LEMBRANÇAS DOS EX-COLEGAS JAPONESES

 

Parece que passou uma eternidade. De fato passou quase uma década, desde quando Tokyo ainda integrava em pleno a rede mundial da Varig.Depois, a rota que saia de São Paulo perdeu o seu brilho. E nas mãos da Gol não havia estrutura para quaisquer vôos fora da América Latina. Entretanto a crise havia chegado no Japão, com sempre mais brasileiros desempregados voltando ao país. Até que também a Jal Airlines teve que se render à quase falência e suspendeu a sua conexão via Nova York. E os emigrados sentiram na carne que tudo havia mudado, desde a época gloriosa em que haviam desembarcado em Narita cheios de esperanças, completando o elo histórico iniciado muito tempo antes pelos milhares de agricultores japoneses que se haviam espalhados pelo interior de São Paulo .

Sempre alimentei um sentimento de respeito pelos japoneses que tive oportunidade de conhecer e apreciar. Sempre modestos, mas confiáveis, cumpridores, sérios no trabalho. Os que integravam as equipes de Varella e de Galera em Tokyo, descobriram em suas viagens de familiarização e por ocasião das reuniões anuais da Varig no Brasil, um mundo muito distante, física e culturalmente, daquele onde haviam nascidos. Traziam com eles a herança de antigas, gloriosas histórias de samurais, de longos conflitos com os vizinhos chineses, mas também episódios épicos de resistência e de coragem na guerra contra os americanos e, por fim, a lúgubre, desumana, cruel lembrança da matança de 150 mil de seus concidadãos, planejada a sangue frio por um presidente dos Estados Unidos e executada por um comandante que não vacilou quando a aeronave que pilotava sobrevoou a cidade designada para ser destruída por uma bomba. Truman quis vingar Pearl Harbour e os marinheiros USA surpreendidos e mortos em seus navios, numa troca premeditada com dezenas de milhares de inermes moradores de duas pequenas cidades da ilha japonêsa.

Em seus apartamentos na periferia de Tokyo, os ex-colegas moravam em maioria em habitações cujo espaço era mínimo e onde se alimentavam parcamente, segundo as tradições orientais. Normas rígidas de vida haviam sido por eles absorvidas plenamente. Entretanto, as luzes estonteantes da Ginza, os neons multicoloridos, as vitrines imensas e luxuosas eram, como ainda são, a expressão de um país que estava ressurgindo das cinzas de Hiroshima e que conquistava com a técnica espaços sempre maiores no comércio internacional, graças ao incrível desenvolvimento de suas indústrias, que antecederam com as conquistas eletrônicas a era da informática. Nas reuniões no Brasil, havia sempre nas mãos dos salesmen da aérea alguma máquina maravilhosa, a novidade que os turistas procuravam nas lojas dos shoppings de Tokyo.

Graças ás suas conquistas técnicas que dominavam nos mercados ocidentais, muitos estrangeiros tinham uma imagem territorial do Japão enorme, como se ocorresse uma osmose com a grande dimensão de seu prestígio internacional. Era uma nação poderosa, que nada tinha ver com a ilha superlotada que aparecia nos mapas, exposta a violentos monções e a terremotos em série, lutando contra a terra árida de seus campos para tirar dela o sustento.

Mais tarde, há alguns anos, a crise financeira atacou o país. Grandes firmas faliram, as demissões empobreceram a classe média e até a Japan Airlines, orgulho da nação por sua eficiência, não resistiu á violenta redução do tráfego aéreo e á pressão das dívidas que andaram se acumulando. Mais uma vez o Japão sofreu decorosamente,quase em silêncio , sem nunca renunciar á luta para tentar virar a mesa.

No final do ano passado, faziam alguns meses que haviam aparecidos os primeiros indícios positivos de uma reação econômica tenaz. A própria aérea de bandeira  já estava voando novamente, com uma nova estrutura,novas rotas.E a economia estava chegando no estágio do stop and go, com a Bolsa funcionando sem caídas acionárias e a produção voltando a competir nos mercados do exterior. Foi quando explodiu na ilha este terremoto arrasador, com 9 graus de potência, talvez o mais violento da história: Tokyo resistiu, com seus edifícios construídos para não cair, mas numerosas cidades costeiras do nordeste foram destruídas pelas ondas imensas do tsunami. E perto de Sendai o oceano em fúria chegou às usinas atômica de Fukushima.

Agora o terror está de volta: a história está se repetindo, ameaçando de novo com as radiações dos reatores milhares de pessoas. Uma ameaça injusta, sem dispor de armas adequadas para afastá-la totalmente. Mudam os nomes das cidades e as circunstâncias dos acidentes nucleares,  mas as tragédias são parecidas, tendo como denominador comum as novas vítimas inocentes que estão se acrescentando à longa lista dos que já pereceram.

Em nome de todos os que aqui os conheceram, surge o desejo incontrolável de enviar aos ex-colegas, a Makino, Takagi, Shiratawa, Takeyama e aos outros, uma mensagem de solidariedade, muito mais que apenas uma frase convencional, que não teria palavras adequadas para expressar todos os sentimentos. Que seus Deuses os protejam, talvez seja o voto que eles esperam.