HISTÓRIAS
QUE O TEMPO LEVOU
Os lendários
serviços a bordo da Varig
Já apareceu muita literatura sobre os serviços a bordo da velha Varig,
cujas qualidades refletiam a eficiência de quem os gerenciava. Verdadeiras exceções
que, com poucas outras, projetavam a Varig pela capacidade de seus comandantes,
a qualidade do atendimento feito pelos comissários e a estrutura dedicada ao
setor alimentar.
A fama dos pilotos vinha de longe e se consolidou com o advento de
equipamentos sempre mais sofisticados. Saíam do Centro de Treinamento
comandantes que, com os cursos realizados no exterior, reuniam as qualidades
exemplares da técnica e da eficiência. Já muito antes da época dos jatos, eles
motivavam aplausos dos passageiros, depois dos minutos de tensão que ainda hoje
precedem, na fase de aterrissagem, o primeiro contato das rodas da aeronave com
o solo. De fato, fossem DC-3 ou 747 da família dos Boeing, era grande o impacto
causado por esses gigantes quando apenas deslizavam na pista do aeroporto, após
milhares de quilômetros voados a altura antes impensáveis. A fama dos
comandantes abriria à maioria, no negro período das demissões, as portas de
empresas aéreas de prestígio de todos os continentes. Uma conquista merecida,
apesar das circunstâncias em que ocorria, pois se de um lado garantia à classe
meios de sobrevivência, do outro exigia sacrifícios penosos de quem era obrigado
a trabalhar no exterior, muitas vezes longe da família.
Pilotos exemplares, eram representados na empresa por um diretor e
somente nas épocas de crise assumiram posições radicais, as vezes em
contraste com a administração da Varig. Representando um segmento essencial
para as atividades da empresa, conscientes dos riscos da profunda crise
financeira que a Varig atravessava, na fase final foram orientados por chefias
ambiciosas. E aos poucos houve a ruptura, pois ao perderem a confiança na
sabedoria dos responsáveis pela aérea, tentaram se sobrepor
ás decisões que eles tomavam.
Paralelamente, funcionava um excelente serviço de bordo em contato
direto com os passageiros. Os responsáveis pelo treinamento dos comissários e
pela elaborada estrutura da alimentação oferecida aos viajantes, enfrentaram
desafios enormes para criar uma imagem da Varig que mereceu prêmios
internacionais e unânimes reconhecimentos de parte da grande maioria dos
passageiros. A preferência que numerosas personalidades nacionais e dezenas de
artistas e políticos estrangeiros (cujas fotos foram objeto do livro “Varig
75 anos”, algo tardiamente publicado em abril de 2002) evidenciavam o “algo
mais” que eles encontravam a bordo dos aviões da empresa. E não somente nas
poltronas da “first”, mas também nas
outras classes onde a distinção estava na cortesia das comissárias, que com
freqüência era exaltada na imprensa, sendo comparada com as medíocres
performances (inclusive alimentares) das congêneres. Essa exclusividade, nos
anos 90 foi compartilhada com algumas aéreas asiáticas, que levaram a bordo
rituais e classe de atendimento á altura de suas tradições.
Analistas da evolução dos transportes aéreos concordam em considerar o
serviço de bordo qualificado como principal fator criativo de uma imagem
diferenciada, até superior á atração exercida sobre os usuários por novos
modelos de aeronaves. Ruben Berta foi, sem dúvida, um dos primeiros executivos
da aviação comercial a captar e por em prática os ensinamentos que, décadas
mais tarde, viriam dos técnicos de marketing. Ele, desafiando a opinião
contrária de um senador da Republica, dois anos antes da concessão á Varig da
linha para os Estados Unidos, desenvolveu com seu vice, Erik de Carvalho,
estudos para oferecer nos vôos que iriam para Nova York uma formula nova, de
impacto. Pois, pela primeira vez a partir de 2 de
agosto de 1955 a Varig competiria com uma grande empresa, a PanAm, e os
passageiros enfrentariam quase 19 horas de vôo, com escalas e tudo. O
jornalista Samuel Wainer lembra numa sua crônica daqueles dias, a figura
do barão Von Stuckart, “um austro-alemão que vinha renovando a chamada noite
carioca”, lhe atribuindo o mérito da realização do sonho de Ruben Berta. Ele escreveu:” O serviço a bordo da Varig ganhou
fama internacional. A viagem era uma festa gastronômica. E de quebra as
comissárias e aeromoças eram de seleção apuradíssima”.........”Ao lado do
serviço de bordo, a segurança e a regularidade eram extraordinárias, o que
acabou de fazer da rota de Nova York um enorme sucesso comercial...”.
Coube a Alice Klaus e a Sergio Prates, anos mais tarde, manter elevado o
prestígio desse serviço de bordo, nos setores do atendimento aos passageiros e
da gastronomia, resistindo até o fim ás pressões de um diretor comercial que,
apesar de pouco ter feito para incrementar as vendas, considerava um
desperdício os gastos relacionados com esses serviços.