HISTÓRIAS
QUE O TEMPO LEVOU
O LEILÃO QUE APAGOU A VARIG
(10º)
Depois do forçado afastamento de Rubel Thomas, entre os que entraram em
cena poucos tentaram encontrar no mercado ou no governo caminhos para resolver
os imensos problemas financeiros da Varig. E os que o fizeram estiveram em
permanente contraste com franco- atiradores, cujos interesses nada tinham em
comum com o futuro da empresa. Mas muitos foram os que tiraram vantagens da
ausência de uma auditoria competente.
Foram anos de leilão corrido não oficial, que proporcionou vantagens,
lucros e até riqueza a quem melhor soube aproveitar da conjuntura. Oficialmente
não há registro de vendas de aeronaves e repartição de receitas, talvez porque
as empresa de leasing não o permitiram, mas as negociatas
foram numerosas. Individualmente, só como exemplo, podem ser citados os
executivos que se afastaram antes da posse da Gol, garantindo com antecedência
ilegal seus supostos direitos trabalhistas, que outros milhares de funcionários
da aérea ainda estão aguardando. Corporativamente, vale por todos o grande
golpe que a fictícia VarigLog, com a incompetente cumplicidade da turma de
debutantes que dirigia a novata Agência Nacional de Aviação Civil, deu no
leilão no qual adquiriu indevidamente, para depois repassar legalmente à Gol, o
prestígio da Varig e seu corpo agonizante.
Um breve resumo desse vergonhoso capítulo ajuda a melhor entender a que
ponto a fase semifinal do drama chegou. Em 2005, havia foco cruzado em volta da
Varig. Rejeitada pelo governo, a aérea estava se entregando a quem lhe prometia
a salvação, que exigiria a disponibilidade de fundos bastantes para
garantir-lhe sobrevivência inicial e gradual reestruturação. Nessa procura,
passaram pela suntuosa sala de sua diretoria carioca (que ainda estava
iluminada por ricos quadros, herdados de duas gerações de administradores
eficientes, que depois desapareceram) executivos e presidentes “ad hoc”, raras
vezes competentes ou cheios de boas intenções, outras apenas
ambiciosos que, sozinhos ou em trio, gastaram muito dinheiro, viajaram bastante
e pouco de prático concluíram. Pelo contrário.
Até que a luz veio do Oriente. Seu nome : Lap Wai Chan, executivo chinês
de quem se falou todo o mal possível, antes que aparecessem a prestigiosa
financeira Mattlin Patterson e seus recém associados representantes
brasileiros. A Varig é nossa, disseram, à moda antiga e tanto enrolaram as
autoridades judiciais, a Anac e a opinião pública que quando a VarigLogistic
americana se prontificou a participar da firma brasileira batizada pelo nome de
Volo do Brasil, criada sob medida pelos sócios Audi, Haftel e Gallo, somente o
Snea desconfiou do direito da novata adquirir legalmente a VarigLog, na época
um dos setores mais dinâmicos da Varig S.A.
Com dinheiro em maioria chinês e portanto acima do 20% permitido, a
VarigLog foi a ganhadora do solitário leilão judicial celebrado em julho de
2006 e ficou com o espólio da Varig pagando US$ 20 milhões. Nove meses depois
de uma gestação tumultuada, a mesma Gol que não se havia interessado de
competir no leilão anterior, decidiu (sem explicações cabíveis) adquirir da
VarigLog (por 98 milhões cash e 6
milhões de suas ações, agora desvalorizadas) a agonizante, Varig/VRG com a qual
disse que arrasaria a Tam nas rotas internacionais. E para se preparar a operar
esses vôos, inaugurados enfim sem fanfarras, a Gol gastou longos meses,
disputou com as congêneres concessões internacionais, encomendou mais 767-300.
Perdeu logo dinheiro e, acostumada aos lucros imediatos dos chamados vôos low fare
e dos serviços rodoviários, depois de breve e onerosa experiência, os cancelou
seguidamente. Foi assim que a Varig/VRG desapareceu de aeroportos outrora
amigos, deixando apenas as marcas indeléveis do prestígio conquistado, muitos
fieis executivos frustrados, muita saudade entre as centenas de milhares de
seus ex-usuários.
No inexplicável “apagão”, depois de mais de 70 anos de excelentes serviços
prestados aos brasileiros, ao país e aos estrangeiros que a procuravam em
número sempre crescente, a empresa que havia ficado “grande” pelo entusiasmo de
Berta, que melhor representava a aviação comercial brasileira no mundo, que
havia conseguido voar como bandeira do país enquanto as congêneres desapareciam
nos céus imensos da competição, a Varig nascida como Viação Aérea Riograndense,
cessou de existir, foi cortada em dois, uma parte em mãos incompetentes, outra
tentando cumprir suas funções de depositária de dívidas bilionárias, assistida
pela Fundação que, enfim, voltou a cumprir as funções que haviam motivado seu
nascimento.
Deixou uma enorme legião de admiradores, de fieis, de inconsoláveis, mas
nenhum herdeiro digno de levantar novamente o seu nome. Deixou dívidas que não
conseguiu pagar pois não teve amparo governamental para continuar voando com
altivez e prestígio.Deixou milhares de órfãos, que ainda hoje não receberam
seus diretos de trabalho ou de aposentadoria, valores insignificantes se comparados
com os bilhões estorcidos diariamente à União por servidores seus incompetentes
e desonestos.E depois de tribulada vigília começou a voar para a América
Central, patrocinada pela Gol. Ponto final.
Mensagem aos saudosistas: esqueçam e deixem de sonhar. O jeito é ficar
com o que voa por aí. (Fim das histórias )