AS AMEAÇAS DA ALTA DO PREÇO DO PETRÓLEO
A imprensa divulgou há dias que o preço do barril de petróleo já havia
passado dos US$ 110. Voltou assim, nas economias mundiais, o fantasma do “ouro
negro”, que em época bastante recente já havia superado esse valor, causando
preocupações enormes, por se tratar de uma matéria prima essencial para a
fabricação de inúmeros produtos, além da fonte de energia da qual motores e
reatores, em terra e no ar, dependem para funcionar. O mundo moderno ainda não
conseguiu encontrar outro produto que o liberte totalmente dessa dependência
enquanto, para complicar mais, o seu consumo aumenta sem parar.
A atual tensão dos mercados é maior que em julho de 2008, quando o
petróleo havia chegado a cerca de US$ 150 o barril, pelo fato que o aumento de
preço é impulsionado pela forcada redução da produção, que parece ser o
principal objetivo da Líbia. As previsões são pessimistas em relação à ascensão
do preço do barril, em conseqüência da revolta popular na terra de Gaddafi –
que possui as maiores reservas da África – apesar delas representarem valores
equivalentes a “apenas” cerca de 3,6% do total mundial de bilhões de barris ,
ocupando o nono lugar na classificação dos maiores produtores .Se trata de um
valor relativamente modesto (cerca de 43,7 bilhões de barris) se comparado com
as reservas dos restantes países, mas a sua localização e a quantidade da
produção (que chega em média a 1,6
milhão de barris por dia,dos quais cerca de 70% exportados ) alimentam
diretamente vários mercados europeus e
mediterrâneos. Pelo resto, até que a Arábia Saudita (com suas reservas de 266,7
ou mais bilhões de barris) e os restantes países da Opep, que reúne os do
Oriente Médio, a Venezuela, o Canadá e a Rússia, fiquem fora de qualquer conflito,
o perigo seria apenas de que o petróleo escasseie por algum tempo, mas nunca
que possa faltar. Mas se também a Argélia enfrentar no curto prazo problemas de
governança, o preço poderá chegar á casa de US$ 200.
Até o momento, como estava sendo previsto,
a situação tem forçado a subida dos preços do petróleo nas negociações que se
realizam nos mercados de Londres, Nova York e da Ásia, alcançando índices ainda
toleráveis referentes aos fornecimentos futuros. O difícil é estimar os novos
níveis de preços e o tempo necessário para que, faltando a participação da
Líbia ,os mercados passem a operar num novo equilíbrio entre demanda e oferta.
Em relação à aviação comercial, segundo os analistas, o preço do
combustível representa entre 12% e 15% de seus custos totais. Quanto aos custos
diretos operacionais, o fuel teria
uma participação média variável de uma para outra empresa entre 30% e até 44%, de
acordo com os modelos de aeronaves e com a extensão de suas rotas. Nos
mercados, a partir da produção, se estabelece uma estreita relação entre a
oferta de petróleo cru e o preço do combustível a ser cobrado das empresas
aéreas, cabendo aos chamados “suppliers”,
que são as subsidiárias das produtoras, providenciar a entrega do refinado nos
depósitos dos maiores aeroportos. Em geral, até quando produção e demanda se
equivalem e, ainda, se não há previsão de escassez, as flutuações de preços são
mínimas. Mudanças mais sensíveis decorrem de uma conjuntura política adversa
que afete os países produtores. Por
simples curiosidade vale lembrar que, na série histórica, antes do ano 2000 o
preço mais elevado do petróleo havia sido registrado entre 1979 e 1980, chegando
a US$ 35 por barril, valor que segundo as previsões da época não seria superado
antes de 2010. Mas as ocorrências de 2008 alertaram as empresas aéreas sobre os
riscos das flutuações acentuadas do preço do combustível e motivaram o
crescimento ao recurso ao hedge, uma
forma de proteção que fixa os preços futuros em contratos bilaterais que em
geral podem chegar a cobrir até 50% do consumo previsto.O assunto, por
coincidência, foi focado há dias numa teleconferência de Leonardo
Pereira,vice-presidente de Finanças da Gol, por ocasião da celebração do 10º
aniversário de operação da empresa.Ele afirmou que a Gol trabalhava com uma
estimativa de preço médio do petróleo (WTI) entre US$ 82 e US$ 93 o barril,
mantendo a proteção para 20% do consumo estimado para os próximos 12 meses numa
faixa de US$
O problema, ao se tornar geral na indústria, obrigaria todas as empresas
a rever os atuais níveis tarifários, nas rotas domésticas e internacionais. Haveria
assim um aumento gradual de preços das passagens, inicialmente menor de parte
das empresas de países que possuem stocks de combustível . As aéreas
provavelmente adotariam a redução da oferta, visando equilibrar-la à demanda
com uma melhor utilização de assentos. E poderão ocorrer reflexos também nos
planos de expansão das empresas, que atingiriam as fornecedoras de novos
equipamentos, reduzindo a atual intensa entrega de aeronaves. E o aumento das
tarifas poderá afetar a demanda, interrompendo uma tendência positiva cujos
efeitos eram esperados neste ano pela inteira indústria, depois de um 2008
problemático, que se estendeu até 2009 e deu os primeiros sinais de melhoria
somente no ano passado.