DESEJANDO UMA BOA VIAGEM

 

Todos receberam, e ainda recebem com prazer, nalguma ocasião de embarque para longe de sua cidade de residência, o clássico voto de “boa viagem”. Sem distinção do meio de transporte escolhido, seja  ele o carro, o trem, o ônibus ou o avião. A separação, breve ou mais demorada, independente do destino, motiva essa expressão de carinho. E quem está para iniciar a sua viagem, de férias ou de trabalho, recebe o voto como o prelúdio de uma experiência agradável, uma previsão de dias diferentes, talvez a realização de um sonho acalentado no tempo. Na volta, aquela “boa viagem” assumirá entre lembranças e sensações vividas o seu significado real, dentro do balanço das ocorrências agradáveis ou imprevistas que se verificaram entre a hora do embarque e aquela do retorno. Na atualidade, viajar significa com freqüência tomar um avião, que vai para o Norte, o Sul ou atravessa o Atlântico. E a emoção começa e se encerra no mesmo aeroporto.

Quem escreve percorreu, em geral por motivos de trabalho, um grande número de rotas domésticas e internacionais voando em aviões comerciais. Até as viagens breves, ou repetidas para o mesmo destino, eram diferentes, diversificadas pelas circunstâncias do embarque, a estada a bordo, as pessoas encontradas. De fato, a palavra embarque resume várias experiências, desde os serviços do aeroporto, check-in incluído,até a chegada ao assento. Depois vem os acontecimentos a bordo com destaque para o relacionamento com os comissários, a comida e a comodidade do assento. Entretanto, o balanço dos contatos mantidos depois da chegada à cidade de destino terá características totalmente pessoais. Até a volta.

Fazem alguns anos, o aeroporto era visto apenas como o ponto de embarque. Nele as ocorrências eram pura rotina, que se concluía no acesso ao gate da empresa, aguardando a chamada de embarque. Desde 2001 o ritual complicou-se com as inspeções mais severas à bagagem e aos corpos dos viajantes. Mais recentemente, nos aeroportos brasileiros se acrescentaram novos motivos de tensão. Surgem com freqüência as perguntas: está no horário, o vôo foi cancelado ? Nesses casos, se a resposta é positiva, é fácil encontrar passageiros prevendo que toda a viagem poderá não ser tão boa.

De fato, como comprovado pelas pesquisas – após os impactos do choque frontal do Boeing, da explosão em Congonhas do Airbus e do desaparecimento no Atlântico do vôo Rio/Paris – atualmente são suficientes pequenas e inesperadas dificuldades técnicas, para motivar nos pensamentos de usuários brasileiros tensões de alerta, que raríssimas vezes antes atingiam quem viajava de avião. Se teriam evidenciado agora, latentes até a série de acidentes, ressalvas instintivas ao fator segurança, que haviam sido diluídas por estatísticas de décadas de vôos em céus de brigadeiro, índices mínimos que refletiam a extrema segurança das atividades aéreas mundiais.

Mas é um fato que atualmente ninguém é insensível aos tremores acentuados que ás vezes agitam a cabine de um jato em pleno vôo. Sem pessimismo em relação ao desfecho final, a não ser como pretexto literário, como fez Carlos Heitor Cony, escritor de primeiro plano na moderna literatura brasileira, num artigo que a alguns leitores pode parecer brilhante e original, e a outros algo forçado e até de mau gosto. Ele foi publicado há dois meses no suplemento “Ilustrada” da Folha de S.Paulo, sob o título “Morte no avião” .

O autor enumera as maravilhas da natureza vistas das poltronas do avião em pleno vôo, e depois a excelência do serviço de bordo, onde “cada detalhe foi amorosamente planejado para proporcionar o seu conforto...”. Mas de repente ocorre a queda e Cony escreve: “No dia seguinte o seu nome estará entre os das vítimas e os seus parentes receberão um hipotético seguro e um saco de lona contendo os seus restos carbonizados. Trata-se de mais uma das gentilezas da companhia: na realidade, dentro do saco haverá cilindros, pedaços de ferro e de estopa É possível que venha algum pedaço de osso de seu crânio. Ou o fêmur do seu vizinho de poltrona que estava roncando, não deixando que você dormisse.“

Depois da descrição sepulcral, intencionalmente forçada, o autor escreve que “A culpa disso tudo, segundo voz geral, é das bruxas. Elas andam pelos espaços, montadas em suas vassouras de piaçava para derrubar os pesados Boeings, os bojudos Airbus que formam turbulências indesejadas em suas outrora calmas rotas de feiticeiras brevetadas há séculos. Buscam elas o sossego de suas estradas feitas de magia e sombra...”.

Mas, segundo Cony, “Contra as bruxas não há bruxaria eficaz – eis em verdade a verdade. Nem simuladores de vôos nem ILS, nem transponder e muito menos controle de espaço aéreo...”. Com tudo isso, é melhor relaxar, pois os aviões “foram feitos para voar e não para cair”. E neles se encontram o conforto das poltronas, o sorriso das aeromoças, os experimentados comandantes, o “mapa-fantasia à sua frente, que dá a posição exata onde você está passando”, o radar investigando os céus, os possantes reatores, “para que você chegue rápida e seguramente ao seu destino”. Mas Cony não renuncia ao grã final, ao prazer de encerrar o seu texto de maneira coerente com o título, e escreve:“ Se outro avião cruzar com o seu, ele trocará as saudações de praxe pelo rádio e piscando as luzinhas. Ave Caesar, morituri te salutant”. Ave César, os que vão morrer te saúdam. E antes de o avião despencar mesmo, não se esqueça de acender a sua luzinha individual,para que você não morra nas trevas e para que não o trague o tártaro do obscuro. Descanse em Paz: você merece”. 

E lá se foi a “boa viagem” literária. Ainda bem que ainda sobram as verdadeiras de milhões de passageiros.