HISTÓRIAS QUE O TEMPO LEVOU
As mudanças que derrotaram a Varig
Nesta segunda parte de seu texto dedicado à Varig, Harro Fouquet relata
os efeitos perniciosos das variações cambiais, da abertura das rotas
internacionais à Transbrasil e à Vasp e dos eventos bélicos no mundo. Mas
demonstra que em 2002 ainda havia esperança de salvação para a empresa.
A Varig sofreu na carne os impactos das variações cambiais, que nos
decorrer dos últimos anos, por duas vezes, depois de lenta, porém quase
continua desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar norte-americano,
bruscamente provocaram forte e inesperadas quedas das
cotações, no início de 1999 e, novamente, em meados de 2002. O autor comenta
textualmente:
“Em ambos os casos, os efeitos sobre a economia das empresas aéreas
brasileiras foram extremamente graves. Elas abrangem, principalmente; a
repentina elevação dos custos operacionais e do montante das dívidas;
deficiências de caixa, face à impossibilidade da simultânea correção das
tarifas domésticas; e uma substancial retração da demanda nos serviços
internacionais operados a partir do Brasil, face ao encarecimento do preço das
passagens, sempre baseadas no valor da moeda americana na data da venda. Assim,
o tráfego de passageiros-km transportados nas linhas internacionais brasileiras
no ano de 1999 registrou uma queda da ordem de 18% (indústria), em relação ao
ano anterior (na Varig, queda de quase 15%).”
Uma mudança que teve importância elevada para a Varig, pois complicou
sua situação nos mercados, decorreu da nova política governamental para
distribuição de linhas internacionais. Escreve Fouquet a esse respeito:“ Cabe
lembrar que o fracasso das demais transportadoras brasileiras de linhas aéreas
internacionais acabou reunindo todos os serviços antes operados por elas sob o
comando da Varig”, até 1983, quando houve a primeira “abertura”, que
consistiu em autorizar Transbrasil e Vasp a executar serviços
internacionais não regulares. Em 1987 o Ministério da Aeronáutica estendeu a
distribuição de linhas aéreas internacionais regulares a outras concessionárias,
“ainda com algumas salvaguardas para as concessões na época já mantidas pela
Varig e Cruzeiro”. A total reviravolta veio em 1992, quando o Ministério da
Aeronáutica, no contexto de sua nova “Política para os Serviços de Transporte
Aéreo Comercial do Brasil” estabeleceu como principal objetivo “promover o
crescimento da malha de rotas internacionais das empresas brasileiras, visando
atender seus próprios anseios”. Simultaneamente, foi adotado como princípio a
“múltipla designação”, pela qual duas ou mais transportadoras brasileiras
podiam ser designadas para voarem aos mesmos destinos no exterior.
“A partir daí, Transbrasil e Vasp adicionaram às suas frotas aeronaves
de fuselagem larga e começaram a operar uma serie de linhas para a América do
Norte e Europa, além da Ásia (só a Vasp), servindo tanto escalas de há muito
atendidas pela Varig como também alguns destinos novos. E com a aplicação quase
exclusiva de tarifas promocionais, conseguiram conquistar, em determinada
época, quase um terço do market share do tráfego internacional
brasileiro. Entretanto, durante a crise cambial de 1999 ficara evidente que
essas operações não possuíam sustentação econômica duradoura. Por isso a Vasp
acabou suspendendo totalmente suas operações internacionais em outubro de 2000
e a Transbrasil paralisou todos seus vôos em dezembro de 2001.
Encerrou-se assim mais um ciclo de insucessos de transportadoras
brasileiras no campo internacional. Também a Tam, que ingressara no setor em
1999, viu-se obrigada a promover drásticas reduções de capacidade no decorrer
de 2002 operando, não obstante,” com prejuízos significativos”.
“Entretanto a desistência das duas companhias brasileiras em operar para
o exterior em nada alterou os direitos recíprocos resultantes de sua designação
por nosso governo. Apenas passaram a beneficiar,
unilateralmente, as transportadoras estrangeiras, como no caso da ligação
Brasil - Estados Unidos, onde duas operadoras brasileiras competem com quatro
norte-americanas”.
Mas ocorreram também, lembra Harro Fouquet, “dois eventos que abalaram
fortemente a indústria do transporte aéreo”. A guerra do Golfo (1991) e a crise
que a antecedeu causaram entre 1990 e 1994 à aviação comercial mundial
(serviços regulares) prejuízos da ordem de US$ 20,4 bilhões, que exigiram mais
de três anos de resultados positivos para serem compensados.
Em 11 de setembro de 2001 os atentados às torres de Nova York custaram à
indústria, no exercício de 2001, perdas da ordem de US$ 11,9 bilhões, com a
estimativa de prejuízos de US$ 7,5 bilhões em 2002, ainda sem perspectivas de
uma completa normalização das atividades do setor.
Um setor, observa de passagem o autor, que
entre 1991 e 2000 teve uma rentabilidade média, em termos globais, de apenas
0,96%, resultante de quatro anos de prejuízos (1991/1994) e seis de lucros
(1995/2000), de acordo com as estatísticas ICAO.
Mas apesar das dificuldades financeiras, em 2002 a Varig ainda
se apresentava nos principais indicadores operacionais em posições nitidamente
superiores às de suas concorrentes nacionais, de acordo com as estatísticas do
DAC. Suas participações de mercado nos serviços domésticos e
internacionais eram respectivamente de 39% e 87%, totalizando 61%. As outras
empresas domésticas estavam com 61% e 13%, por um total de 39%.
Quanto aos índices de aproveitamento (pax-km pagos), o grupo Varig
estava com 59% no setor doméstico e 72% no internacional, totalizando 67%,
contra respectivamente 55%%, 60% e 56% das congêneres nacionais.
Outro índice importante, relativo à rentabilidade das quatro principais
aéreas no 1º semestre de 2002, revela uma situação difícil para todas. A
inteira indústria registrava (–) 7,2% no setor doméstico e (–) 5,1% no setor
internacional, mas a análise por empresa evidenciava que contra (-) 0,8% da
Varig no doméstico as outras estavam respectivamente com -5,6% (Gol); -7,2%
(Tam) e -13,8% (Vasp). No setor internacional a Varig registrava (-) 2,9%%, mas
a sua única concorrente Tam havia chegado a (-) 21,1%.
Até aqui vão os dados da competente exposição de Harro Fouquet sobre as
principais causas do endividamento da Varig, com destaque, nesta segunda parte,
para alguns dados estatísticos que tem o aval do Departamento de Aviação Civil.
Essas estatísticas são provas evidentes de que em 2002 ainda existia a
possibilidade de modificar o destino da empresa, se o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, tivesse levado até a conclusão seu
apoio ao programa de reestruturação financeira solicitado pela Varig e em
seguida estendido, por exigência do Banco, também à Rio Sul e Nordeste. Mas
toda a reestruturação, que envolveu também a FRB e motivou várias mudanças
administrativas, acabou caindo nas malhas da burocracia, alimentada por
interesses políticos e financeiros que chegaram a derrubar até o presidente do
BNDES. Talvez um dia, alguém descobrirá todo o complô para evitar que o governo
brasileiro, no drama da Varig, imitasse as iniciativas a favor de aéreas
nacionais em dificuldades que foram e ainda são tomadas pelos governos dos EUA
e da Itália, entre outros. Isso não cancelará todos os erros atribuídos às
administrações da empresa, em sua procura de uma liderança que carecia de
sustentação financeira, mas pelo menos atenuará a amargura de quem, até o fim,
acreditou estar lutando por uma boa causa.
(“Histórias
que o tempo levou” continua no próximo domingo)