FAZENDO FUTUROLOGIA SOBRE A UNIÃO DA GOL
COM A DELTA
A notícia que a Delta Air Lines ofereceu um prêmio de 47%
para adquirir 2,9% do capital da Gol, pagando à aérea brasileira US$ 100
milhões é surpreendente, numa época na qual as ações perdem valor em todas as
Bolsas do mundo. Em particular ,por se tratar de investimento numa congênere,
sabendo que a indústria de transportes aéreos fica com rendimentos mínimos (quando não perde bilhões de dólares) ,
levanta dúvidas sobre a real motivação da iniciativa. Ainda mais considerando
que o investidor poderia , com o mesmo montante,adquirir diretamente na Bolsa um
volume quase 50% maior de ações.
E há ainda a ser considerado que há dois meses a
Wellington Management Company e o Fidelty Investments, acionistas da Delta,
compraram por meio dos fundos que administram um total de cerca de 10% de ações
preferenciais do capital da Gol: respectivamente 6,722 milhões (5,04%) a
Wellington e 886 milhões a Fidelity,que com mais 6,146 milhões de recibos de ações
(ADR) totalizou no seu capital 5,17% de papeis preferenciais da empresa
brasileira.
Um observador informado poderia achar muito elevado o
investimento numa aérea como a Gol que, devido à flutuação do dólar, perdeu no
terceiro trimestre R$ 516,5 milhões e viu sua dívida liquida crescer de 41,4%,
chegando a R$ 2,6 bilhões. Ainda não se conhece o resultado deste trimestre,
mas se sabe que houve preocupação de parte da aérea brasileira para receber o
pagamento da Delta antes de 31 de dezembro, obviamente pelo efeito positivo que
terá sobre o balanço. Em troca, a Gol
“ofereceu” à Delta uma cadeira no seu conselho de administração, que
acrescentará às nove já ocupadas por seus conselheiros .
Apesar de ter problemas estruturais crônicos, a Delta
continua sendo uma das quatro grandes da aviação americana, após a
United-Continental e antes da FedEX e da AMR Corporation, segundo os dados do
ano passado. Teve um receita de US$ 31,7 bilhões,de pouco inferior aos 34,0 bilhões
da United ,mas bem acima dos US$ 24,6 bilhões da FedEx Express .Numa
estatística global das empresas que em 2010 tiveram as maiores receitas, liderada
pela Lufthansa com US$ 36,0 bilhões ,a Delta ocupa o terceiro lugar,com
praticamente os mesmos valores da AirFrance/KLM, mas com margem de lucro líquido
menor das congêneres (2%).Todavia conseguiu inverter a perda de US$ 1,237
bilhão que teve em 2009 para um lucro líquido de US$ 593 milhões em 2010,
quando também liderou a lista das “top” com os maiores lucros operacionais .
Por tudo isso, considerando também o aumento de seu
número de vôos para o Brasil, deve-se supor que o seu ingresso na Gol, além de
consolidar a sua parceria com a aérea brasileira, tenha o objetivo estratégico
de abrir o caminho para se radicar no país, em vista da futura possibilidade (quando
os parlamentares se decidirem a “soltar” a autorização) de elevar até 49% sua
participação na empresa de Constantino Jr. Eventualidade essa que não deveria
desagradar à Gol, cuja administração tem dado diversas demonstrações de limitações
estratégicas, decorrentes da falta de vivência internacional. De fato foi
derrotada quando pensava de poder operar as linhas Brasil/Europa recebidas da Varig,
e atualmente capitaliza modestos resultados nas suas rotas latino-americanas. Sem
contar a competição com a Tam, na qual é vitoriosa atualmente liderando no
tráfego doméstico,mas sem dúvida deve estar preocupada com as incógnitas do
futuro próximo, quando a congênere integrará a maior empresa aérea da América do Sul e Central, oferecendo
serviços para o mundo inteiro em conjunto com a Lan Chile.
A Gol estava precisando de uma aliança firme, no setor
internacional, para poder eventualmente desenvolver um núcleo operacional para
a Europa e os Estados Unidos, utilizando aviões hoje em excesso na sua frota,
pois no Brasil seu crescimento está limitado, além que pela Tam também pela Azul.
Isso está confirmado pela ansiedade com que aguarda que o Cade libere a sua fusão
com a WebJet (que pagou mais do necessário) para transferir à empresa 24 Boeing
737-800 (em substituição dos modelos obsoletos da congênere), assim como já
cedeu à Delta os dois B767-300 que eram da Varig.
Quanto à Azul, nas hábeis mãos de Neelman - que fez
questão de prestigiar a indústria aeronáutica brasileira, adquirindo da Embraer
os E190 e E195 de capacidades reduzidas, em troca da fácil abertura do mercado
nacional que conseguiu do ex-ministro da Defesa – avança passo a passo abrindo
novas ligações, enquanto se prepara para ocupar uma posição de destaque no
Norte e Nordeste, carentes de conexões vitais. E onde pretende servir cidades
menores mas de tráfego aéreo em fase de crescimento, graça à demanda das
classes menos favorecidas, como havia sido previsto há anos pelo executivo
americano.De passagem, com a Azul voando, a Gol perdeu também as últimas
aparências de empresa low-cost.