GUERRA OU PAZ NA HOTELARIA
CARIOCA ?
O artigo da semana passada sobre a inauguração de outro hotel Windsor e
o significado atribuído à iniciativa, no contexto de um esforço coletivo da
categoria para incrementar o turismo para o Rio de Janeiro, mereceu vários
comentários de parte de leitores e até de um executivo ligado a uma entidade hoteleira,
que pediu manter o anonimato.
Algumas opiniões consideraram oportuna e efetiva a possibilidade de os
hoteleiros juntarem suas iniciativas para dotar a cidade de uma infra-estrutura
receptiva à altura das previsões de crescimento do fluxo de visitantes
nacionais e estrangeiros; outras expressaram pessimismo em relação a essa
suposta colaboração, afirmando que a classe não tem demonstrado no passado
vontade real de colaborar. Os a favor argumentam que promovendo o turismo
haverá hospedes para todos, enquanto cuidando apenas da divulgação das próprias
instalações os hoteleiros podem não atingir o turista alvo, que talvez procure
um hotel com diferente localização e outra categoria de tarifa.Quem, pelo contrário,
acha difícil que um hotel de luxo consiga receber mais hospedes somente em
decorrência do aumento do fluxo de
visitantes á cidade, apresenta como
motivo principal de seu parecer o fato que o nível do turismo mundial parece
imitar o que ocorre nos vôos internacionais: a primeira classe foi praticamente
abolida e há grande procura de tarifas baixas.Uma grande oferta de quartos em
hotéis de luxo poderia ter dificuldades para alcançar a taxa de ocupação que
cubra os elevados custos diários. De fato, em geral, quem viaja pagando uma
passagem descontada raramente aceitará de gastar mais desse valor por uma
permanência no Rio de 3 ou quatro noites, ainda mais com a atual valorização do
câmbio do real.
Mas a verdade é que - quando se fala em hotelaria nacional - há mais
suposições sobre o andamento do setor de que dados históricos ou indicadores
atualizados que permitam fazer previsões técnicas para o futuro próximo. O
próprio ministério do Turismo, que deveria dispor desses dados, admite que o
dialogo com os donos de hotéis é sempre difícil e fica ainda mais complicado
quando se tenta juntar um dos indicadores essenciais para avaliar o trend setorial, que é a taxa de ocupação
e, eventualmente, esboçar planos de crescimento da indústria. Faltando esse número, é impossível calcular o
fluxo turístico, inclusive porque faltam porcentagens confiáveis sobre o número
de visitantes que aqui desembarcam e escolhem se hospedar em hotéis. Em outra
época, na Riotur, foi tentado coletar nas recepções dados semanais ou até mensais
da taxa de ocupação, sem identificação do estabelecimento de hospedagem que os
fornecia, mas foi uma experiência de curta duração e de escassa confiabilidade
dos dados recebidos.Da mesma maneira, seria necessário ter conhecimento do valor da receita obtida por cada quarto da unidade hoteleira,
cujo cálculo considera o aproveitamento diário e a tarifa real aplicada, que em
muitos casos difere, para menos,daquela oficial paga pelo hóspede “last minute”. Essas variações dependem
de entendimentos com agentes de viagens ou grupos e da oscilação da demanda nas
várias épocas do ano.
Entretanto a hotelaria, em particular aquela do Rio, chegou agora a uma
fase histórica importante para o seu crescimento. A insuficiência de quartos
disponíveis para hospedar eventos que reúnem grande número de participantes,
tem representado uma das grandes preocupações dos organizadores da próxima Copa
do Mundo e da Olimpíada. Há quem critique que a indústria hoteleira do Rio
tenha pressionado as autoridades locais para evitar a proliferação de
apart-hotéis, sem considerar que eles não resolveriam a falta de hospedagens
nos grandes eventos, mas no dia-dia trariam uma série de inconvenientes à
imagem da cidade, como aconteceu em São Paulo. Eventualmente, como fazem outros
países, habitações particulares poderão se oferecer para hospedar visitantes
menos exigentes, pois parece que já foram consultados sem êxito os donos de
grandes navios para utilizar suas cabines durante os eventos e não teve boa
aceitação a eventualidade de ocupar quartos de alguns motéis de bom nível. Mas
a verdade é que somente a iniciativa privada, utilizando também o bilhão de
reais que o BNDES está disponibilizando para financiamentos do setor, poderá
resolver a escassez de leitos, concluindo obras já iniciadas e edificando a
ritmo acelerado novos estabelecimentos.
De outro lado, quem apóia o crescimento sustentado do número de hotéis e
de quartos disponíveis parece ignorar que em todas as épocas e em toda parte do
mundo o fluxo turístico obedece a oscilações sazonais. A Copa do Mundo e a
Olimpíada acontecem a intervalos regulares, mas a cada edição aumentam os
países candidatos a hospedar esses eventos lucrativos e promocionais: a Copa,
por exemplo, em 2014 voltará a ser disputada aqui depois de 64 anos, desde que
no Pacaembu de São Paulo o Brasil perdeu a histórica final com o Uruguai.
Por isso, os acontecimentos internacionais são parte importante mas não
determinante do sucesso comercial de um hotel, que muito depende da imagem de
seus serviços, aliada á tarifa e á localização. Não seria recomendável contar
demais sobre o impacto que a Copa e a Olimpíada terão sobre o futuro fluxo
turístico para o Rio. Nem sobre as opções de hospedagem que serão escolhidas
pelos visitantes/ torcedores. O excesso
de oferta poderia se transformar num risco no médio prazo, em vista do custo
elevado do investimento hoteleiro. Sem contar que a atual conjuntura favorável
da economia nacional tem seus limites, com certeza avaliados
pelos empresários de mais visão, sabedores de que os eventos passam, mas seus
estabelecimentos ficam.