PORQUE O TURISMO BRASILEIRO ONERA O PAÍS
O mercado brasileiro de aviação internacional tem
crescido progressivamente, apesar dos problemas enfrentados em 2008/2009 pela indústria.
Em particular, a conjuntura favorável de
2010 tem contribuído para um aumento notável dos embarques em todas as empresas
e dos gastos realizados no exterior.A tendência se acentuou em 2002 e ,num
período de 10 anos, a partir de 1999, segundo a Agência Nacional de Aviação
Civil, os embarques para o exterior cresceram quase 70%, ou seja pouco menos do
dobro do aumento total do Produto Interno Bruto, que o IBGE,Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística calculou, para o mesmo período ,em 38,56% .
O número oficial de passageiros que em 2009 viajaram do
país para o exterior, sempre segundo a Anac, subiu numa década de 3,7 milhões
(1999) para 6,28 milhões. Europa e América do Sul foram os destinos que em 2009
receberam mais passageiros embarcados no Brasil em vôos diretos (2,24 milhões e
2,08 milhões respectivamente) seguidos pela América do Norte, com 1,57 milhão.
Mas nem tudo cresceu como devia, por causas que em
maioria estão sendo debitadas a campanhas promocionais multicoloridas mas pouco
eficientes, desenvolvidas pela Embratur em nome do Ministério do
Turismo.Ministério que, diga-se de passagem, terá este ano 180 milhões de reais
a disposição para propor o Brasil como um dos melhores destinos turísticos do
mundo. Entretanto, o país perdeu posições na lista dos países mais receptivos
para o fluxo turístico mundial: em 2009 ocupava a 45ª posição num total de 133
destinos internacionais, segundo levantamento feito a cada dois anos pelo Fórum
Econômico Mundial, que já divulgou este ano a nova posição do Brasil, hoje 52º no
ranking que foca 139 países, com a Suíça ocupando o primeiro lugar. A pontuação
dos vários itens avaliados, evidencia que foram as insuficientes e ás vezes
precárias infraestruturas de transportes e aeroportuária que motivaram esse
resultado.
Não é fácil estabelecer até que ponto, estatísticas como
essa contribuem para que o turismo internacional continue não prestigiando o Brasil,
contribuindo para que o país aumente seus balanços financeiros negativos. Sem
dúvida a causas principal é o grande crescimento do número de brasileiros que
saem do país, em contraste com o fato que as vindas de estrangeiros permanecem há
alguns anos em volta de 5,5 milhões. Parece que o item “violência” ainda pesa
na hora das escolhas de viagem, como seria comprovado pela avaliação negativa (75º
lugar) dada a esse fenômeno social pelo levantamento do Fórum Econômico Mundial
de 2011. Devido ao desequilíbrio, no ano passado a conta de turismo, que
compara os gastos dos brasileiros no exterior com aqueles dos estrangeiros no país,
fechou com um saldo negativo superior a US$ 10 bilhões, segundo cálculos
oficiais do Banco Central. Foi um crescimento surpreendente, considerando que
em 2009 o déficit estava em volta de US$ 5 bilhões.
Numa analise geral, são dois os pontos que mais pesam no
balanço negativo do fluxo turístico internacional do Brasil para países do
exterior. O primeiro deles é o predomínio das empresas estrangeiras no share do mercado nacional; o segundo e o
valor crescente das receitas que elas remetem para as respectivas matrizes. Ainda
não foram divulgados pelo Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias, Snea,
nem pelo Banco Central os dados mais recentes relacionados com o déficit na
conta de passagens aéreas que resumem, de um lado, os valores dos bilhetes
aéreos adquiridos por estrangeiros para voar nas empresas brasileiras e, do outro,
as saídas de divisas representadas pelos tickets vendidos por companhias estrangeiras
a viajantes brasileiros. O déficit
cresceu verticalmente,depois que as rotas internacionais da Varig para a Europa ficaram por breve tempo com a Gol,
enquanto a Tam passou a ocupar, progressivamente e apenas em parte ,vôos para a
Europa e para os Estados Unidos antes operados pela empresa riograndense. Assim,
a participação brasileira no total de passageiros embarcados para o exterior,
que havia chegado a 53% antes da crise da Varig, estaria agora reduzida em
volta de 30%. E as previsões não são favoráveis, pois de fato Tam e Gol não
conseguem operar todos os vôos concedidos pelos acordos bilaterais e a sua menor
oferta de rotas, freqüências e assentos (atualmente avaliada em 50%) facilita a
escalation das estrangeiras. E se é
verdade que a Tam sozinha nunca conseguirá preencher a cota brasileira de155
voos autorizados entre Brasil e Estados Unidos, é previsível que com as novas
concessões do acordo bilateral aumentará o predomínio das quatro aéreas
americanas, hoje com um nível de serviços muito superior aquele da década passada.
Assim a American e as congêneres continuarão absorvendo quase 70% do tráfego entre
os dois países, enquanto no fluxo de/ para a Europa, Air France e Lufthansa investirão
em mais freqüências na tentativa, até agora sem êxito, de tirar o primeiro
lugar aos vôos da Tap.
Diante desses dados negativos, que num regime de
contenção de gastos governamentais destoam com as supostas preocupações
financeiras do país, parece que a nova administração estaria a procura da forma
mais “democrática” para desonerar suas contas de ônus turísticos excessivos,
facilitados pela permissividade oficial e pela carência de uma aérea á altura
da Varig. Por falta de mais uma empresa internacional em condição de competir
nos mercados internacionais, o único recurso para reduzir os prejuízos do turismo aéreo
poderia ser a imposição de freios ao valor dos gastos feitos no exterior pelos
viajantes nacionais. Desde fevereiro fala-se de mudanças no cartão de crédito pré-pago,
lançado em novembro do ano passado e que está absorvendo valores consideráveis
no exterior. Ele oferece aos viajantes a vantagem de dispor de uma “carga” em
dólares à taxa de câmbio do dia da compra no país, além de pagar um IOF de
apenas 0,38% nas transações, contra o 2,38% do cartão comum. A nova alíquota de
IOF a ser cobrada sobre essas faturas subiria para mais de 4%, visando alterar
a previsão oficial de que, só em gastos no exterior, a conta chegaria a US$ 12
bilhões. O aumento de quase dez vezes do ônus do IOF sobre quaisquer despesa em
moeda estrangeira (tickets, hotéis e compras em geral), poderá ter efeitos
moderadores sobre uma espiral que cresceu demais a favor de uma minoria que
parece adorar tudo o que vem de fora. De fato, somente moderando esses gastos e
incentivando as vindas de estrangeiros, o país poderá alcançar efetivamente os
objetivos sociais e financeiros perseguidos pelo turismo global.