HISTÓRIAS DA VARIG QUE O TEMPO LEVOU
O COMEÇO
Havia bastante tempo que
no Estado do Rio Grande do Sul se falava da criação de uma empresa aérea
nacional, mas foi necessária a iniciativa de um grupo restrito de “fanáticos”
da aviação comercial para que o projeto ficasse mais consistente. Além das
dificuldades técnicas, superadas com o apoio do governo, existiam problemas
logísticos e financeiros e complicados relacionamentos com empresas alemãs.
Tudo foi debatido numa reunião realizada no dia 1 de abril de abril de 1927 na
Associação Comercial de Porto Alegre pelos dez sócios fundadores, e dias
depois, num anúncio na imprensa eram divulgados detalhes da iniciativa para
conhecimento de todos. Ficou evidente que havia muito interesse e por isso em seguida
foi convocada a primeira Assembléia Geral, que em 7 de maio reuniu um número
surpreendente de participantes: 550. Eles elegeram Otto Ernst Mayer (Diretor
Administrativo); Rudolf Cramer von Klausbruch (Diretor Técnico) Fritz Hammer,
Albert Bins (Diretor do Conselho Fiscal), e os conselheiros Carlos Albrecht
Jr., Max Sauer e o Barão Von Dudenbroch.
O maior acionista da nova
empresa, que seria conhecida pelo nome de Viação Aérea Riograndense, Varig, era
o Syndicato Condor, com 21% do capital, valor esse representado por um Dornier
Waal prefixo P-BAAA batizado de “Atlântico” e pela aeronave Dornier Merkur
prefixo P-BAAB cujo nome era “Gaucho”. Em 1930, quando o Syndicato Condor se
retirou da nova empresa ,a sua quota de participação foi transferida ao governo
do Estado do Rio Grande do Sul.
Dias depois, já em 10 de
maio, a Varig estava com a autorização para iniciar operações ligando
cidades do Rio Grande do Sul ao litoral de Santa Catarina. Mas sua primeira
rota, que ligou Porto Alegre a Rio Grande, foi inaugurada oficialmente pelo
Dornier Waal “Atlantico” somente em 3 de fevereiro de 1928. Ela era conhecida
como “Linha da Lagoa”, pela localização das duas cidades às margens da Lagoa
dos Patos.
A
dança dos aviões
Mais tarde o governo do
Estado do Rio Grande dos Sul liberou verba para a compra de 14 Junkers F-13
p/passageiros e de 2 Junkers A-50 para transporte do correio. Menos feliz, já
na véspera do estouro da II Guerra Mundial, foi a decisão de adquirir na
Alemanha os Focke-Wulf FW 200, que por serem aeronaves que poderiam ser
convertidas em bombardeiros causaram a reação do governo dos Estados Unidos. Além
de proibir a compra, ele exigiu do aliado brasileiro o afastamento do Syndicato
Condor, de clara origem alemã e representante da Lufthansa.
Aliás, durante a guerra,
devido à falta de peças de reposição para os aviões de sua frota, todos
fabricados na Alemanha, a Varig enfrentou problemas muito sérios para manter
suas operações. Sua primeira nova aquisição de um equipamento diferente foi um
bimotor bi-plano de fabricação britânica, o De Havilland DH89A Dragon Rapide, com
capacidade de oito passageiros, batizado “Chuí”, que recebeu o prefixo PP-VAN. Um
exemplar dessa aeronave, que ostentava a figura de Ícaro e realizou o primeiro
vôo internacional, ligando Porto Alegre a Montevideo , foi cedido pelo Museu da
Varig de Porto Alegre ao Museu Aerospacial do Rio de Janeiro,onde está exposto.
Mais tarde, numa das
fases mais delicadas atravessadas pela Varig, também por causa das restrições
impostas pela guerra contra a Alemanha, foram incorporados à frota oito
Lockheed 10A Electra, com capacidade para oito passageiros, que em origem
haviam sido encomendados pela Braniff Airways.
Durante quase três anos
os Lockheed 10-A Electra foram as principais aeronaves da empresa. Em 1946 chegariam
os Douglas DC-3 sobras de guerra que Ruben Berta comprou diretamente dos
americanos para que a Varig ampliasse o número de suas rotas.Entretanto outra
empresa,a Cruzeiro do Sul, ao tomar conhecimento da ambição da Varig de voar
para o exterior, fez uma experiência exemplar e negativa para avaliar o
potencial do tráfego entre Brasil e os Estados Unidos, realizando em 1948 e
1949 nada menos que 30 voos para Nova York e Washington .O mesmo projeto de
voar para os Estados Unidos estava entre as prioridades do presidente da Varig,que
para evitar de repetir o erro das congênere pediu, sem êxito, o apoio do
governo federal.Somente em 1950 ,com Getulio Vargas, também gaucho, na
presidência da República veio a oportunidade esperada.Diante da possibilidade
expressa pelo presidente de incentivar uma rota comercial para os Estados
Unidos operada por aeronaves brasileiras , foi fácil obter a aprovação do vôo
para Nova York e o apoio financeiro para a compra de três quadrimotores
Lockheed L-1049-G Super Constellation.
Assim, em 2 de agosto de
1955 decolava do Rio de Janeiro o primeiro vôo regular de bandeira brasileira
para Nova York, que fazia escalas em Belém, Port of Spain, e Ciudad de
Trujillo. E para enfrentar a competição do consorcio Real/Aerovias, que passou
a voar de São Paulo para Miami e Los Angeles oferecendo tarifas muito baixa que
atraiam os passageiros da Varig, Ruben Berta apelou para uma nova estratégia de
marketing, baseada em eficientes relações públicas, as R.H. dos entendidos,
praticadas também a bordo das aeronaves que voavam para Nova York. Numa época
na qual voar era ainda um ato de coragem, quando um jato intercontinental era
operado por dois comandantes, dois co-pilotos, dois mecânicos de vôo, dois
navegadores e dois rádio telegrafistas, não havia computadores, as reservas
eram anotadas a lápis nas “cartas de vôo” e os usuários eram em geral das
classes sociais mais ricas, a homenagem verbal no embarque e a bordo, tiveram
um efeito incrível. Os analistas as considseraram decisivas para o sucesso da
Varig na rota para Nova York, na qual derrotou uma gigante da época, como era a
Pan American, que ficou com 40% do tráfego antes monopolizado por ela,a Eastern
e a Braniff. Nas asas da tenacidade empreendedora, do feeling excepcional e da firmeza de Berta, a sua foi uma luta
vitoriosa para lançar a Varig na grande competição para a conquista de
crescente prestígio e de segmentos sempre mais expressivos do tráfego aéreo.
Na longa marcha ele
enfrentou problemas enormes, decorrentes em particular do grande número de
aeronaves de diferentes características e de difícil manutenção, como foram os
Convair 990-A, Convair 340, 440, Douglas DC-8, DC-6B, Electra II. Sem contar
com as dificuldades decorrentes de fusões com outras empresas, inclusive
involuntárias, que exigiam absorver executivos e funcionários as vezes
frustrados por ter perdidos as oportunidades aguardadas na companhia de origem.
Somente em aeronaves, a Varig da época de Berta havia herdado 220 modelos
diferentes ,muitos em condições operacionais precárias,dos quais 143 originários
do Consórcio Real/Aerovias e 77 que haviam pertencido à Panair do Brasil.
Lutando contra as conjunturas
Até
aqui as informações sobre o crescimento da Varig tem conotações “históricas”,
que relatam o seu desenvolvimento graça às iniciativas do presidente que a partir
dos anos 50 simbolizou as melhores qualidades competitivas da empresa. Em
épocas sucessivas, depois do falecimento de Ruben Berta, os acontecimentos na
aviação regular do país obedeceram a roteiros mais complexos, onde fatores
econômicos e políticos assumiram papeis que, com freqüência, saiam do controle
da cúpula da aérea. Entre eles a inflação galopante, as crises políticas, a
ditadura militar, além da pressão crescente que o inevitável endividamento teve
sobre o equilíbrio financeiro da companhia.
O que pode ser comprovado, pela coleta de informações veiculadas na
imprensa e que se encontram nos arquivos dos jornais, é que foram raros os
períodos, nas últimas décadas do século passado, nos quais a luta contra o
subdesenvolvimento, os contraste políticos de conteúdo social e o crescimento
dinâmico da indústria mundial de transportes aéreos não exigiram dos mais
dedicados executivos da Varig um esforço enorme, para manter a empresa no rumo
certo. E ela raras vezes contou com o apoio do governo, assim como – da mesma
maneira que as congêneres – conseguiu agir com total independência, inclusive
para manter seu predomínio na concessão de rotas, que impropriamente era
tachado de monopólio, quando na realidade era apenas a expressão de sua grande
competência. Sem dúvida, a crise maior, que afetou as receitas, teve início
quando foi permitido ás duas maiores congêneres de voarem para os Estados
Unidos, fragilizando as rotas de maior prestígio da Varig, que de repente foram
percorridas por três empresas nacionais e quatro norte-americanas.
Na conjuntura adversa, quando seus compromissos financeiros começaram a
estourar nos mercados internacionais, ela foi abandonada à fúria dos credores,
inclusive os que pertenciam ao governo, enquanto explodiam ambições pessoais de
poder, manobras de grupos hostis dentro da própria empresa, para alcançar e
tirar proveito da ocupação de cargos mais elevados.
Entretanto a engrenagem impiedosa da indústria mundial não permitia
algum stop and go : a empresa que não
se atualizava oferecendo serviços e aeronaves modernas por acreditar que um
passado prestigioso fosse suficiente para competir nos mercados, era destinada
a desaparecer. Dentro desses parâmetros, que atualmente permanecem, para acompanhar
a evolução da indústria a Varig havia assumido dívidas milionárias,
particularmente com as empresas de leasing.
Somente o governo, superando restrições convencionais relacionadas com a
utilização de fundos dos contribuintes, poderia e deveria ter identificado na
Varig muito mais que uma aérea deficitária, minada por lutas internas, por ter
sido uma empresa que em seus mais de setenta anos de lutas, sempre exibindo
orgulhosamente as cores verdes e amarelas, havia sido identificada, no país e
no exterior, como a empresa de bandeira.
Mas para entender os acontecimentos de várias décadas, que em 2000
levaram a Varig ao leilão que a castrou para sempre, mais que considerações
gerais valem dados e fatos. E ninguém, além de Harro Fouquet, ex-diretor de
Planejamento da Varig, em cujo Grupo transcorreu 41 anos, os relatou com maior
objetividade e competência, num longo texto que escreveu em janeiro de 2003, já
publicado neste nosso site. Data vênia do autor reproduzimos a seguir parte das
26 páginas de seu pró-memória,que são aquelas dedicadas à “principais causas do
endividamento da Varig” e aos “fatores negativos conjunturais” que contribuíram
ao trágico fim daquela que foi a maior empresa aérea da América do Sul.
Os “custos Brasil”
O autor observa inicialmente que o “elevado
endividamento da companhia resultou das perdas acumuladas em sucessivos
exercícios” causadas em sua maior parte “por uma serie de fatores adversos,
inclusive de caráter conjuntural”. Como conseqüência direta, a partir do
balanço de 2000, a empresa viu seu patrimônio líquido registrar valores
negativos. Entre “os motivos mais relevantes” das perdas sofridas pela Varig,
esteve em primeiro lugar a “insuficiência tarifária doméstica”, causadora “dos
“danos provavelmente mais contundentes já infligidos a empresas aéreas
brasileiras nas últimas décadas”.
Ele escreve: “O Decreto n° 91.149 de 14 de março de
1985 anulou, na prática, a política da realidade tarifária até então aplicada
com sucesso pelo Ministério da Aeronáutica. Com a centralização do controle das
tarifas de todos os serviços públicos na aérea econômica do governo, as tarifas
aéreas passaram a ser reajustada sempre após e em níveis muito inferiores aos
resultantes do agravamento dos custos. Portanto, as compensações autorizadas
eram totalmente insuficientes para manter o equilíbrio econômico-financeiro dos
contratos de concessão. Levantamento destinado a quantificar as perdas de
receita conseqüentes da “prática da insuficiência tarifária” no transporte aéreo
doméstico entre 1965 e 1991 revelou, para o conjunto da indústria montante em
cruzeiros equivalentes, a época, a 2,2 bilhões de dólares norte-americanos, dos
quais 986 milhões atribuíveis à Varig e à Cruzeiro. A respectiva ação
indenizatória está aguardando julgamento de recurso da União ao Superior
Tribunal de Justiça, STJ. Com o reconhecimento judicial desse direito de
indenização não estaria excluída possibilidade de uma reversão do patrimônio
líquido da Varig, atualmente negativo, conforme já mencionado”.
Outras causas do endividamento reunidas pelo autor
sob o título “Custo Brasil”, evidenciam o ônus que alguns de seus itens
representaram na época para os custos da empresa, sem terem correspondentes em
outras atividades econômicas e, na maioria dos casos, vigorando apenas no país.
Na ordem de importância Fouquet lista em primeiro
lugar as dificuldades para obtenção de financiamentos externos, após a
moratória declarada pelo Brasil em 1982, que impediu a Varig de obter nos EUA
financiamentos para um total de cinco jumbos B-747-300. A única
alternativa, aprovada por nossas autoridades, consistiu em contratar a operação
com instituições do Japão, em ienes, moeda daquele país que em seguida se
valorizou frente ao dólar norte-americano. Isso dobrou virtualmente o montante
original devido pela Varig e inviabilizou o esquema de amortização. “As
aeronaves foram desativadas e devolvidas no curso da reestruturação financeira
de 1999, ocasião na qual permanecia ainda um saldo a pagar remanescente da
ordem de US$ 250 milhões !”, enfatiza Fouquet.
Em seguida ele compara os percentuais da carga
tributária incidente sobre a indústria do transporte aéreo, divulgados pelo
Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias, SNEA, como segue: USA 7,5%%;
Europa 16,0%, Brasil 35,0%%. Além disso, acrescenta, “vem sendo praticada uma
política altamente discriminatória” em relação aos preços e aos reajustes
periódicos dos preços do querosene de aviação” o principal insumo do transporte
aéreo, que responde por cerca de 20% de seus custos”, tornando o combustível
“consumido pelas empresas aéreas brasileiras cada vez mais caro em relação aos
demais derivados de petróleo”. De fato o querosene de aviação, segundo o SNEA,
teve aumentos cumulativos de preços de 834,85% desde janeiro 1999 e de 136,05%
desde janeiro 2002, contra respectivamente 314,96% e 46,28% da gasolina
automotiva e 317,05% e 57,98% do óleo Diesel.
Quarto integrante do “Custo Brasil” é o “Ataero”,
ou seja uma sobretaxa de 50% que com a promulgação da Lei nº 7.920 de 12 de dezembro
de 1989 passou a onerar as tarifas aeroportuárias e de navegação no Brasil.
“Sua cobrança tem sido fortemente contestada” escreve Fouquet e acrescenta
comentário da “Review of Airport Charges 2001” segundo o qual “o
Aeroporto Internacional de São Paulo aparece como o terceiro mais caro (após
Osaka e Tóquio) na aplicação de taxas aeroportuárias, dentro do universo dos 50
principais aeroportos internacionais do mundo”. (Continua no próximo domingo)