HISTÓRIAS QUE O TEMPO LEVOU

Lembranças da criadora do serviço de bordo da Varig

Alice Editha Klausz tem o seu primeiro nome ligado ao insuperável padrão de atendimento alcançado pelas comissárias de bordo da “velha” Varig e aos anos de maior prestígio da empresa. Inúmeras são suas recordações, desde os tempos de Ruben Berta, sob cuja presidência ela havia começado a trabalhar em 1954, como simples aeromoça que treinava com incomum paixão e capacidade. Naquela época a Varig aguardava a vinda dos Constellations e precisava de 20 comissárias de classe, para integrarem as equipes que até então eram formadas em maioria apenas por ex-garçons procedentes de restaurantes do Sul.

Na fase preparatória desses vôos, nos quais seriam oferecidas poltronas leito, o presidente Berta achou inconveniente que eventuais passageiras fossem atendidas por homens, lembrava Alice Klaus numa entrevista. Esse pensamento se transformou em exigência e ficou decidido que seria formada a primeira das equipes de comissárias “de classe”, uma categoria que em breve passou a identificar as qualidades incomuns dos serviços de bordo da empresa. Foi uma das numerosas inovações que em breve diferenciaram a Varig, por obra de um executivo do jeito austero, bastante exigente e temido, mas que se dedicava á empresa noite e dia, era generoso, e “era de certa forma o pai de todos”.

Berta “Morreu e viveu trabalhando. Morreu em sua mesa de trabalho, se matou de trabalhar”, recordava Alice. Ele já havia preparado um discurso que pareceu de despedida, que pretendia ler em 1967, ano em que pensava ”diminuir o ritmo”, mas morreu antes. O texto foi lido no final de 1966 dias após sua morte, por Adroaldo Mesquita, durante quase duas horas. Berta havia escolhido Erik de Carvalho, elegante, comedido, reservado, como seu sucessor e acertado mais uma vez, pois o novo presidente, apesar de bastante diferente de seu predecessor, inspirava também respeito e confiança em sua capacidade. Quando Erik deixou a direção da Varig, a aérea “tinha o DC-10 e o maior parque de hangares e manutenção do hemisfério sul. Ele foi um tremendo presidente para a empresa”.

 

Entre as lembranças mais queridas de Alice Klaus sempre esteve aquela do primeiro vôo da Varig para Nova York. Ela fez parte da tripulação do Comte. Geraldo Knippling: foi um longo vôo, ”chegamos mortas de cansaço ao destino, mas também com a sensação do dever cumprido”. Foram performances incomuns, que se repetiam e que motivaram a preferência que aos poucos os passageiros deram à empresa brasileira, apesar da dura competição da PanAm: “Nossa arma secreta era o serviço esmerado. Aqueles vôos eram mesmo de uma classe só, a primeira. As louças, os linhos, os copos e talheres de prata, as atenções e os cardápios, os pratos e os vinhos”. As refeições do primeiro vôo para Nova York, ela lembrava, foram preparadas por um chefe de cozinha que havia sido o “mestre-cuca” da família real russa”. E a qualidade do inteiro serviço de bordo tornou-se uma tradição, uma bandeira da empresa brasileira. Foram os chamados “anos dourados da aviação”, que exigiam dos tripulantes sacrifícios que hoje seria impossível repetir, devido ás leis trabalhistas. Imaginem, contava Alice Klaus ao entrevistador, que num vôo de múltiplas escalas para Nova York ficávamos a bordo do Constellation, nos revezando, por mais de 24 horas. E as comissárias até tomavam conta dos copos de cristal e das louças finas do serviço de primeira classe, que a maioria das vezes elas mesmas lavavam na escala de Belém. ”Dá para imaginar isso hoje? ” ela perguntava.

Tempos passados, aviões turbo hélice, os DC-10s, os jatos. Mas entre os aviões da época, ela deu a preferência ao Electra, por suas galleys espaçosas, muito conforto para os passageiros, avião seguro: “nunca houve nada igual”.

 

Alice Klaus progrediu com a empresa: sabia idiomas, fez cursos no exterior nas sedes da Swissair e da Lufthansa, aéreas que Berta admirava. A empresa investiu nela, como de habito fazia com os melhores elementos de qualquer setor, que através de cursos transformava em “profissionais muito bem preparados”. Alice voava e dava os cursos, participava ativamente do treinamento, até que Berta pediu-lhe para ajudar a montar a escola e os cursos de treinamento para tripulantes da Varig. Queria que fosse uma escola modelo, no mínimo a melhor da América do Sul, e que pudesse até servir para treinar comissários de outras empresas. Foi nessa fase que surgiram “as salas de curso em forma de anfiteatros, de maneira a permitir que todos na classe pudessem ver de forma clara, sem obstruções, aquilo que se pretendia ministrar.”

 

Depois de sua mudança de Porto Alegre para o Rio surgiu o primeiro grande desafio para a empresa: Berta, ainda de maneira confidencial, informou Alice de que deveria ir à Europa para estruturar os serviços que a Varig assumiria em breve da Panair do Brasil. Mas ao fazer os exames médicos de preparação para a mudança, ela descobriu “ter um câncer, por sorte em fase muito inicial” que conseguiu debelar e novamente, depois de curada, se dedicou ao treinamento, começando com o pessoal dos Hotéis Trópical, herdados da Real. Era o início de uma missão. Exigia paixão das “meninas” que treinava: ” Não era um capricho, era um método. Melhor que nós reparássemos em cada detalhe, pois é isso que o passageiro faz. Então, melhor que nós corrigíssemos tudo ou quase tudo antes que os passageiros o fizessem. Só assim é que a Varig poderia competir contra as gigantes Air France, Lufthansa, PanAm.”

 

E em 1989, depois de aposentada, Alice Klaus tornou-se promotora dos bons serviços de bordo até nos vôos da Marinha para a Antártida, onde foi convidada e começou a viver outra paixão. Desde então voou mais de 160 vezes para o Polo Sul e teve tempo para descobrir e corrigir como comissária a precariedade do serviço de bordo dos C-130 Hércules operados pela FAB. Assim concluiu os longos anos dedicados à Varig, que sempre lembrou dizendo: “A Varig foi não apenas uma universidade, foi como uma verdadeira mãe para todos nós. Foi um sonho, um sonho que se desmanchou”.