A justa greve de pilotos e aeroviários

 

A greve é um direito que a classe patronal não admite, não gosta, não quer, mas na hora da crise nada faz para evitá-la. Ainda mais sabendo que, caso seja declarada, haverá sempre um juiz que limitará a participação dos grevistas, alegando que neste período do ano a suspensão desse serviço essencial seria prejudicial para os passageiros que desejam viajar. E fazer greve por 24 horas, com apenas 20% dos funcionários, significaria expor ao escárnio os sindicatos e as classes que representam. Assim ,foi oportuno que,entre dúvidas e contradições,a greve de 22 de dezembro  tenha sido ignorada por alguns sindicatos ou logo interrompida por outros.Mas  não se entende a que serviu a ameaça de paralisação deste fim de ano, pois sendo obvio o seu final, nem deveria ser esboçada, apesar da provocação das empresas ,pois acabou como o Snea queria, reduzindo de 50% a pretensão inicial dos pilotos e dos aeroviários.Apesar da atitude conciliadora dos sindicatos que queriam facilitar, escolhendo um dia no qual a greve não atrapalharia os planos de viagem da maioria : greve assim, facilita demais os que deveriam ser atingidos pela paralisação,tira da iniciativa sua arma básica, que é o suposto prejuízo que atingiria as empresas devido à perda de milhares de embarques. Moral da fábula: greves devem se realizadas em época apropriada, para não ter que enfrentar razões de público interesse que motivem a intervenção da justiça. Pois o que adianta ameaçar de recorrer a uma arma que na hora H não poderá ser usada em todo o seu potencial?  Uma formula como essa só podia ser entendida pelo Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias como uma demonstração de fraqueza dos sindicatos, e por isso até o último nada fez para facilitar um entendimento. E evidentemente o Snea contava com a intervenção judiciária a seu favor, pois se assim não fosse a posição de seu representante,Odilon Junqueira, teria sido mais flexível e ele não teria nem pensado no “risco” que, se cedessem às pressões, as companhias  ficariam “ reféns” dos aeronautas e dos aeroviários.Conceito esse usado no passado,quando mais acesas eram as lutas de classe,em países onde era o capital que influenciava  as regras que regem o jogo trabalhista.

 Assim, o caso chegou ao Tribunal Superior do Trabalho, cuja vice- presidente, ministra Cristina Peduzzi, foi explicita ao exigir que, devido à época do ano, a suspensão das atividades dos eventuais grevistas devia ser apenas parcial e houve também a ameaça de parte do TST de considerar a greve ilegal se o Ministério Público se dirigisse ao tribunal nesse sentido.  Dentro desses parâmetros, o Snea esteve a vontade para rejeitar as propostas dos sindicatos, inclusive quando o valor do reajuste baixou do 13% original e poderia ser aceito como satisfatório em volta de 7%.

Na realidade o enfraquecimento sindical está ocorrendo progressivamente no mundo inteiro, provocado indiretamente pela globalização e outros supostos avanços nas relações internacionais, antagônicos de muitos valores das conquistas sociais do século passado. Um século que teve duas guerras mundiais e também assistiu ao nascimento da aviação comercial, destinada a assumir um papel relevante no crescimento econômico dos países e nas relações internacionais.

 Com os transportes aéreos, devido à dedicação de seus integrantes, os países cresceram. No Brasil, aos tempos da Varig de Ruben Berta, pilotos e comissários eram verdadeiros ícones que resumiam a crença de seu fundador no futuro da empresa. Havia entendimento e dedicação, que transformaram a perícia dos comandantes e a cortesias das aeromoças no trampolim que projetou a aérea como a maior companhia aérea da América Latina. Ainda há quem lembra a emocionante crônica do primeiro vôo para Nova York, ou a elegância do atendimento aos passageiros de inspetoras selecionadas e, depois, a evolução do serviço de bordo, que elevou a imagem da empresa brasileira a níveis nunca mais alcançados. Tudo isso e muito mais acontecia por que os aeronautas, os aeroviários e a administração vestiam a mesma camisa, num entrosamento que somente nos anos de chumbo anteriores à falência, decaiu pela interferência de elementos perniciosos.

Atualmente a indústria de transporte aéreo nacional está longe do entendimento entre seus núcleos executivo e os que realizam os vôos. Mas os comissários em geral pagos menos de colegas de empresas estrangeiras, e os pilotos experientes, ainda procurados pelas congêneres porque não ofuscados pelo advento da automação dos comandos, continuam sendo as peças que motivam o sucesso das aéreas, às vezes se sobrepõendo à qualidade técnica das aeronaves.São eles que diariamente constroem a imagem de sua empresa e que mais contribuem para a sua afirmação.

Mas na hora da revisão anual de seus salários isso pouco vale: imaginem que a parte mais difícil do entendimento que suspendeu a greve de quinta feira passada, foi arredondar a porcentagem do aumento enfim concedido pelo Snea de 6,17% (valor correspondente à variação oficial da inflação de um ano) para 6,5%, com um ganho real de 0,33% para os “grevistas”.