AEROPORTOS SÃO O NOVO DESAFIO NACIONAL
Nada há de mais inútil que um debate entre políticos e
homens de negócios. São pontos de vista, base cultural, objetivos quase sempre
opostos e não conciliáveis. Eles nunca se encontrarão, pois de um lado haverá
sempre bastante demagogia e raras vezes ideais de interesse coletivo. Da mesma
maneira, os interesses financeiros serão os motivadores das decisões tomadas
pelos homens de negócios. Caberia ao governo conciliar os pareceres opostos, mas
se possui a maioria de votos para decidir nem precisa disso.
Essa é atualmente a situação na qual se encontra a
presidente Dilma, agora que escolheu o único caminho racional para tirar os
aeroportos do país do beco sem saída em que foram jogados pela Infraero. A oposição
critica a decisão que abre os aeroportos às concessões pelo fato que, antes de ser
eleita, ela combatia em seus comícios a eventualidade de privatizar qualquer
setor econômico em mãos do governo, para não repetir “atos de entregas” de bens
públicos como aqueles que são imputados ao governo Cardoso. Mas na política há
sempre um antes e um depois: em 2010 suas declarações estavam em linha com
aquelas de seu predecessor, que por coerência política atendia as pressões de
setores de seu partido ainda ligados a conceitos nacionalistas de suposta
defesa dos bens do país, do tipo “o petróleo é nosso”. E permitiu que a
incompetência tomasse conta de vários setores do país. Pelo grande tamanho de
sua estrutura, pelo despreparo dos presidentes escolhidos, coube a Infraero o
privilégio de cometer os erros mais graves, condensando as maiores críticas,
pelo tempo perdido e pela falta de planejamento setorial. Até que suas
conseqüências ameaçaram o sucesso do compromisso internacional que o país
assumiu para 2014.
Coube ao novo governo, ciente de suas responsabilidades,
tomar com coragem a decisão de recorrer às concessões, como forma para obter a
participação da iniciativa privada no plano de reestruturação e ampliação dos
aeroportos. Ao mesmo tempo surgiu o estudo do Ipea, que evidenciou a existência
de falhas comprometedoras no cumprimento do programa de modernização dos
aeroportos e foi rebatido apenas verbalmente por dois ministros e pela
Infraero. Diante da evidência, oportunamente até o Snea, que é o sindicato das
empresas aéreas, deu o seu apoio irrestrito ao texto do Ipea. Seu presidente
declarou que assinava “em baixo” as conclusões do estudo apresentado pelo
Instituto e que também acreditava que poderá não haver tempo suficiente para a
conclusão das obras. Aliás, uma pesquisa realizada pelo sindicato com base nos
relatórios da própria Infraero, havia evidenciado os mesmos atrasos nas obras assinalados
pelo Ipea.
Assim, o problema dos aeroportos se apresenta como um dos
grandes desafios que deverão ser enfrentados e resolvidos pelo novo governo. Ele
assumiu uma posição prioritária, junto com a luta eficaz contra a inflação e com
a urgência de frear a desvalorização do dólar. E até agora a presidente Dilma
foi pródiga em decisões para dinamizar a realização dos projetos que o governo
está financiando para reestruturar um setor vital para o país. O próximo passo
é de competência da nova Secretaria de Aviação Civil, que tem plenos poderes
para alterar a estrutura técnica da Infraero, reformular o cronograma das obras
e exercer a supervisão necessária para recuperar parte do tempo perdido.
Havendo, como há, real preocupação do país em relação aos
compromissos assumidos com a Fifa aumenta a possibilidade de alcançar boa parte
dos resultados desejados. Apesar das novas estimativas, segundo as quais em
2014 o número total de pessoas, brasileiros e turistas, que utilizarão os
aeroportos por ocasião da Copa do Mundo será superior em cerca de 70 milhões ao
total de 2010, representando um aumento próximo de 50% sobre a capacidade atual.
Reformas à parte esse “gap”, para ser coberto, exige que o oferecimento atual
de concessões à iniciativa privada seja ampliado e que seja permitida às
empresas aéreas a construção de terminais exclusivos, inclusive em colaboração
com congêneres estrangeiras, com 49% de participação no capital e nas receitas.
Ou que sejam disponibilizados novos espaços para montar terminais temporários.
Eles são de construção bastante rápida e preço bem mais acessível que o tempo e
os gastos exigidos para ampliar alguns dos aeroportos existentes ou para
edificar, como foi sugerido,um terceiro aeroporto em São Paulo.
Afinal, a nossa é uma época de desafios. Na indústria, no
comércio, nos transportes coletivos e em quaisquer outras atividades criativas.
Há quem lembra que Brasília foi um desafio gigantesco, ganho por um governo
tenaz.Porque não acreditar que também a criação de uma rede de aeroportos
eficientes, verdadeiras veias onde correrá o futuro do país, possa se tornar no
curto prazo uma realidade nacional ?