HÁ DÚVIDAS SE A FALÊNCIA OFICIAL DA VARIG FAVORECERÁ FUNCIONÁRIOS E APOSENTADOS

O Sindicato Nacional dos Aeroviários e o advogado Maia reagiram de maneira bastante positiva á notícia da decretação oficial da falência da velha Varig pela Justiça do Rio de Janeiro, que ocorreu no último dia 20 de agosto. Em seu comunicado, o SNEA lembra que o que havia sobrado da antiga Varig operava com a bandeira Flex. e evidencia que a sentença da juíza da 1ª Vara Empresarial do Estado abrange também a Rio Sul e a Nordeste, que pertenciam ao mesmo grupo. A decisão foi solicitada pelo gestor judicial da companhia, pois apesar dos esforços empreendidos durante o período, as empresas não possuíam mais fôlego financeiro para sua manutenção.

Desde o início do ano, lembra o Sindicato, o único avião da Flex já não voava e a negociação das ações na Bovespa havia sido suspensa por atraso na divulgação dos balanços financeiros. Com a decisão, os ativos da antiga Varig serão liquidados para pagar credores, respeitando o que é previsto na Lei n.11.101 de recuperação judicial em seus artigos 83 e 84. Em particular, o Centro de Treinamento de aeronautas, que já foi considerado uma referência mundial e fica na Ilha do Governador será mantido em funcionamento até a sua alienação judicial, para não causar desvalorização dos ativos e nem prejuízos a terceiros e ao público consumidor de transporte aéreo.

As estações de rádio operadas pela antiga Varig para orientação de pousos e decolagens de várias empresas serão transferidas à Trip, única empresa que se interessou, após a negativa do Decea em incorporar a atividade. Nas próximas duas semanas esses serviços continuarão sendo operados pela antiga Varig, para que não haja interrupção do tráfego aéreo e, como conseqüência, a desvalorização dos ativos.

Com dívidas estimadas em R$ 18 bilhões, o grupo Varig foi o primeiro a pedir recuperação judicial, em junho de 2005, quatro meses após a promulgação da Lei de Falências. A empresa foi dividida em duas: a nova Varig, que, conforme edital especifico da Justiça, ficou com a marca e sem dívidas, foi vendida em julho de 2006 para a VarigLog, que a revendeu à Gol em 2007; e a antiga Varig, que assumiu a dívida, passou a se chamar Flex em 2008, e continuou em recuperação judicial. Sem gerar receita suficiente, o administrador judicial nomeado pelos juízes da recuperação protocolou relatório declarando a autofalência, recebendo igual parecer do Ministério Publico e, por fim, pelo decreto de falência da Justiça do Rio.

Esta decisão da Vara Empresarial ainda não foi publicada e, por isso, não foi possível dirimir com o próprio judiciário algumas dúvidas levantadas pelos advogados do SNA, que seguem atentamente o processo e ainda esperam num desfecho rápido que permita aos trabalhadores da ativa e aos participantes do Aerus de ver reconhecidos os seus direitos e “definitivamente reaver o que lhes é devido”.
O comunicado do SNA conclui afirmando: “Estamos no aguardo, ainda, do julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), do recurso com relação ao congelamento de tarifas (ação de defasagem tarifaria). Enquanto isso, insistimos em um acordo por parte da União a fim de antecipar e satisfazer definitivamente os interesses dos trabalhadores.”
Sobre o assunto, sabe-se ainda que os demais estabelecimentos da antiga Varig não envolvidos no funcionamento das estações de rádio e do centro de treinamento foram lacrados, no prazo de 48 horas e que a Justiça fixou um prazo de 15 dias para que os credores que não estejam incluídos no quadro da recuperação judicial apresentem suas habilitações de crédito. A sentença foi assinada a pedido do Licks Contadores Associados, gestor judicial da companhia, que reconheceu a incapacidade da aérea de quitar suas dívidas, depois de estar em recuperação judicial há cinco anos. Os credores da velha Varig são mais de 15 mil, incluindo ex-empregados, o fundo de pensão Aerus e bancos.

 

E importante evidenciar que os operadores das estações de rádio transferidas á Trip haviam ameaçando fazer greve pois estavam com salários atrasados e que isso poderia provocar problemas para o tráfego aéreo. E merecem destaque as considerações da sentença, que atribuíram a falência a “contingências políticas e econômicas”, admitindo que o controle de tarifas aéreas nos anos 80 e 90 — que levou a perdas de R$ 4 bilhões à empresa — e a decisão do atual governo de não intervir na aérea foram determinantes para o desfecho: — “Nem governo nem empresas se interessaram em investir na Varig. Isso, aliado à má gestão da companhia no passado, foi fatal” está escrito na sentença

Segundo o comandante Miguel Dau, ex-gestor da antiga Varig e hoje diretor de Operações da Azul, esperava-se que durante a ação de recuperação judicial fosse julgada a ação movida pela Varig contra a União na questão do congelamento de preço, que a empresa ganhou em todas as instâncias, mas ainda está aguardando a decisão final do Supremo Tribunal Federal. Segundo ele “ a Flex, que assumiu um passivo de R$ 7 bilhões , chegou até onde pôde e de maneira brilhante, mas o governo não fez sua parte”.

Entre os interessados na lista dos credores da velha Varig estão os que trabalharam na empresas e os participantes do fundo de aposentadoria Aerus, cujos pagamentos, segundo versões oficiais, são considerados prioritários entre os credores privados e deveriam ser liquidados antes dos outro. Mas em relação apenas á herança da Flex, supostamente representando a velha Varig, os valores que serão disponibilizados são relativamente modestos. Por isso parte dos credores está tentando demonstrar que seria a Gol a responsável pelo pagamento das dívidas, pois ficou com o maior bem da aérea, que adquiriu em 2007 pagando US$ 320 milhões.A consistência jurídica dessa exigência poderá ser motivo de uma ação á qual se uniria também a Fundação Rubem Berta , que possui  87% dos papéis da Flex e pretenderia contestar judicialmente a falência.Desde 2006 a FRB foi afastada da Varig devido á sua posição contraria ao processo de recuperação judicial , que ainda hoje contesta, afirmando que essa recuperação não aconteceu.

Mas a Gol, como no passado, sustenta nada ter a ver com as dívidas deixadas pela velha Varig, pois ela a adquiriu livre de quaisquer ônus e não tem vínculo, ligação societária ou relação de qualquer natureza com as empresas Viação Aérea Rio-Grandense S.A. (Varig), a Rio-Sul Linhas Aéreas S.A. ou a Nordeste Linhas Aéreas S.A. Por isso, no momento, as maiores esperanças para a solução do problema financeiro do Aerus estariam depositadas no desfecho da ação de indenização tarifária que, ainda sem data marcada, deverá ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal.

 

Há também a posição de numerosos acionistas minoritários, cuja opinião sobre a recuperação judicial é negativa: eles dizem que foram prejudicados, pois devido aos cinco anos de gestão da Flex com a demora as dividas subiram de mais R$ 10 milhões. Eles acham todavia positivo que com a decretação da falência poderá começar a vendas dos bens que pertenciam á Varig/Flex , para pagar o 10% de dividas que eles representam. Mas apreciariam que fosse investigado se a passagem pela Flex foi prejudicial e, eventualmente, pedir a anulação de iniciativas que deveriam ter sido evitadas. 

E, para encerrar, nos parágrafos finais de um longo artigo dedicado á falência de uma “recuperação judicial atrapalhada”, Cláudio Magnavita escreveu em seu Jornal de Turismo: ”
Com a falência, o Aerus passa para o fim da fila, ou seja, serão priorizadas as dívidas tributárias, as trabalhistas e só depois os credores privados. Essa etapa abre um processo doloroso de ajuste de contas e caberá a cada um dos protagonistas explicar porque o plano de recuperação não deu certo. E também questiona-se: quem será o síndico da massa falida? Como ficarão os encontros de contas das ações do ICMS e da defasagem tarifária? Não são só os acionistas afastados que esperam uma resposta, mas os milhares de associados do Aerus, que foram levados a acreditar nas promessas realizadas nas emocionantes assembléias de credores. Essas falências não assinalam o fim, mas o começo de uma história que precisa ser explicada. E muito bem explicada!”