VIAJAR PAGANDO EM 60 MESES

 

Depois de ler que a Tam, a Gol e a Trip estão oferecendo a seus clientes a possibilidade de viajar pagando a passagem em até 60 meses e que a Azul e outras estão com a mesma intenção, cabe perguntar quanto irá custar uma passagem doméstica obtida nessas condições, através de financiamento do Banco do Brasil ou de outro idôneo instituo de crédito.

 

Vendas a crédito para passagens internacionais, em 5 ou 10 pagamentos, com juros razoáveis são outra coisa. Suas tarifas são bem mais caras e, em geral, os usuários não costumam viajar com freqüência mensal ou semestral entre os continentes.

 

Dizem os técnicos de marketing, estimulados pelo fundador da Azul, que há um mundo escondido de passageiros potenciais, que aguardam apenas que as aéreas cheguem até suas cidades natais e lhe ofereçam viagens baratas, para inundar o mercado dos transportes aéreos nacionais com seus pedidos de embarque, que ficaram talvez por décadas hibernando entre seus desejos irrealizados.

 

Neelman em apenas um ano conseguiu transportar mais de 2 milhões de passageiros em seus Embraer, confirmando que não errou quando decidiu se lançar na aventura brasileira, depois de ter demonstrado ser eficiente no competitivo mercado norte-americano, na chefia da JetBlue que, diga-se de passagem, encerrou 2009 com US$ 58 milhões de lucro, em comparação com o prejuízo de US$85 milhões sofrido no ano anterior. No Brasil a Azul não somou lucros no ano passado, mas demonstrou ser uma empresa de visão, ao escolher Campinas como sua base de lançamento, obrigando as congêneres a, também, segmentar vários vôos para não perder tráfego e a acompanhar-lo em suas tarifas reduzidas pois, com ou sem bons serviços, o que mais atrai os passageiros continua sendo a low fare. Entre as supostas motivações da nova aérea há a descoberta de que no país existem nichos de passageiros potenciais, cansados de utilizar mulas e ônibus não confiáveis em suas eventuais peregrinações, representando uma estimativa de novos viajantes por via aérea que em breves anos dobraria as estatísticas atuais. Eles pertenceriam ás classes C e D, cuja conquista já se tornou um hobby de supermercados e de lojas de eletrodomésticos.

 

Quase não se discutem as disponibilidades financeiras desses novos compradores para conceder-lhes créditos nem, no caso dos transportes aéreos, houve pesquisas para verificar se as suas cidades, afastadas das rotas usuais dos aviões comerciais, poderiam alimentar serviços regionais regulares. Muitas delas, de fato, não possuem campos de aterrissagem bem estruturados, carecendo até do indispensável ILS, aquele instrumento que permite a aproximação nos dias de neblinas, chuvas e trovoadas. Detalhes que em outras épocas causaram prejuízos aos chamados vôos regionais, apesar dos subsídios concedidos pelo governo em nome da integração nacional.

 

Mas está comprovado que, seguindo os inputs do marketing da Azul, também Tam e Gol decidiram se dedicar á procura de novos passageiros e, antes de abrirem rotas pioneiras nos sertões nacionais, optaram para facilitar a compra de passagens, recorrendo ao Banco do Brasil ou instituições similares para oferecerem financiamentos em até 60 meses. Acabaram as restrições familiares ás compras a crédito, relíquias da mentalidade conservadora de várias décadas passadas, como demonstram os exemplos ilustres de sucessos comerciais nos setores que vendem TVs ou geladeiras, entres outros produtos, em até 72 prestações, com pagamentos de poucas dezenas de reais por mês. Sem dúvida nos preços já estão embutidos juros salgados, mas o que conta para o consumidor é o valor a ser pago mensalmente.    

 

Talvez, em relação ás vendas parceladas de passagens aéreas, não deveria ser ignorada a diferença com a comercialização de aparelhos de uso doméstico. Quem voa adquire um serviço, intangível, que deixa de existir no momento em que é concluída a viagem de volta. A partir desse momento estarão sobrando 59 pagamentos mensais. Se houve uma emergência e faltava o dinheiro, a compra parcelada foi a melhor solução. Se a viagem foi para o exterior, a nova experiência também valeu. Mas há muitos outros casos em que a longa série de vencimentos seqüenciais, no curto prazo pode tirar dos usuários o desejo de abrir outro crédito para uma segunda viagem.

 

Sem contar o custo final, por baixo que o juro seja, neste país de taxas de interesses mensais de até 13 % . Assim, a indústria estará oferecendo além da tarifa aérea oficial, muitas outras proporcionais aos prazos escolhidos, que devem encarecer bastante os valores a pagar. Nessas operações com a Tam ou a Gol, os bancos repassam ás aéreas as tarifas das passagens, menos uma pequena taxa de serviço, e transferem para os viajantes o ônus do financiamento.

 

Depois de tudo implementado, virão as estatísticas, demonstrando que a rede bancaria incentivou as viagens de centenas de milhares de cidadãos, com a colaboração das empresas aéreas nacionais que, talvez, já terão aberto algumas das rotas regionais que supostamente motivaram a operação financeira. E alguém evidenciará na imprensa que, com mais essa etapa, a evolução democrática do país chegou aos céus. Sem referências ás dívidas familiares, que podem até não ser pagas, pois afinal existe o exemplo nacional da dívida pública, que não para de crescer.