ESCRITOR LEMBRA AS EMOÇÕES DOS PRIMEIROS VOOS

 

Um escritor de renome, João Ubaldo Ribeiro, vai viajar em missão para o exterior para, como ele afirma, “explicar o Brasil a uma educada platéia estrangeira, que acha que todo brasileiro mora na Amazônia.......” . Antes do embarque, a proximidade da viagem despertou nele lembranças, que conta em dois artigos publicados no jornal “O Globosob o título “Avionando”. São comentários e episódios cujo objetivo tem algo em comum com os dez capítulos das “Histórias que o tempo levou” já apresentados neste site: contar acontecimentos que pertencem à história da aviação nacional. Por isso transcrevemos e resumimos a seguir, data vênia do autor, alguns dos episódios e das considerações mais curiosas de “Avionando”, com a recomendação aos nossos leitores de ler os originais dos dois textos, dos quais oferecemos apenas um modesto apanhado.

Ribeiro afirma inicialmente que a sua “primeira avionada” aconteceu quando ainda havia velhotes que “se recusavam a olhar para cima,quando um avião passava,e classificavam como mentirosa qualquer história relacionada com aviões. Só acreditavam nos desastres.....”. E lembra que o fato de haver nos aviões banheiros “com uns buraquinhos, por onde eram espargidas no ar as sujeiras dos passageiros “ fez surgir muitos comentários, havendo inclusive  quem se revoltava.Falava-se muito de aviões também quando a Força Aérea operava o chamado “vôo da coqueluche” dedicado às crianças atacadas por essa tosse que era incontrolável e contagiosa, e que às vezes as impedia de comer ou dormir . “Certamente por causa da mudança de pressão atmosférica” relata o escritor, garantia-se que um vôo de cerca de meia hora curava ou aliviava os sintomas da doença.

Depois ele lembra que seu primeiro vôo foi a Salvador, pela LAP, Linhas Aéreas Paulistas: “os assentos eram em duas fileiras fronteiriças, ao longo da cabine, como nos aviões de paraquedistas que a gente vê em filmes de guerra”. Num desses vôos,o pai do escritor experimentou aquela que ele definiu uma “espetacular queda num vácuo, quando “o avião pareceu despencar vertiginosamente, para depois parar tão de súbito como começara,dando um tremendo susto.....”.

Ribeiro dedica bastante espaço ao DC-3, que ainda “tem fama de excelente avião”, lembrando que” Na hora em que os cintos já estavam amarrados, as portas fechadas,e os motores acelerando,havia sempre diversos passageiros pálidos, outros se benzendo, outros debulhando um rosário e, os que não estavam de olhos fechados, se entreolhando com um eventual sorriso amarelo...”. Agora não se notam tantos apelos à Providência, mas espero que continuem.....”, acrescenta o escritor.

Na segunda parte de “Avionando”, ele levanta a hipótese que talvez tenha sido “meio fantasioso” achar que o DC-3 foi tão bom, lembrando quando o avião andava “baloiçando ao vento debaixo da chuva”, e a senhora ao lado com “a boca colada num saquinho de papel. E as viagens longas eram muito chatas, acrescenta, apesar do serviço de bordo extraordinariamente caprichado sob qualquer ponto de vista, muito especialmente os padrões de hoje. Faziam de tudo para entreter os passageiros......” ele lembra, até ofereciam aos que estavam cruzando o equador pela primeira vez um diploma personalizado assinado por Netuno.

O serviço de bordo, insiste o autor, para estes tempos da barra de cereal era fantástico mesmo, guardanapo de pano, talheres de metal, aperitivos diversos, menus a escolher e vinhos também, além de espaço para usar isso tudo – na classe econômica”. E compara com as intenções de algumas aéreas de hoje , que pretendem obrigar os usuários a pagar pelo uso do banheiro,ou a  viajar em pé, acrescentando que  está “esperando a qualquer momento aparecer uma companhia aérea oferecendo a classe supereconômica, em que os passageiros viajarão em engradados “.

A seguir lembra que “houve, em vôos da Varig, até churrascos na brasa, preparados numa churrasqueira por um gaúcho a caráter”, e relata ter ouvido que os Electras da velha Ponte Aérea tinham uma espécie de lounge na parte de trás onde muita gente viajava” bebericando,fumando e jogando conversa fora, como num boteco fino”. E conta com muitos detalhes a história da cabine de um DC-3 invadida pelo mau cheiro de um dos banheiros e da iniciativa mal acabada de um comissário, para tentar resolver a insuportável situação. Conclui sua lista de lembranças aéreas, fatos em geral desconhecidos pelos viajantes de hoje, recordando - talvez para diminuir as saudades daqueles tempos - que as melhores empresas ofereciam aos passageiros até capinha especiais, de material absorvente, para evitar que, vazando durante o vôo devido à mudança de pressão, as canetas-tinteiro estragassem a roupa do portador.

Ele encerra suas memórias esparsas no passado com uma chamada à realidade atual, listando dúvidas e pequenos problemas que, como usuário, enfrenta atualmente antes de embarcar.