HISTÓRIAS
QUE O TEMPO LEVOU
Uma empresa nas
mãos de oligarquias
6º
Existem lacunas enormes na história da Varig, desde a época de Ruben Berta
e, em particular, nas sucessivas administrações, relacionadas a executivos que,
com competência ou com absoluta mediocridade, assumiram o comando da aérea.
Houve conquistas para a empresa, acertos e criatividade, mas também ocorreram
abusos e provas evidentes de incompetência. Nos anos que antecederam a venda e
sua transferência para a Gol, em muitos casos esses executivos contribuíram
para agravar o tamanho do desastre. As atas de muitas reuniões de alto nível,
segundo quem as leu e afirma possuir cópias, revelariam a progressiva gravidade
da situação da aérea, as atitudes omissas de muitos participantes e a
existência de eternos conspiradores, dos quais na fase final um, em ocasião dos
afastamentos de dois presidentes, revelou suas ambições até então mimetizadas.
Sem contar a preocupação de “tirar o corpo fora” de vários diretores,
depois de omissões e abusos e de ter contribuído com seus votos à tomada de
decisões que, no médio prazo, se revelaram funestas para a Varig. Com tantas
personagens em cena, tantas versões contrastantes sobre fatos decisivos, tantos
interesses particulares em jogo, ninguém conseguiu até agora juntar uma
história da aérea que seja também uma versão incontestável, imparcial,
objetiva, uma analise das motivações e da conjuntura política que em época
diversas, antes dos problemas financeiros, determinaram o destino da aérea.
Mais que a cronologia das etapas da glória e da caída da Varig, das quais já
divulgamos alguns episódios, mais que as referências aos pequenos estímulos e as
grandes omissões governamentais, mais que citações de iniciativas e de nomes,
de sucessos ou de fracassos, a história da Varig, para ser verdadeira, deveria
focar as atuações de seus interpretes maiores. De fato, se houve equívocos de parte
de seus presidentes, quase sempre receberam o aval de seus diretores, tendo
como executores representantes no país e no exterior nem sempre fieis e à
altura. E pesou sobre a Varig a omissão quase total do governo em relação ao seu
destino, apesar da companhia representar o país no exterior. Falhas todas que,
com o passar do tempo, criaram um efeito cumulativo adverso, cujas implicações
financeiras explodiram no início de 1990, mas já ferviam nos anos precedentes, apesar
de cobertas por um véu de otimismo que não amortizou a queda.
A Varig foi uma oligarquia sui generis, que sob a aparência de S.A. conferiu
autoridade máxima a um segundo escalão de executivos às vezes pouco
qualificados, sem reprimir quem errava, e que adorava a burocracia, temia as
interferências políticas, chegou a detestá-las, e sempre recebeu apoio escasso
das autoridades nas horas decisivas, apesar de ter-las sempre obsequiadas.
Sobre a empresa, em particular quando a crise tornou-se incurável,
dominou um poder que havia nascido com finalidades assistenciais, mas que aos
poucos assumiu papel preponderante nas decisões comerciais e financeiras da
Varig, sem possuir credenciais técnicas suficientes para tanto. De fato,
nascida do sonho da encíclica Rerum Novarum, a Fundação Ruben Berta havia cumprido por
várias décadas suas funções sociais,quando nos anos 80 uma meia dúzia de
diretores seus a transformaram, de entidade autônoma a serviço da aérea, em virtual
dona da Varig e das entidades do grupo. Sua influência no desastre final não
foi determinante, pois as reformas de descentralização que realizou na
estrutura da empresa tinham como objetivo declarado a sua salvação, mas de
outro lado não há duvida de que os contrastes internos atingiram a imagem da
aérea e enfraqueceram a representatividade de quem lidava com as autoridades e com
a opinião pública. (Leia no blog outras mini- histórias de autoria de um colaborador)