HISTÓRIAS
QUE O TEMPO LEVOU
ADEUS AOS VOOS PARA TÓQUIO
A década de 60 foi particularmente rica de acontecimentos marcantes na
história da Varig. Um deles, em junho de 1968, foi a inauguração da linha para
Tóquio, um dos sonhos irrealizados de Ruben Berta, por falta de equipamentos
suficientes, devido à extensão da rota e ao volume de investimentos que sua
manutenção teria exigido. Um dia, alguém contará a história dos 38 anos dessa
rota, que cessou de operar no dia 14 de janeiro de 2006
Hoje vale lembrar que de fato, na época foi uma iniciativa pioneira da
Varig, pois voar para o Japão com duas freqüências semanais absorvia um quarto
de suas aeronaves de longo curso, que no final dos anos 70 totalizavam 16
Boeing 707, sendo que até os modelos mais avançados (707-320C) estavam ficando
obsoletos. Mas se na época a Ásia era o desafio que nenhuma aérea internacional
podia ignorar, no caso da Varig voar para Tóquio era uma exigência comercial e
política. A empresa havia herdado da encampada Real-Aerovias os direitos de vôo
para Tóquio e uma das maiores coletividades japonesas do mundo vivia no país e
aguardava ansiosamente a inauguração da rota. Assim, por longos anos a Varig
voou com os 707 na mais extensa de suas rotas, inclusive depois que em 1972
Erik de Carvalho, o sucessor do falecido Berta, decidiu modernizar a frota,
encomendando os Douglas DC-10, que chegaram no final de junho de 1974 mas
operaram apenas para a Europa e para Nova York.
A rota, em breve, se tornou a menina dos olhos da Varig, alimentando a
fantasia de quem sonhava visitar o Oriente e as esperança de brasileiros e de
filhos de japoneses residentes no país de encontrar na terra do Sol Levante
oportunidades de trabalho e um melhor nível de vida. E facilitou os contatos
dos homens de negócios com um mundo em grande desenvolvimento técnico e
desejoso de investir no Brasil. Foram levas de nipo-brasileiros, que ignoravam
o profundo impacto que os fusos horários causavam no organismo pela inversão do
dia pela noite e as incógnitas de uma emigração facilitada pelo visto japonês,
mas complicada pelo idioma. Do outro lado, o Oriente se abria para os
executivos brasileiros, que se acostumaram a enfrentar os japoneses em reuniões
intermináveis, complexas e raras vezes com imediatos resultados positivos.
Foram mais de 37 anos, durante os quais os aviões da Varig e depois os da Japan
Airlines cumpriram suas missões, transportando centenas de milhares de pessoas
nos dois sentidos e facilitando a viagem e a permanência em Tóquio de cerca de
250 mil emigrantes. Solteiros ou casados, muitas vezes desfrutados por
intermediários sem escrúpulos e se adaptando a condições de vida bastante
sacrificadas, eles conseguiam juntar algum dinheiro que remetiam para os
familiares que ficaram no Brasil, contribuindo também a alimentar o modesto
balanço de pagamentos do país. Sem ser nada de maravilhoso isso durou por quase
três décadas, até que aos poucos o interesse dos investidores japoneses para o
Brasil desapareceu e surgiram entre os dois países vários motivos de contrastes.
Sem duvida, alguém um dia contará as glórias e as amarguras que ficaram
registradas na historia desse vôo.
Em 1989, mais de vinte anos após sua inauguração, a rota continuava dando
bons resultados operacionais, ao ponto de justificar uma nova freqüência, a
quinta, para atender a demanda de mais assentos de parte de novas levas de
netos de imigrantes japoneses. Eram os chamados dekasseguis, que ainda no final
da década eram atraídos no Japão com contratos de dois ou três anos, para
exercerem modestas atividades que eram pagas até US$ 7,4 por hora. A demanda
crescia e, devido à falta de assentos nos vôos diretos entre São Paulo e Tóquio,
atraiu também a concorrência, que por falta de direitos de tráfego passou a
desviar parte do tráfego para o Japão via Estados Unidos e até via Europa. Diante
do absurdo, o pedido brasileiro de aumento de uma freqüência recebeu das
autoridades japonesas aprovação , mas condicionada a uma importante mudança: os
aviões da Varig passariam a aterrissar no novo e mais afastado aeroporto de
Nagoya, por alegada falta de slots e congestionamento em
Narita. A empresa brasileira aceitou a imposição e em 5 de janeiro de 1992
inaugurou o quinto vôo. Mas antes do fim de ano foi surpreendida por uma
reviravolta quase total no fluxo da imigração de nipo-brasileiros para o Japão,
devido às notícias de problemas e de abusos ocorridos com as ultimas levas,
contratadas por intermediários japoneses desqualificados.
Depois disso a rota nunca mais foi a mesma, ficou sujeita às flutuações
sazonais, com altos e baixos em seus resultados operacionais, devidos também à
crescente concorrência de outras empresas na área do Pacífico. E no final dos
anos 90 os três MD-11 de 280 assentos dedicados à rota já não justificavam o
tempo ocupado para a longa viagem de ida e volta, ainda mais numa época em que
a aérea viu sua frota se reduzir e teve dificuldades crescentes para cumprir
seus compromissos financeiros. A rota perdeu sua rentabilidade, tendo seu ônus
maior no trecho Los Angeles/Tóquio, que devia complementar o aproveitamento
rentável do vôo, dominado por várias aéreas asiáticas e americanas, que
ofereciam mais freqüências e tarifas mais convenientes.
Por isso a Varig tentou alterar o trajeto, propondo aos japoneses de
substituir a escala nos EUA com outra na Europa, também para evitar a exigência
americana de visto para todos os passageiros em transito, independente do fato
que ficavam no aeroporto de Los Angeles por apenas uma hora, enquanto a
aeronave era reabastecida. Como sempre, os japoneses demoraram para dar uma
resposta. E quando foram informados de que a Varig havia obtido autorização
para fazer escala em Zurique, alegaram que com esse vôo a JAL seria prejudicada
na rota que operava entre Tóquio e a Suíça, propondo que a parada fosse feita
em Genebra, para onde a aérea japonesa não voava. Mas tendo Genebra poucas
conexões com o resto da Europa a proposta foi rejeitada. Até que em março de
2004 a questão foi amplamente debatida entre as delegações dos dois países,
após nada menos que 13 reuniões de consulta, em que foram esmiuçados os
direitos de quinta liberdade. E com atraso, a Varig acabou descobrindo que voar
para Zurique– uma escala na qual nunca teve sucesso e que já frustrou também a
Vasp e a Tam, que a abandonaram –exigiria o pagamento de taxas de sobrevôo
bastante elevadas na Europa e nas repúblicas russas, além de uma estrutura de
suporte técnico, indispensável numa travessia tão grande, sem a menor garantia
de que o resultado operacional justificaria a valor do investimento.
Não se sabe até que ponto o crescente relacionamento do Brasil com a
China teria pesado na atitude japonesa, mas não há duvida de que a decisão de
encerrar as operações para Tóquio foi acertada, pois a Varig não poderia
continuar operando uma rota tão longa que havia perdido a sua rentabilidade.
Dentro do mesmo conceito foram analisadas as perspectivas e os riscos dos
projetados vôos para a Pequim, considerando as vantagens da formula de joint-venture. De fato, depois das declarações extravagantes de um ex vice-presidente
da empresa, que dava por certas as operações com aeronaves da Varig do Brasil
até a China, prevaleceram as sugestões que há quase 20 anos haviam sido feitas
pela Cernai e executivos da Varig após uma viagem de reconhecimento em vários
países da Ásia. Na ocasião havia sido declarado e escrito que, frente às
incógnitas da longa rota, a única possibilidade de unir Brasil e China por via
aérea sem perdas fabulosas, exigia colaboração total entre as empresas aéreas
dos dois países. Na época, enquanto se aguardava a conclusão do acordo com os
chineses, havia sido previsto que os aviões da Varig e da Air China se
encontrariam na escala de Munique,onde os respectivos passageiros trocariam de
aeronave para alcançarem naquela da
congênere São Paulo ou Pequim.Mas o projeto ainda hoje permanece no papel,após
que a ligação com a China foi objeto de
analise também de parte da Tam.(A história continua)