A ESPERANÇA DEVE
VENCER A TRAGÉDIA ANUNCIADA
O título do livro de García Márques recorre sempre que se fala de algum
acontecimento que havia sido previsto. Todavia, prever fatos que não dependem
da iniciativa individual, pois estão relacionados com fenômenos naturais, as
vezes é apenas um pensamento inconseqüente, que pode não se verificar. Ou a
previsão é apenas o apêndice a um histórico, a possível repetição de algo que
quase pontualmente acontece em determinadas datas e circunstâncias e é difícil controlar.
Como os temporais que no verão tem castigado com a fúria da natureza as favelas
agarradas a uma encosta ,ou coberto de lama casas edificadas no fundo de vales
verdes, antes alegrados por pequenos rios e temperaturas amenas. Refúgio predileto de turistas e residentes no
Rio, nos períodos de calor mais intenso.
Ano passado, os desabamentos e as vítimas do Morro dos Prazeres, em
Santa Teresa, haviam dado ao Rio de Janeiro mais um sinal de alerta sobre o
perigo que ameaçava as outras 950 moradias situadas em áreas de risco. E vieram
os deslizamento que vitimaram moradores em Niterói, e depois turistas e
moradores em Angra dos Reis , se acrescentando ás tragédias anteriores e
elevando para mais de 300 o número de mortes no Estado. Prever que em 2011 os
temporais poderiam voltar a semear mortes e destruições era inevitável, pois
apesar das precauções, afastando moradores de obvias áreas de risco, muita
gente permaneceu agarrada à sua única habitação disponível. Mas era difícil
imaginar que, desta vez, toda a região serrana do Rio seria atingida por
deslizamentos e alagamentos que mudariam a aparência de inteiros distritos de
suas maiores cidades. E que somente na primeira quinzena de janeiro quase
triplicaria o número de vitimas registradas em todo 2010.
Previsões cumpridas e tragédias inesperadas estão sendo enfrentadas com
bastante firmeza pelas autoridades, contando com o apoio de legiões de
voluntários e com a participação dedicada do povo. Mas desta vez a tragédia
atingiu praticamente todas as classes sociais. Os pobres que moravam na
habitação de madeira, representantes da classe média em suas casas de verão e
os donos de pousadas, restaurantes, hotéis que todos os anos, nesta época,
andavam lotados de turistas nacionais e estrangeiros. Perdas que anularam anos
de sacrifícios feitos para ter uma residência própria, para oferecer serviços à
comunidade, hospedar visitantes; economias levadas pelas águas, que deixaram
milhares de pessoas mais pobres. Em conseqüência, no curto prazo, será quase
inevitável o afastamento de fluxos turísticos, em particular de visitantes
estrangeiros, que estarão procurando outros destinos para suas férias, se não
forem informados que a maioria dos hotéis de Petrópolis e Teresópolis não foram
prejudicados pela lama. Mas o centro de Nova Friburgo foi atingido por
desabamentos e inundações, que destruíram até o teleférico e o hotel integrante
o complexo turístico. Somente com a
participação financeira do BNDES , segundo o dono, eles poderão voltar a operar
. Entretanto para Petrópolis e Teresópolis a previsão é mais otimista: talvez já
no Carnaval a demanda turística será consistente.
Vale lembrar que, na maioria dos Guias dedicados ao Rio de Janeiro, a
Região Serrana tem sempre aparecido com destaque por suas atrações culturais e
naturais. E nos roteiros das excursões e estadas na Serra do Mar, podiam ser
lidos até fatos curiosos: por exemplo, que nas alturas de Petrópolis, Teresópolis
e Nova Friburgo - propiciadoras de conforto nos dias de calor - se refugiavam
no 19º Século os que fugiam da “yellow
fever and other diseases”, que (segundo o “Rio de Janeiro Handbook “da Fotoprint) infestavam o insalubre porto
da baía do Rio. Mas em suas páginas o Handbook
resumia também a história da cidade de Petrópolis, citando entre outros
detalhes a permanência do imperador Dom Pedro II, a sua residência de verão, o
Hotel e Cassino Quitandinha, o Museu Imperial, a casa de Santos Dumont. A seguir,
era a vez de Teresópolis e Nova Friburgo, descritas em quatro páginas de texto
com muitas informações de interesse dos turistas, visando facilitar suas
estadas e como se locomover, se hospedar e apreciar as especialidades
alimentares regionais.
Essas cidades, em áreas fora de suas estruturas urbanas sofreram o
impacto de deslizamentos, e muitas habitações e locais públicos afastados dos
centros desapareceram dos mapas. Há dúvidas se eles serão reconstruídos e em
quais localidades ao reparo da violência da natureza. Por tudo isso, quase com
certeza este verão será uma estação difícil para a maioria das atividades
turísticas, que poderão totalizar prejuízos estimados em mais de R$ 50 milhões.
Quanto ao futuro próximo, ao amanhã, muito depende da iniciativa e dos investimentos
a cargo das autoridades.
Em particular, já agora a Secretaria de Turismo do Estado e as
Prefeituras deveriam se debruçar sobre os enormes problemas que as chuvas
criaram para numerosos moradores da Região Serrana que se dedicavam ao turismo,
e procurar soluções de emergência e de médio prazo. E considerar a perspectiva do
inevitável prejuízo que este ano o afastamento de muitos turistas estrangeiros
dessas áreas nobres provocará sobre o fluxo de visitantes ao Rio de Janeiro.
Andaram perdidas nas tempestades as imagens de ambientes agradáveis, passeios
memoráveis, pratos especiais, tranqüilidade, cordialidade: sobraram montanhas
de lama, esqueletos de casas, lacrimas de saudades. Mas a Região precisa voltar
a viver, hospedar turistas, amigos, parentes.
Cabe ao turismo, que tanto arrecadou dessas cidades serranas, encontrar formulas
para promove-las novamente. A vida deve continuar, junto com os lutos e as
dolorosas lembranças das ruínas. A região deve reconquistar as imagens agora obscurecidas
de suas riquezas históricas e ambientais, de maneira que os moradores voltem a
amá-las tanto quanto seus novos visitantes.