A EMBRATUR CONTINUA ENGATINHANDO

Flavio Dino, presidente do Instituto Brasileiro de Turismo, melhor conhecido pelo nome de Embratur, decidiu divulgar “urbis et orbis” seus pensamentos sobre presente e futuro do turismo nacional. Escolheu a página “Tendências/Debates”  do jornal de maior divulgação no Brasil, a Folha de S.Paulo e nela deu vazão à sua visão sobre a sempre debatida matéria.

Pouco ou nada de novo e de útil disse, mas pelo menos demonstrou que está organizando os seus pensamentos visando, talvez, orientar seus subordinados adiantando-lhes as linhas mestras de sua política turística. Não foi muito original,começando pelo título dado ao seu texto ,“Integração continental pelo turismo”,mas tentou demonstrar competência expondo aos leitores conceitos que no turismo pertencem ao arco da velha.Teoria pura, que nenhum técnico conseguiu traduzir em algo prático, pois a integração turística entre países de determinada área é irreal: seria mais correto falar em “trocas” de correntes turísticas que se verificam quando existe interesse entre as partes de conhecer belezas e culturas recíprocas,por serem diferentes ou sobremaneira atraentes.

Ele pensa, ou alguém lhe sugeriu, que “o Brasil pode e deve assumir um desafio maior: promover ainda mais a integração do continente pelo turismo”, só pelo fato que ele ficou empolgado com os estandes nacionais que viu no 6º Salão Nacional de Turismo de São Paulo. Ele escreve que Copa e Jogos Olímpicos na América do Sul “em intervalo de dois anos,é fato inédito e uma oportunidade que os sul-americanos devem abraçar conjuntamente “. A natureza do abraço não ficou clara, assim como a referência a “incríveis opções turísticas” e à “vitrine” do potencial do Brasil oferecidos aos turistas que participarão dos citados eventos internacionais.

“Podemos reproduzir na região um fenômeno europeu”, afirma, pois é o turismo intrarregional que produz o fluxo “superlativo” de turistas na região: cerca de 80% dos que viajam pela Europa são europeus. Por isso recomenda,por ser “fundamental”,”que o Brasil se torne mais conhecido pelos turistas dos países vizinhos e que os brasileiros visitem mais o continente.E evidencia o obvio,dizendo que para que o fluxo se intensifique é “recomendado” que haja  “equilíbrio de emissão de turistas entre os países” fato esse que leva as empresas aéreas a voarem com rentabilidade entre eles.Enfatiza depois  que atualmente sete países da América do Sul “figuram entre os 15 maiores mercados emissores de turistas”  para o Brasil e que este lhe parece ser “o melhor momento para alcançarmos mais avanços” pois , segundo ele, “a região vive um inédito ciclo,combinando democracia política,crescimento econômico e distribuição de renda”.

Nos períodos finais de seu texto o presidente da Embratur oferece a formula, resumida em duas ações, ”para alcançarmos nossos objetivos”. Sugere que seja discutido “algo similar ao Programa Calypso,iniciativa de turismo social da Comissão Européia,que beneficia jovens,pessoas com deficiência e idosos,aproveitando os períodos de baixa temporadas”.E acrescenta “é antieconômico e socialmente injusto que milhões não possam ter férias adequadas,enquanto milhares de quartos em hotéis permanecem vazios por absoluta falta de compradores”.Parece que o ex-deputado federal pelo PC do Brasil,Flavio Dino,agora presidente da Embratur , ao fazer essa sugestão deixou-se levar por um argumento algo demagógico, que já teve inúmeras tentativas de realização frustradas por falta de interessados, quando no passado o projeto foi proposto, e parece ignorar que atualmente são breves e poucas as baixas temporadas,razão pela qual escasseiam as épocas em que os hotéis lamentam a falta de hóspedes.

“Em segundo lugar” acha que o Brasil, ”um dos dez países com mais eventos internacionais no mundo” poderia organizar já em 2013 a primeira edição de um “Salão do Turismo da América do Sul, que reforçará nos sul-americanos a vontade de conhecer melhor o nosso próprio continente”. O evento seria rotativo,”seguindo-se um revezamento entre as demais nações” .

Após o que foi dito, é realmente difícil prever o futuro do turismo nacional, com ou sem a integração com os demais países do continente. Por enquanto não há notícia da programação de ações para convencer os brasileiros a viajarem menos para o exterior (onde no primeiro semestre deste ano já gastaram US$ 10,1 bilhões), nem de campanhas de promoção na Europa e USA (pelo menos) para não falar da Ásia e da China, visando captar mais turistas. Sabe-se que,no país, já foram mal gastos em ações de suposto apoio ao turismo, algumas dezenas de milhões de reais e que, sete meses após a posse do novo governo,o país se tem dedicado aos projetos para  reestruturar os aeroportos em vista de 2012 e 2014, sem cuidar do turismo, entregue à pouco a executivos  sem referências específicas .

Para o futuro, o presidente da Embratur anuncia no final de seu texto ter “como meta, até 2020, dobrar o número de turistas estrangeiros e triplicar a entradas de divisas oriundas do turismo. O desafio é mais que bem-vindo. Vamos a ele, pois como os povos ibéricos nos ensinaram, navegar é preciso”, conclui. Um final decepcionante: pois ter como meta chegar a cerca de 11 milhões de visitantes estrangeiros em 2020 é simplesmente vergonhoso para um país turístico como o Brasil; quanto a triplicar as entradas de divisas, quer dizer que as receitas propiciadas pelos turistas estrangeiros estarão daqui a nove anos próximas do valor (US$ 10 bilhões) que os viajantes da terra gastaram no exterior em seis meses de 2011.

Sim, para o turismo nacional navegar é preciso, mas no rumo certo.