O TURISMO PARA O EXTERIOR DEGENEROU ?
Na atualidade há dois tipos de turismo no Brasil. O
tradicional, amante da natureza, da história, da cultura e o novo, inspirado
pelo consumismo. Ainda existem grupos de viajantes que vão ao exterior para realizar
um sonho, como acontecia quando embarcar para um país estrangeiro a bordo de um
avião tinha sabor de aventura.Mas antes da II guerra mundial,o ritual era
outro: longos dias à bordo de navios com destino a Europa ou os Estados
Unidos,entre temores e dúvidas e afinal a visão dos lugares sagrados, da obra
de arte imortal, dos restos de gestas épicas, das geniais criações que
sobrevivem ao tempo.Por isso principalmente se fazia turismo, além que por
razões de saúde , de negócios ou de família. E havia sempre sabor de aventura
na chegada e as memórias se acumulavam nos rolos Kodak que, na volta ao lar
testemunhariam a ida, a estada e o prazer de ter ficado numa outra terra,
talvez mais próxima da natureza, da arte ou do progresso.
Tempos de desenvolvidos eram aqueles vividos pelas
gerações que cresceram no Brasil até os anos 80 e antes, quando sem TV e sem
aviões a jato,o resto do mundo que aparecia aos olhos do turista era sempre uma
descoberta, talvez a única aventura de uma existência, após acumular economias
para a passagem, folhetos e sonhos. E os souvenires trazidos na mala eram parte
viva das lembranças. Muitas vezes havia também algum objeto mais raro ou
valioso, que o turista temia criasse problemas na alfândega, naqueles tempos
nos quais pagar o imposto no aeroporto de chegada era obrigatório, em defesa
também da indústria nacional.
O dicionário Aurélio identifica o turismo com esta frase:
”Viagem ou excursão feita por prazer, a
locais que despertam interesse”. Ou seja turismo se faz por prazer,para
visitar localidades famosas, ou na moda,ou das quais se ouviu falar e se deseja
conhecer. Mas da mesma maneira que seu crescimento mundial é um dos fenômenos
mais impressionantes da nossa época, cresceram no Brasil assim como em outros
países em fase de desenvolvimento outras motivações de viagem, além daquelas
convencionais. De fato o boom de embarques para o exterior e em particular para
os Estados Unidos, não foi com certeza causado pelo impacto promocional criado
pelos bilhões de dólares gastos na propaganda oficial daqueles países. Sem
dúvida essas imagens apresentadas na mídia divulgaram um flash do país, mas
talvez sua eficácia como incentivo à viagem foi e é atualmente muito menos
eficaz de que uma página do New York
Times com os endereços e os preços dos últimos brinquedos eletrônicos, do
novo calçado da Reebok. Ou, para os menos jovens, de objetos de uso caseiro
notoriamente bem mais caros no país, pela concorrência de chineses ou
americanos, sem contar o mark-up excessivo dos produtores e o nível excessivo
dos impostos pago ao governo. É uma nova forma de consumismo, em escala
internacional, motivada pela imitação juvenil, pelo desejo de parecerem
atualizados e modernos, talvez uma forma para conquistar o mundo através das
imagens condensadas reproduzidas pelos Ipads
e seus congêneres. Sem a menor inspiração cultural, mas apenas pela procura
obsessiva de sons, de jogos e de invenções técnicas, que nada acrescentam a
quem foi tão longe para realizar esse sonho a um custo menor.
Não há crítica à mania, nem ás despesas feitas em viagens
desprovidas da menor finalidade de enriquecimento mental, pois afinal os
turistas nacionais que gastaram em julho passado 1 bilhão e 700 mil dólares nas
compras “made in the USA”, tinham esse direito, em muitos casos recém
conquistado na virada que o ex-presidente da República deu na economia das
classes menos favorecidas. Mas gera melancolia comparar o status quo do turismo aquele de épocas
bastante recentes, por nós vividas, quando voar para Nova York não era, como hoje
é ,pouco mais que uma viagem pelo Brasil.E ainda existem os obstáculos
burocráticos que ,dez anos após a tragédia de 11 de setembro, os consulados
continuam levantando, sem saber se daqui a mais uma década poderão abrir suas
fronteiras a todos.Também naqueles tempo existiam as compras, para si e para
colegas,mas não nas quantidades de hoje, pois a maioria dos brasileiros não
gastavam em média os quase 6 mil dólares desvalorizados per capita de hoje. Em
grupo ou sozinhos, ao desembarcar no J.F.Kennedy muitos deles não consideravam
a corrida para as despesas a razão principal da viagem e procuravam nos mapas
outros prazeres, como caminhar pela 5ª Avenue, relaxar no Central Park, ou
visitar o Metropolitan Museum of Art.
Pois é: se hoje shopping e turismo se confundem e a
maioria prefere carregar a sacola de despesas ao mapa de Manhattan ou ao do
dito Museu, não dá para negar que o turismo degenerou.