mas não podia ignorar a presença da Tam brasileira, sem dúvida o maior obstáculo para concretizar seus eventuais planos de expansão continental.

A fusão com a Tam, além de previsível, tinha algo de inevitável. Países amigos,famílias amigas, rotas complementares : tudo para criar uma empresa em condição de enfrentar com sucesso as grandes dos EUA e da Europa.Uma empresa poderosa,que alarmou as entidades de Defesa da Livre Concorrência de ambos os países, além da Fiscalía antitruste do Chile e o Cade brasileiro.

Em Santiago, as exigências do Tribunal protetor da concorrência (TDLC) foram mais amplas e explicitas daquelas até agora apresentadas pelo Cade: aconteceu que sob pressão do órgão de defesa do consumidor, o TDLC em 21 de setembro aprovou a fusão, impondo 11 condições, das quais uma ou duas de difícil cumprimento. Aquela, principalmente, exigindo que a nova Latam seja aliada da Star Alliance ou da One World significa que deverá haver uma escolha entre as duas alianças concorrentes, pois na primeira está a Tam e na segunda a Lan. A saída de uma das alianças poderá ter efeitos bastante negativos para a nova empresa,pois a escolha de cada associação foi o resultado de analise baseada no mapa de rotas , visando principalmente uma integração com as congêneres ,que potenciaria as opções de vôo oferecidas aos respectivos passageiros.No momento a Lan opera mais para a costa oeste dos Estados Unidos e a Ásia, enquanto a Tam voa mais para a Europa e a costa leste dos EUA. Foi exigido também da Lan a renuncia a alguns slots e a quatro freqüências para Lima, além de mais controles no compartilhamento de vôos com aéreas que não pertençam à mesma aliança. Estima-se que as restrições impostas poderão causar à Latam uma perda modesta (US$ 10 milhões) comparada com os US$ 400 milhões de ganhos decorrentes das sinergias .

A fusão é agora inevitável. Poderá demorar mais alguns meses, mas já se sabe-se que a sede da Latam será em Santiago; que serão inicialmente criados dois comitês, um operacional e outro de carga, para que representantes da Lan e da Tam compartilhem a administração da nova empresa; que as operações das duas aéreas permanecerão independentes e que, por isso, cada aeronave continuará voando se identificando com o seu nome atual.