MENSAGEM Á TAM: PILOTO É COISA SÉRIA
Parece que as empresas aéreas acreditam ter um anjo
protetor particular, exclusivo, que lhes evitará os problemas e os desastres
que as crônicas mundiais registram com sempre maior freqüência. E´ verdade que
os acidentes representam índices estatísticos insignificantes, menos de um por
mais de um milhão de vôos, mas quando eles ocorrem as vitimas somam números
impressionantes, que significam outros tantos dramas e lutos familiares.
Em nossa época de automatização das cabines de comando,
quando nos Airbus os computadores poderiam levar uma aeronave da decolagem ao
pouso final sem necessidade de interferência de comandos manuais, tem sido
registrados dois acidentes fatais que os relatórios atribuem a falhas na
utilização dos comandos eletrônicos, que pilotos de maior experiência poderiam
ter evitado, intervindo de maneira adequada no momento crucial.
Se trata, como é
de conhecimento geral ,da desastrada aterrissagem no aeroporto de Congonhas, e
da caída no Atlântico de um vôo cujo destino era Paris. Tam e Air France não o
admitem, mas é opinião generalizada entre profissionais da aviação civil, que
os tanques sobrecarregados e o reverso desativado contribuíram para impedir ao
A320 de frear antes do impacto, assim como a imperícia de pilotos novatos não
soube evitar que o A330 se espatifasse nas águas do oceano.
E haveria, ainda, o caso da colisão entre o B737 e um
Legacy na Amazônia, cuja responsabilidade atribuída aos dois pilotos americanos
é atenuada pelo fato que eles não conseguiram se entender com os controladores
das torres brasileiras. Parece que as frases dos pilotos não eram entendidas
e,também, que estes não conseguiam entender as supostas instruções dos
controladores, feitas num inglês que pode ser definido como “pré-elementar”,ou
seja praticamente ininteligível.
Segundo normas da Agência Nacional de Aviação Civil, inspiradas
por aquelas em vigor no mundo, para comandar uma aeronave num vôo rumo ao
exterior os pilotos nacionais devem demonstrar possuir o nível “operacional” em
inglês. Sem alcançar um domínio de idioma considerado fluente, ele é todavia considerado
consistente quanto ao conhecimento da linguagem aérea,aquela que orienta
decolagens e pousos e deve ser utilizada quando surgem situações
particulares,as vezes críticas,que são comunicadas à procura de subsídios
técnicos, para evitar complicações. Antes do nível “operacional”, numa escala
de níveis de proficiência em inglês , se encontram os “pré-operacional”, o
“elementar” e o “pré-elementar” : pilotos num situação dessas podem atuar em
vôos dentro do Brasil, até conseguirem ser aprovados em novos exames, que os
colocam no ponto de partida da qualificação lingüística exigida no mundo
inteiro para confiar a um piloto o comando de uma aeronave que voa além dos
confins de seu país.
Passando agora das hipóteses à pratica, surgem duas perguntas:
1) a Tam, única empresa que voa para países onde o idioma aeronáutico é o
inglês, cumpre sempre as normas da Anac, que basicamente são também
internacionais e 2) a Anac tem fiscalizado o cumprimento total da norma que
exige o nível “operacional” de inglês do comandante que voa para o exterior ?
Segundo revela a Folha
de S.Paulo de 2 de agosto, num título de cinco colunas, a Tam “usa pilotos
reprovados no inglês em vôo ao exterior”. Uma senhora acusação que o jornal
afirma ser baseada num documento da empresa datado de 25 de maio,obtido pela
Folha”.Segundo esse documento “, escreve o jornal, “a companhia determina que
os pilotos reprovados no inglês possam
operar vôos internacionais enquanto o avião sobrevoar o território brasileiro.
Ao entrar no exterior, um outro piloto
assume o lugar do que fala mal o inglês;mais longos,esses vôos usam três ou
quatro pilotos” .
Sabe-se que 13,8% dos cerca de 370 pilotos de vôos
internacionais da Tam, ou seja uns 50 deles,foram
reprovados nos testes de revalidação do idioma realizados no primeiro
semestre,sendo rebaixados para o nível inferior,o “pré-operacional”; nesse”
podem haver falhas na compreensão de instruções ou em se fazer compreender em
situação de risco”.
Obviamente a Tam nega que teve
que recorrer à mistura “half and half”
por falta de pilotos e, junto com a Anac que ainda não tomou providências,
ignora que a ICAO e as agências de aviação dos Estados Unidos e da Europa
determinam em suas normas que a exigência mínima de idioma inglês “se aplica a
qualquer vôo internacional, e a todos os
pilotos que compõem a tripulação”, como pode ser lido no site www.anac.gov.br. Se assim não fosse, quem
impediria ao piloto da categoria “não operacional”, após ultrapassar os confins
do país, de continuar operando até chegar em áreas do exterior onde os
controles de terra exigem mais diálogo em inglês ? E numa emergência ou havendo
dúvidas na interpretação de um comando automatizado, feito em inglês, haveria ao
lado do suposto “não operacional” um piloto de reserva, da categoria
“operacional” pronto para intervir ? Não pode haver dúvidas.
Depois das tragédias de Congonhas e do Atlântico, todo “jeitinho nos céus” (como a Folha define
o recurso da Tam), assume características inomináveis.