Histórias
que o tempo levou
A
verdade sobre a última presidência legal da Varig
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Vários ex-diretores,em 1995, quando forçaram o afastamento do último
presidente da Varig legalmente eleito, Rubel Thomas, e nos anos sucessivos, tentaram
vincular o fim triste da empresa à sua administração. Falaram em gastos
excessivos, em imprevidência administrativa, até em megalomania. Nada provaram e,
quando alguns deles assumiram por breve tempo a presidência, nada fizeram que
mudasse de forma permanente o rumo negativo da companhia, cujas causas reais
vinham de muito longe e – como demonstraram os fatos citados por Harro Fouquet
nos capítulo anteriores – estavam fora do controle dos administradores das
empresas aéreas nacionais.
Isso não exclui que houve erros entre 1990 e maio de 1995, mas na Varig
eles tiveram o pleno apoio de uma administração colegial, na qual raros
diretores cumpriram com competências suas funções, com destaque negativo para a
parte comercial que, no Brasil e no exterior, estava praticamente abandonada às
iniciativas de seus diretores locais, entre os quais havia alguns pouco
gabaritados.
Da mesma maneira, haviam faltado candidatos à presidência da empresa melhor
qualificados que Rubel Thomas para, após o falecimento de Hélio Smidt, ocupar o
seu lugar. Essa carência e a falta de apoio de parte dos remanescentes aos que sucessivamente
assumiram por breves períodos a presidência da empresa – alguns até conseguindo
animadores resultados em suas tentativas de resolver os problemas mais urgentes
- ficaram ainda mais evidentes depois do forçado afastamento de Thomas, quando
foi substituído por um diretor originário do Sul, que no curto período em que
esteve na presidência só evidenciou seu despreparo para o cargo representativo
que pretendeu exercer, e muita ambição, como nunca havia sido vista no 4º andar
da sede carioca da Varig.
Tão numerosas foram as interpretações negativas da administração Thomas,
inclusive de parte de diretores que queriam tirar “o corpo fora” e as fizeram circular
sem comprovação entre grupos interessados, que o ex-presidente - além de
ameaçar legalmente quem pretendia desprestigiá-lo - decidiu no final de 2007 divulgar
através deste site as providências que tomou ao longo de cinco anos e na fase
mais crítica da crise, para melhorar a performance da empresa e para reduzir os
custos. Basicamente comprovou que no primeiro trimestre de 1995 havia
conseguido fechar o balanço da Varig com mais de US$ 100 milhões de lucro,
acrescentando que essa reação positiva foi interrompida pela manobra que o derrubou.
Antes desse final, sem explicação plausível,foi ignorado o conteúdo de um memorando estritamente
confidencial, datado 13 de abril de 1995, assinado por Odilon Junqueira, na
época superintendente geral de Recursos Humanos, encaminhado além que ao
presidente, aos vice-presidentes, diretores, consultores e superintendentes
gerais da empresa. O documento não teve a menor divulgação, apesar de conter um
relatório detalhado sobre a inteira estrutura da Varig, desde dezembro de 1991
até março de 95.
Entre os dados da real conjuntura da Varig nesse qüinqüênio, reunidos
por Rubel Thomas num documento de 12 páginas, tem destaque aqueles dedicados ao
número de funcionários, que no período foi reduzido de 25,7%. De um total de
28.870 (26.723 trabalhando no Brasil e 2.147 no exterior) ficaram 21.451, dos
quais 19.896 no país e 1.555 lá fora. Entre os brasileiros 46,5% estavam na
faixa de idade entre 28 e 37 anos, 9,2% entre 48 e 57 e 123 tinham mais de 58
anos. Dos tripulantes técnicos, que eram 1.686, ficaram 1.573 e dos 4.094 de
serviços sobraram 3.342. A quantidade de horas extras diminuiu no Brasil de
20,2% em número, mas seu custo para a empresa subiu de 25,5% devido aos
aumentos salariais que se verificaram no qüinqüênio. Nos setores com número
maior de funcionários haviam 3.957 pessoas na manutenção; 3.342 comissários;
2.588 no tráfego aéreo; 1.496 nas vendas de carga e 1.175 nas vendas de
passagens. Quanto aos salários, calculados no Brasil ao cambio do dólar Iata e no exterior unificados
todos em dólares americanos, em março de 1995 totalizavam US$ 27.373.070, dos
quais US$ 23.553.759 pagos no Brasil e US$ 3.819.311 no exterior. Comparados
com os de 1994 haviam diminuído de US$ 349.871.
O esforço de controle dos custos já produzia resultados, enquanto a
administração tentava obter prorrogações de vencimentos em moedas estrangeiras
e apelava para que os maiores credores nacionais, inclusive as governamentais
Petrobrás e Infraero, concedessem à empresa mais prazos para pagamentos
relacionados com o combustível e com taxas operacionais. E não faltaram pressões
junto das autoridades para obter do BNDES um consistente apoio financeiro,que
representaria a pública demonstração aos credores e ao mercado de que o governo
acreditava na reação da Varig.
Mas forças ocultas e interferências indevidas contribuíram para frustrar
aquelas que podem ser consideradas ás ultimas tentativas sérias feitas pela
administração central para enfrentar os problemas financeiros da companhia.