INCÓGNITAS DA NOVA DÉCADA PARA A AVIAÇÃO COMERCIAL
Poucos comentaram que o ano
2011, recém iniciado, é o começo de uma nova década que se anuncia rica de
incógnitas para a aviação comercial. As previsões são otimistas, mas quando
foram elaboradas não havia indicações de possíveis grandes novidades nas estruturas
políticas de vários países do Oriente Médio e da África. De positivo havia o
grande crescimento do tráfego internacional na Ásia/Pacífico, na América Latina
(com destaque para o Brasil) e de empresas árabes relativamente novas, como a Emirates.
De outro lado, ficou constatado que na primeira década de 2000 houve a gradual
diminuição da participação do tráfego originado nos Estados Unidos, que perdeu cerca de 15% do total mundial e o nascimento de
mega-carriers, quais a Air France/KLM (2004), a Delta/Northwest (2008) e, em
2010, as maiores fusões do século, que dos dois lados do Atlântico Norte uniram
British e Iberia em Londres e United / Continental nos Estados Unidos, sem
contar o projeto latino-americano assinado pela Lan e pela Tam.
A primeira década tem assistido, ainda, ao nascimento
e crescimento das alianças a partir de 1997, que na ordem foram a Star
Alliance, a Oneworld e a SkyTeam, além da consolidação
das empresas low-cost, com a Ryanair demonstrando enorme potencial de expansão
na Europa e evidentes intenções de chegar a outros continentes. Isso apesar dos
atentados terroristas de 2001 em Nova York e da grave crise econômica e
financeira mundial que, depois de um ano 2007 que havia reanimado a inteira
indústria, explodiu em 2008 e ainda persegue alguns países da Europa. A
recessão do tráfego atingiu praticamente todas as empresas, até que houve uma
quase inesperada reação a partir do final de 2009, que reanimou os transportes
internacionais. Nesse contexto, que custou bilhões de dólares de perdas ás
companhias associadas à IATA, mas que – como observamos – se encerrou sob
previsões otimistas, surgiram especulações e analises que, ainda atualmente, estão
tentando individuar quais acontecimentos de maior importância para a indústria
deverão caracterizar a próxima década. Nelas tem papel importante as novas aeronaves que Boeing e
Airbus estão concluindo, com características comuns de média capacidade, menor
consumo de combustível, grande autonomia
e uma série de inovações técnicas
dedicadas ás comunicações e aos
entretenimentos de bordo, enquanto os
A380 da Airbus continuarão sendo a exceção , tendo a nova série de 747 da Boeing no seu rasto.
Na analise dos itens
essenciais ao crescimento da indústria, grande potencial é atribuído ao
progresso social em curso na China, no Brasil e em países do Oriente Médio, da
Ásia e da África. De fato, ele continuará aumentando a afluência aos serviços
aéreos de usuários pertencentes ás classes que, em maioria, no passado utilizavam
apenas meios de transportes terrestres. O fenômeno, evidenciado em 2010 pelo
espetacular crescimento de 25% do tráfego aéreo doméstico do Brasil, será um
dos maiores incentivos ao crescimento do número de aéreas e de suas frotas, e
ao grande aumento das freqüências e de novas ligações domésticas e internacionais.
Mas o fenômeno não significará lucros garantidos para todas as empresas, pois
motivará mais competição inclusive tarifária, com riscos para as aéreas que não
acompanhem com serviços eficientes o ritmo de crescimento de sua oferta de
transportes.
“Efficiency is the name of the game”, escreveu o presidente da Tam,
Marco Antonio Bologna, num texto publicado pela revista Airline Business no qual - comentando as recentes aberturas
governamentais e da indústria para facilitar a todas as empresas a liberdade de
voar em regime de open skies -
admitiu que somente juntando suas operações, como pretendem fazer Tam e Lan, a
maioria das atuais companhias poderão se atualizar e sobreviver. Da mesma opinião,
os executivos de outras aéreas consideram indispensável uma maior aproximação
aos needs das varias categorias de
viajantes, através da segmentação dos produtos oferecidos, paralela á sua
global disponibilização através da consolidação permitida pelas alianças. Estão
desaparecendo os cavaleiros solitários
vitoriosos na indústria de transportes aéreos.
Entretanto, um outro modelo
de viagens que está crescendo no mundo inteiro continuará sendo oferecido pelas
empresas low-cost. Seu sucesso nos últimos quinze anos de operações na Europa é
indiscutível. Todavia deve ser lembrado que, se a maior delas, a Ryanair, ocupa
atualmente uma das primeiras posições nas estatísticas mundiais pelo número de
passageiros transportados, muitas outras se perderam pelo áspero caminho da concorrência,
seguindo involuntariamente o destino de ilustres predecessores, que pertenciam
á categoria mais tradicional, como a Eastern, a PanAm, a TWA, a Sabena ou a
Swissair.
Mas como demonstra a
história das últimas décadas, o sucesso da indústria continua ligado a dois
poderosos fatores que estão fora de seu controle: a conjuntura econômica e o petróleo.
Os países mais dinâmicos, como tem demonstrado China, India e Brasil em 2010,
são os de maior potencial de crescimento ao longo desta década.Seus índices
demográficos elevados , suas economias fortificadas, as enormes áreas que
ocupam, produzem efeitos determinantes
no desenvolvimento dos transportes aéreos.Esses países e mais as nações árabes ,que tem na Emirates sua maior representante e em
aeroportos como o de Dubai ou de Doha as poderosas realidades de investimentos
setoriais de centenas de bilhões de dólares, tem tudo para se destacarem nas
próximas estatísticas mundiais do tráfego aéreo.
Mas ninguém tem a bola de cristal e não
faltam, desde o começo do ano, motivos de alerta relacionados com as mudanças
que deverão acontecer no Oriente Médio e na África. Difícil é prever o impacto
que elas terão na política e na economia desses países, nem seus reflexos nas
atividades aéreas. E há ainda a considerar que, se o preço do petróleo subir
além de limites aceitáveis, essa temida incógnita possui grande potencial para
afetar o crescimento da indústria, como aconteceu na década passada, em 2001,
2005 e 2008, anos que deixaram suas marcas negativas nos balanços das empresas aéreas.
E atualmente, como nunca antes , a
indústria está precisando de lucros ,
para investir novos capitais nas estruturas técnico-operacionais que a nova conjuntura está exigindo.