VIAJAR PAGANDO EM 60 MESES
Depois de ler que a Tam, a
Gol e a Trip estão oferecendo a seus clientes a possibilidade de viajar pagando
a passagem em até 60 meses e que a Azul e outras estão com a mesma intenção,
cabe perguntar quanto irá custar uma passagem doméstica obtida nessas
condições, através de financiamento do Banco do Brasil ou de outro idôneo
instituo de crédito.
Vendas a crédito para
passagens internacionais, em 5 ou 10 pagamentos, com juros razoáveis são outra
coisa. Suas tarifas são bem mais caras e, em geral, os usuários não costumam
viajar com freqüência mensal ou semestral entre os continentes.
Dizem os técnicos de
marketing, estimulados pelo fundador da Azul, que há um mundo escondido de
passageiros potenciais, que aguardam apenas que as aéreas cheguem até suas
cidades natais e lhe ofereçam viagens baratas, para inundar o mercado dos
transportes aéreos nacionais com seus pedidos de embarque, que ficaram talvez
por décadas hibernando entre seus desejos irrealizados.
Neelman em apenas um ano
conseguiu transportar mais de 2 milhões de passageiros
Quase não se discutem as disponibilidades
financeiras desses novos compradores para conceder-lhes créditos nem, no caso
dos transportes aéreos, houve pesquisas para verificar se as suas cidades, afastadas
das rotas usuais dos aviões comerciais, poderiam alimentar serviços regionais regulares.
Muitas delas, de fato, não possuem campos de aterrissagem bem estruturados,
carecendo até do indispensável ILS, aquele instrumento que permite a aproximação
nos dias de neblinas, chuvas e trovoadas. Detalhes que em outras épocas
causaram prejuízos aos chamados vôos regionais, apesar dos subsídios concedidos
pelo governo em nome da integração nacional.
Mas está comprovado que, seguindo
os inputs do marketing da Azul, também Tam e Gol decidiram se dedicar á procura
de novos passageiros e, antes de abrirem rotas pioneiras nos sertões nacionais,
optaram para facilitar a compra de passagens, recorrendo ao Banco do Brasil ou
instituições similares para oferecerem financiamentos em até 60 meses. Acabaram
as restrições familiares ás compras a crédito, relíquias da mentalidade
conservadora de várias décadas passadas, como demonstram os exemplos ilustres de
sucessos comerciais nos setores que vendem TVs ou geladeiras, entres outros
produtos, em até 72 prestações, com pagamentos de poucas dezenas de reais por
mês. Sem dúvida nos preços já estão embutidos juros salgados, mas o que conta
para o consumidor é o valor a ser pago mensalmente.
Talvez, em relação ás vendas
parceladas de passagens aéreas, não deveria ser ignorada a diferença com a
comercialização de aparelhos de uso doméstico. Quem voa adquire um serviço,
intangível, que deixa de existir no momento em que é concluída a viagem de
volta. A partir desse momento estarão sobrando 59 pagamentos mensais. Se houve
uma emergência e faltava o dinheiro, a compra parcelada foi a melhor solução.
Se a viagem foi para o exterior, a nova experiência também valeu. Mas há muitos
outros casos em que a longa série de vencimentos seqüenciais, no curto prazo
pode tirar dos usuários o desejo de abrir outro crédito para uma segunda
viagem.
Sem contar o custo final,
por baixo que o juro seja, neste país de taxas de interesses mensais de até 13
% . Assim, a indústria estará oferecendo além da tarifa aérea oficial, muitas
outras proporcionais aos prazos escolhidos, que devem encarecer bastante os
valores a pagar. Nessas operações com a Tam ou a Gol, os bancos repassam ás
aéreas as tarifas das passagens, menos uma pequena taxa de serviço, e
transferem para os viajantes o ônus do financiamento.
Depois de tudo implementado,
virão as estatísticas, demonstrando que a rede bancaria incentivou as viagens
de centenas de milhares de cidadãos, com a colaboração das empresas aéreas
nacionais que, talvez, já terão aberto algumas das rotas regionais que
supostamente motivaram a operação financeira. E alguém evidenciará na imprensa que,
com mais essa etapa, a evolução democrática do país chegou aos céus. Sem
referências ás dívidas familiares, que podem até não ser pagas, pois afinal
existe o exemplo nacional da dívida pública, que não para de crescer.