OS ÚLTIMOS MINUTOS DO VOO AF447 CONTADOS PELAS
CAIXAS-PRETAS
Air France e Airbus polemizam sobre as ocorrências dos
últimos minutos do A330 que voava do Brasil para Pais mas
que ,depois de entrar numa zona de elevada turbulência, caiu no Oceano Atlântico
no dia 31 de maio de 2009 causando a morte das 228 pessoas que estavam a bordo.
A empresa aérea defende o comportamento dos tripulantes,
atribuindo a culpa da tragédia ao computador da aeronave, enquanto a
construtora tem declarado explicitamente que uma tripulação mais bem treinada
teria evitado o estalo do A330 que, a uma velocidade de 200 km por hora, em
três minutos e meio se espatifou no oceano.
A acusação aos três pilotos da aérea está registrada no
relatório da BEA, a agência francesa que, por indicação do governo francês e
com a concordância da AF e da Airbus, tem gasto dias e noites na área do
desastre, à procura de corpos, de sobras da aeronave e das caixas-pretas. Estas
últimas, não havendo testemunhas, eram a chave para decifrar as circunstâncias
nas quais o A330 perdeu sustentação e precipitou no oceano. Somente na terceira
viagem e utilizando os meios de busca mais modernos e robots submarinos, foi
possível encontrar as duas caixas que, contrariando às previsões pessimistas,
após ficarem imersas por quase dois anos ainda conservavam os registros dos
minutos que antecederam a caída.
Os diálogos dos pilotos,assim como suas manobras ,das 22h,
55 minutos e 57 segundos até às 23h 14 minutos e 28 segundos, quando o silêncio
evidenciou o encerramento da dramática luta ,revelariam uma certa displicência
de parte dos tripulantes. Se sabe agora que o comandante Marc Dubois (58 anos
de idade e quase 20 anos de habilitação para pilotar aeronaves moderas) se
retirou do cockpit para seu descanso no início da turbulência, e que seus dois
companheiros eram bem mais jovens (David
Robert com 37 e Pierre-Cedric Bonin com 32 anos) e com muito menos experiência
:o primeiro licenciado para pilotar aviões grandes desde 2002, o segundo desde
2007 e com 2.936 horas de vôo.E coube a Pierre-Cedric Bonin a responsabilidade
de lutar na tentativa de encontrar as manobras certas para reagir à perda de
sustentação, depois que o piloto automático foi desativado, de acordo com o
relatório do Bea.
Assim, às 23h, 10 minutos e 50 segundos, na cabine os
dois pilotos estavam muito tensos e chamaram o comandante Dubois: ele não havia
acompanhado os acontecimentos anteriores e limitou-se a perguntar o que os dois
jovens haviam feito e a constatar que o avião estava caindo. Teve apenas tempo
para verificar que eles não conseguiam controlar manualmente os estabilizadores,
cuja posição inclinada era devida a um erro de manobra dos pilotos ou a uma
“ordem” errada do computador. E às 23h14 minutos e 28 segundos o A330 desapareceu.
A essência da polêmica entre a empresa aérea e a
construtora está nas suas versões opostas para explicar as causas da situação
de estol, ou seja a perda de sustentação da aeronave, e da impossibilidade de
efetuar a manobra que poderia salvar a aeronave.
O relatório do Bea lembra que comprovadamente houve o
congelamento dos tubos de pitot, que medem a velocidade dos Airbus: aliás a
construtora havia recomendado a sua troca, que a Air France fez nos A330
somente depois do desastre.O congelamento ,causado pelo frio intenso da zona
agitada pela tempestade, alterou os comandos automáticos, que passaram a
transmitir valores de velocidade incoerentes, que confundiram os dois
tripulantes. Mas segundo o diretor da agência, apesar disso teria sido
suficiente que os pilotos colocassem para baixo o nariz da aeronave, que estava
empinado, para que o A330 recuperasse velocidade e sustentação: mas a manobra inversa,
feita pelo piloto Bonin, reduziu ainda mais a velocidade e fez a aeronave
precipitar em 3 minutos e 30 segundos.
Ainda não se fala abertamente em erro humano, como causa
do acidente, mas o relatório evidencia que, talvez na enorme tensão do momento,
o piloto teria mantido o avião com o nariz empinado supondo, por falta de
treinamento específico, que assim o A330 subiria, quando na prática isso
acelerou a perda de sustentação e a caída. A não ser que, como afirma outra
versão, entre as ordens incoerentes transmitidas pelo computador apos o congelamento do pitot,uma tivesse
travado os dois estabilizadores com o bico para cima, impedindo ao piloto
corrigir manualmente a orientação da aeronave.Não ficou claro da leitura do
registro dos diálogos porque, apesar dos repetidos alarmes sonoros que indicavam
a perda de sustentação, nos minutos finais ninguém sabia exatamente se o avião
estava subindo ou descendo .
Falta agora o relatório final, aguardado para o primeiro
semestre de 2012. Nele deverão aparecer mais esclarecimentos técnicos, sobre as
possíveis causas da progressiva deterioração da sustentação e sobre as razões
que frustraram as tentativas feitas para corrigi-la. Novamente será avaliado
até que ponto as alterações causadas á automatização pelo congelamento, teriam
impedido em condições normais de comando a ação eficiente dos pilotos.