AGORA A AUTOMAÇÃO DOS AVIÕES GERA TEMORES
Quem
leu o registro dos diálogos dos pilotos do AF447, nos momentos finais do vôo
Rio/Paris, que se encerrou tragicamente nas águas do Atlântico, ficou
impressionado pela insegurança das manobras dos pilotos, depois que o
comandante Marc Dubois – um veterano com mais de 20 anos de experiência no cockpit de aeronaves de grande porte –
os deixou sozinhos, se afastando da cabine para ir descansar, sem atribuir
importância demais ao fato que o A330 estava entrando numa área de grande
turbulência.
Ele não imaginava que o frio intenso dos cumulus nimbus congelaria os controles
de velocidade localizados nos tubos de pitot
e que os jovens pilotos que o substituíram não saberiam como reagir ao fato que
os comandos automáticos estavam embaralhados, sem responder às suas tentativas
de mudar de rota para evitar a tempestade, e acabaram desativados. Mas ao
assumir o controle da aeronave, que estava perdendo sustentação, o co-piloto Pierre-Cedric
Bonin, de 32 anos, insistiu em manter o nariz do A330 empinado, quando a
manobra correta seria a inversa, ou seja puxá-lo para baixo para aumentar a
velocidade e recuperar a sustentação.
Naquela emergência teria faltado experiência ao jovem comandante,
alem de suposto desconhecimento de uma manobra elementar, que em circunstâncias
normais é efetuada automaticamente pelo sistema : toda vez que as aeronaves
tendem a reduzir a velocidade e perdem sustentação,o nariz delas se abaixa de
modo imperceptível, para restabelecer o equilíbrio no nível de vôo. Se ele
subisse haveria a redução progressiva de velocidade e o estalo.
O problema de operar corretamente uma aeronave moderna
,quando por motivos imprevistos perde a automação,é um desafio que muitas
empresas reconhecem de difícil solução, por entenderem que a longa lista de
eventualidades excede o alcance dos treinamentos básicos em simulador no curto tempo
disponível para realizá-los in house.
Sem contar, como salienta um artigo da AP publicado nos Estados Unidos, que
devido ao grande número de sistemas interligados no computador, quando um deles
falha se verifica na automação uma imprevisível reação em cadeia. O texto
relata problemas da passagem do vôo automatizado para o manual, baseado num
amplo estúdio da Federal Aviation Administration dos Estados Unidos, dedicado a
46 acidentes e à analise de 734 relatórios que obteve participando de mais de 9
mil vôos. A passagem de um para outro teria acontecido com “alguma dificuldade” atribuída pela FAA à chamada “automatic
addition” dos pilotos.
O artigo cita também dados da IATA, que revelam terem
ocorrido de recente mais de cinqüenta casos de perda de controle de aeronaves
por parte dos comandantes e que acabaram em incidentes. E enfatiza a preocupação
da FAA pelo excesso de confiança que há em relação à automação , que leva os
pilotos a esquecerem como se voa, inclusive porque após sentar no cockpit lhes é proibido, pelo
regulamento,recorrer à quaisquer manobras
manuais.
Lendo o bem documentado artigo, pode se deduzir que a
automação estaria afastando de sua especialidade excelentes comandantes, quase
os transformando em simples controladores de vôo. E que por isso poderão se
repetir reações não previsíveis, como ocorreu com o estol que surpreendeu em
Buffalo o piloto de um bimotor ATR e em Amsterdam o comandante de um 737 : para
reagir ao problema que eles haviam causado por ter inserido no computador dados
incorretos, puxaram para cima o nariz dos aviões e causaram as suas quedas. Nada
de comparável, por outro lado, com o fabuloso pouso no rio Hudson, realizado
por iniciativa do capitão Sullenberger, que evitou a caída do A320 que
pilotava, já sem potencia nas duas turbinas, desobedecendo às ordens da torre
do J.F. Kennedy de Nova York, que insistia recomendando que ele se dirigisse a
outro aeroporto.
Por estes e outros acontecimentos - apesar de raríssimos
graças à perfeição técnica dos sistemas de automação - a IATA, a FAA e as
empresas aéreas acompanham com certo receio o crescimento do tráfego aéreo, desejando
que ocorram as mudanças necessárias para que haja um entendimento mais profundo
entre os pilotos e a automação, de maneira que novamente, em situações de
risco, a última palavra seja do comandante. Após a tragédia do AF447, será mais
um motivo para que os passageiros embarquem sem o menor receio.