TOP URGENT : AÉREAS NACIONAIS PERDERAM O RUMO
Ontem começou um novo ano. Época em que todos fazem promessas, mas poucos as cumprem. Em geral porque não sabem como ou não querem. Muitas vezes nem entendem do assunto, porque ocupam cargos sem ter passado antes por uma seleção de competência, de experiência, de honestidade. E´ o caso típico do incompetente, eleito no voto ou escolhido por recomendação política para ocupar uma posição de destaque: sua preferência vai para parentes ou amigos ocupando os encargos disponíveis na organização ou no governo. Gente do mesmo nível cultural, naturalmente.
Exemplos ? Perguntar não ofende : quais ações de interesse coletivo podem ser esperadas da eleição de um palhaço ? Ou de um velho político antes indicado como exemplo de desonestidade administrativa ? Ou que esperar de alguém que nunca administrou um aeroporto ou uma empresa aérea, ainda mais se carece de inteligência suficiente para progredir com a experiência ? Não há respostas decentes para esses casos, como demonstram as crônicas de abusos, de erros, de omissões que são lidas nas páginas da imprensa. E nas últimas semanas ela tem dedicado páginas inteiras á nossa aviação civil.
Sobre o tamanho dos problemas que existem nos aeroportos nacionais há toda uma literatura. Supostamente foram programados para apoiar e incentivar o desenvolvimento dos serviços aéreos, oferecendo aos usuários as facilidades necessárias para se locomoverem e ás aeronaves espaços e assistência para agilizar pousos e decolagens. Ma na pratica a maior preocupação dos arquitetos consistiu em oferecer no interior dos aeroportos espaços amplos para a instalação de lojas e supermercados, deixando em segundo plano o tamanho e a comodidade das salas de espera. Até alguns anos atrás nem fingers existiam, para facilitar embarques e desembarques. E não houve previsão alguma de crescimento do número de pistas e das áreas de estacionamento das aeronaves, como se a indústria não tivesse ligames estreitos com o turismo, uma indústria cujo potencial de aumento anual exigiria estruturas flexíveis e mais espaços disponíveis para acompanhar esse fenômeno mundial. E aqui nem se fala de irregularidades administrativas ou de mau emprego dos escassos fundos disponíveis, que poderiam ter um capítulo a parte nesta crônica, nem da falta de conhecimentos técnicos da maioria dos diretores e presidentes da Infraero. Para gerenciar os fundos do governo, que são dos contribuintes, criam-se altos cargos entregues apenas a políticos ou a recomendados.
Menos óbvia, pelo fato que a indústria administra dinheiro privado, seria a verdadeira origem dos atuais problemas estruturais da maioria das companhias aéreas nacionais. Não fosse o fato que elas refletem o despreparo de seus dirigentes, que começa com o escasso conhecimento de inglês e se aprofunda em setores específicos de uma atividade na qual não é permitido improvisar.Que o diga a geração de especialistas e de fanáticos da aviação comercial que desapareceu com as últimas grandes empresas que prestigiaram o setor aéreo. Citar alguns nomes é renovar saudades. Mas como evitar a lembrança de Ruben Berta, que viveu e faleceu para engrandecer a sua Varig, na mesma época em que outros presidentes empolgados atuavam na Real ou na Transbrasil, enquanto técnicos de gabarito, como Robert Gate, contribuíam a transformar uma atividade nascente numa indústria poderosa?
Pouco sobrou, nas atuais folhas de pagamento da Gol, da Tam ou de outras, do know-how de quem elevou progressivamente o nível técnico das companhias aéreas do país. Muitos se aposentaram, enquanto uns executivos de gabarito ainda pontificam no exterior, junto com as dezenas de pilotos que tiveram que emigrar por falta de trabalho em pátria. E se ainda há executivos com capacidade técnica ou empresarial nos setores-chave da indústria, suas vozes são muitas vezes apagadas pelos donos de algumas aéreas. Assim, não bastam a boa vontade, os esforços individuais, a responsabilidade de uma minoria para manter as performances das empresas ao nível indispensável para crescerem e oferecer serviços de qualidade. Há falhas notórias nas revisões rotineiras das aeronaves, no treinamento e atualização permanente dos tripulantes, nos níveis de salários, no planejamento correto das planilhas de voo das rotas domésticas e internacionais.
O diagnóstico da atualidade aeronáutica nacional, como de recente declarou um executivo sindical, é que as novas empresas, sem excluir a Tam que delas é aquela mais antiga, operam tendo como único objetivo o lucro diário, sacrificando nesse altar velhos ideais de serviços eficientes, usuários felizes, prestígio. E quando promovem ou dão destaque a alguma inovação, mentem deliberadamente ao afirmarem que foi programada visando elevar o nível de qualidade dos serviços que oferecem a seus usuários.
Assim, esta nossa indústria de transportes aéreos, dotada de ILS e de numerosas outras eficientes parafernálias eletrônicas, chegou ao absurdo de atribuir a causas externas - temporais de verão de curta duração e não tempestades de neves como se viram na Europa e nos Estados Unidos – motivos para justificar atrasos de 20%, 40% ou mais num dia de operação, além de dezenas de cancelamentos de vôos que, em épocas recentes e ainda na semana passada, infernizaram os planos de férias ou de negócios de milhares de viajantes. Da mesma maneira , por falta de maturidade, esta industria insiste em negar que o maior desastre ocorrido no aeroporto de Congonhas foi causado pela imperícia, ou continua atribuindo somente aos pilotos estrangeiros as falhas técnicas que derrubaram outro jato na Amazônia . Isso evidencia a dicotomia da indústria nacional, que possui empresas dotadas das melhores aeronaves produzidas no mundo, sempre solícita com seus pedidos de novas encomendas milionárias, mas que desconhece a importância de otimizar também seus relacionamentos humanos. Por isso obriga aeroviários e aeronautas a ameaçar greves, os paga mal para que eles aceitem de voar horas extras alem do permitido, erra os planos de vôo, transgride normas, e, por fim, embaralha suas operações, na mais completa ignorância dos interesses dos usuários.
Governo, ministério da Defesa, Infraero, Anac tem pouco mais de três anos para alterar uma conjuntura que já foi muito além dos limites do tolerável. Infraero e empresas deverão realizar nesse período mudanças estruturais profundas. Mas , para que isso aconteça , antes devem ser mudados os responsáveis pela atual situação nos aeroportos e nas empresas.