A BOLHA ( ? ) DO TURISMO BRASILEIRO

 

Milhões acreditam que o crescimento dos embarques domésticos e internacionais no Brasil seja a expressão de uma conjuntura econômica particularmente positiva e que o mercado tem potencial para um continuo aumento. São duas verdades. Mas segundo analistas precavidos, seria excesso de otimismo apostar na duração da primeira delas além deste 2011.

Afirmar que o turismo brasileiro se encontra numa bolha econômica, que poderia estourar, talvez é apenas uma suposição, mas não significa menosprezar um sonho que se transformou em realidade para milhões de pessoas. Nem possui o valor de uma alerta, pois como em geral ocorre nas previsões, faltam algumas incógnitas para compor um quadro totalmente confiável. Mas existem considerações técnicas e evidências estatísticas que parecem afastar a possibilidade que a gastança generalizada possa continuar ainda por muito tempo. Basicamente o impulso maior ao crescimento do turismo é dado pelo câmbio irreal do dólar frente ao real (que de fato não vale quanto parece), que facilita os gastos em moedas estrangeiras. Todavia, se o câmbio de 1,56 aplicado semana passada em transações turísticas fosse a expressão de uma moeda nacional assentada numa economia sólida, não teria sido necessário o novo aumento da taxa básica de juros, nem o governo teria precisado recorrer a medidas que visam reduzir os gastos privados, para frear o déficit crescente da balança de pagamentos.

Olhando apenas ao setor turístico, a começar pelos transportes aéreos, na comparação com o mesmo mês de 2010, houve em março um aumento de 25,48% na utilização dos assentos/km oferecidos pela indústria nas rotas domésticas e de 16,9% no acumulado do primeiro trimestre. E os índices médios de aproveitamento estiveram acima de 70%, apesar do número de poltronas comercializadas ter crescido nos dois períodos em exame de aproximadamente 15%%. Também no setor internacional houve índices de crescimento elevados : em março o aumento foi de 29,58% no número de embarques e de 15,04% na oferta de assentos. E tudo isso vem após um 2010 que estabeleceu novos recordes de tráfego, tendo a concorrência com os ônibus interestaduais evidenciado que o fator preço passou em segundo lugar nas viagens domésticas. O fenômeno já havia sido registrado no ano passado, quando nas rotas domésticas voaram 66 milhões de passageiros,alcançando pela primeira vez um número parecido com aquele dos embarques rodoviários. Aconteceu que, segundo as estatísticas, entre 2002 e 2010 o número de passageiros de avião cresceu 133%, enquanto o de ônibus caiu de 54%.

Foi mais um indício da evolução positiva da situação econômica de pessoas pertencentes às classes C e D, que acabou se estendendo às viagens para o exterior, que nos últimos dez anos cresceram 70%, quase o dobro do PIB. E cresceu demais o saldo negativo da conta de turismo, que no final de dezembro havia superado os US$ 10,5 bilhões, espantando até o governo, que nada havia feito para frear os excessos.

Pergunta correta do leitor: e onde está a bolha ? A verdade é que as bolhas de natureza econômica não se vêem com facilidade quando se estão formando, pois em geral nas suas gêneses alimentam otimismo e inata confiança no futuro. E´ gostoso acreditar que o dólar continuará sendo oferecido à mais recente taxa de câmbio, facilitando a compra de passagens aéreas e as estadas no exterior.

Nos Estados Unidos, faz poucos anos, todos sonharam que ficariam donos de uma casa: mas quando acordaram, muitos haviam perdido até o apartamento. Aqui, muitos já realizaram o sonho de uma nova TV, de um computador, de uma geladeira e de outras utilidades, que não vão perder, mas cuja compra agora está exigindo deles enormes sacrifícios mensais para o pagamento das parcelas. Mas se trata de utilidades domésticas. Menos fácil é entender, a não ser em casos excepcionais, as dívidas contraídas para viajar, em particular para o exterior, cujos vencimentos, com freqüência sempre maior, se acumulam nas financeiras, junto com as contas dos cartões de crédito. São novos conceitos de equilíbrio nas finanças domésticas ou mais uma expressão de consumismo irracional ?

Enquanto isso, nos EUA, o presidente Obama não se cansa de alertar os americanos sobre os riscos de continuar gastando mais do que arrecadam, e a agência de avaliação de risco Standard & Poor´s acaba de colocar a nota máxima AAA da dívida americana ( indicadora de risco zero de calote ) numa perspectiva negativa de 33% de chances de rebaixamento, nos próximos dois anos. Isso num país onde praticamente não há taxa de juros e que possui um potencial econômico enorme.

Entretanto, aqui – entre os oba-oba dos capitalistas interessados em transações de pura especulação monetária - estão sendo detectados sinais de que a economia está desacelerando; que existem síndromes de inflação; que boa parte dos US$ 300 bilhões de reservas guardados nos cofres governamentais poderia ter ido para as receitas dos exportadores; que a taxa de câmbio atual além de injusta, nociva para o país, favorece minorias e deve ser derrubada; que a especulação está acelerando e já toma conta de vários setores econômicos do país, quais o edil, o alimentar, o de serviços.

É sabido que, com muito menos componentes, podem nascer bolhas setoriais e que elas costumam explodir de repente.