BRASIL VERSUS OPEN SKIES :
O DILEMA
A política
da Anac, durante a permanência de Solange Vieira na presidência, é vista como
avançada, progressista, por alguns setores da aviação nacional. Segundo outros,
com destaque para o Sindicato Nacional dos Aeronautas, foi uma política
entreguista. De fato, ela facilitou o ingresso no mercado de mais empresas
estrangeiras, supostamente em vista de
um maior intercâmbio que incrementaria o fluxo turístico para o Brasil. Quem
crítica a liberalização , baseada no sistema “open skies”, que tudo permite a quaisquer empresas menos – por
enquanto – a realização de vôos de cabotagem, afirma e demonstra que o
crescimento do número de embarques favoreceu muito mais as congêneres vindo do
exterior do que as nacionais Gol e Tam. De outro lado, ninguém podia esperar
milagres de duas empresas que nasceram prioritariamente para servirem ao
mercado doméstico.
Numa analise
fria, fica evidente que o processo de repasse de parte do mercado aéreo
brasileiro às empresas estrangeiras se acentuou depois do desaparecimento da
Varig. Em certas épocas se dizia que a
aérea gozava da proteção oficial, que afastava dela toda a concorrência de congêneres nacionais e internacionais. Pena
que o fato não ficou comprovado ,quando o governo nada fez para evitar a sua
falência. Nem há indícios de que essa displicência se modificou com a chegada
da Gol, que se apresentou como sendo uma companhia low fare, e em relação à Tam – quando herdou várias rotas européias
sem ter a estrutura e a capacidade para gerenciá-las . Entretanto permaneceu aquela
proteção genérica à indústria nacional , que até então havia sido realizada
através da exigência do fiel cumprimento dos acordos bilaterais.
Mas aconteceu
que o mercado brasileiro , ao evidenciar o seu crescimento sob o impulso da
favorável conjuntura econômica, tornou-se o objetivo de várias empresas que procuravam se expandir em novos mercados,
para uma melhor utilização de suas frotas. No Brasil havia várias capitais de
Estado com discreto potencial de embarques. O exemplo veio da Tap, que tendo restrições para aumentar o
número de vôos para São Paulo e o Rio de Janeiro , incluiu seguidamente em sua
rede outras capitais de Estados brasileiros, oferecendo assim serviços diretos para
Portugal, com conexões para toda a Europa, antes inexistentes, que as duas empresas
nacionais não pretendiam executar . E
aos poucos, outras aéreas estrangeiras passaram a operar nos novos mercados,
inviabilizando eventuais vôos da Tam nessas
mesmas rotas.
O comunicado
oficial da terça-feira passada, divulgado na União Européia pelo
vice-presidente da Comissão de Transportes, além de confirmar a assinatura do
acordo de céus abertos -- que se acrescenta aquele assinado há dias em Brasília
com os Estados Unidos – destacou a sua previsão de que o entendimento
proporcionaria vantagens no
relacionamento entre os dois hemisférios, em particular fazendo prever o aumento
do número de embarques e acréscimos de
receitas para as aéreas das duas partes.
Ele não deu relevância ao fato que atualmente a oferta já atende a demanda e
que há mais de uma freqüência diária de e para a maioria dos destinos de
eventual interesse no país para transportadoras estrangeiras . Enquanto isso,
dos 27 países que com o acordo se abrem
aos vôos da Tam, pelo menos uma metade não oferece potencial de tráfego que
justifique a abertura de novas rotas. Nem Mr. Kallas, o V.P da EU, se perguntou
por qual razão as vantagens agora decantadas haviam sido ignoradas pelas
empresas nos mais de 60 anos que se passaram desde o fim da II Guerra Mundial.
Aliás, até há pouco havia grande competição para conquistar novos segmentos de
tráfego ,ao mesmo tempo em que, impondo cotas e restrições, os países tentavam
impedir a “invasão” das congêneres de outros países. E no Brasil, Snea e
Sindicatos concordavam em assinalar os riscos decorrentes de uma política de ampla
liberalização, adiantando que seria fácil e barato, para as “bigs” da aviação
mundial, deslocar aviões excedentes e competir com tarifas predatórias para
conquistarem o mercado nacional. Ainda mais em vista do fato que Tam e Gol
ainda não amedrontavam ninguém, se comparadas com empresas já desaparecidas,
como a Real,a Panair do Brasil, a Vasp, a Transbrasil e a Varig,entre outras.
Houve assim
, nos últimos anos,um crescimento elevado do número de vôos e na escolha de
novos destinos brasileiros de parte das empresas estrangeiras. Se as
estatísticas da Anac não mentem, entre 2007 e 2010, por exemplo, o aeroporto de
Belo Horizonte viu o número de seus vôos semanais internacionais crescer de 14
para 54; São Paulo de 518 para 606, Manaus de 7 para 17, Porto Alegre de 7 para
24, Florianópolis de 8 para 18, totalizando com outros destinos menores um aumento
de 17%, equivalente a 1.046 freqüências em operação, contra as 893 de 2007. Sem
contar que a partir de junho, somente entre Espanha e Brasil serão operados 42
voos por semana.
Deve ser
assinalado, ainda, que até 2005 São Paulo e o Rio absorviam 90% dos vôos
internacionais, porcentagem que no ano passado caiu para cerca de 60%,
mantendo-se ainda elevada devido ao aumento das rotas para o aeroporto do
Galeão, com destaque para os vôos procedentes dos Estados Unidos, que cresceram
de 7 para 41. Nesse contexto, em 2010 a participação da Tam no mercado para a
Europa estava em 23% , e naquele para os Estados Unidos em 27%. No primeiro
caso seu share é inferior ao da Tap
(29%), no segundo ao da American Airlines (28%). Esses números significam que
cerca de um quarto dos dois mercados internacionais mais importantes está nas
mãos da única empresa brasileira que opera para o Norte e além do Atlântico,
tendo um custo bastante elevado, pois a Tam além de estar diluindo o seu
potencial de embarques em mais freqüências , para se manter competitiva na
oferta nos dias de pique, está investindo milhões na compra de novas aeronaves,
sem ter ainda a estrutura de terra necessária para operar todas elas, nem um
plano de rotas adequado.
O acordo de open skies com a União Européia, assim como
aquele com os Estados Unidos, obedecerá
a fases de implementação, que poderão demorar até 36 meses para serem
concluídas.Basicamente, em cada etapa serão oficializados os aumentos
progressivos do numero semanal de vôos autorizados às duas partes.