ESTRELAS E COMPARSAS NO MUNDO DO TURISMO

 

Turismo, no longínquo 1.800 era reservado aos ricos. Simbolizava viagens de prazer, recreação ou, ás vezes, tinha motivação de saúde ou de reunião familiar. Era uma atividade restrita, sazonal, raramente coletiva, devido ás dificuldades para a organização de uma viagem e a seus custos elevados. Da carroça o transporte passou para meios mais rápidos, trens e carros, antes de explodir nos aviões comerciais, sempre mais grandes e velozes. E tanto se popularizou que no Brasil atualmente chegou ao alcance da classe C, que em parte saiu da fase de subdesenvolvimento, facilitada pelos preços moderados das passagens e desejosa de se atualizar, viajando a mais de 800 km por hora distâncias antes percorridas a 80 km ou menos.

 

Neste novo século a técnica aeronáutica capitalizou as maravilhas da eletrônica, mas aparentemente alterou pouco a aparência das aeronaves, feita exceção para o A380 que quase triplicou a capacidade de assentos oferecida. Mudaram, sim, as formas de viagens, onde prevalecem maior sofisticação de serviços, as ofertas das low fares, ou preços pré-determinados, dedicados a indivíduos ou grupos que enfrentam viagens ao exterior desconhecendo idiomas estrangeiros. E a ex-classe executiva, hoje Premium, tomou quase totalmente o lugar da primeira classe. O turismo cresceu aos milhões. Mas que tipo de turismo ? Ficou um pouco de turismo cultural, mas declaradamente até 90% dos viajantes de muitos países hoje vão ao exterior para fazer compras.

Nas últimas décadas do século passado as compras eram em maioria miúdas, de preço baixo, competitivas com seus valores nos países de origem dos turistas. Sacolas cheias que ocupavam todos os espaços disponíveis nas cabines das aeronaves, eram as vezes cuidadosamente inspecionadas pelos agentes da alfândega e até pagavam direitos á vigilante Fazenda. Hoje as malas, mais as sacolas dos duty free, continuam em geral abarrotadas de compras, mas enquanto o Brasil apenas ampliou a lista dos US$ 500 facilitados, China, Japão e Oriente Médio tratam a entrada turística de produtos como os Armani, Chanel ou Rolex como se fossem adquiridos em super mercados.

 

Alain de Botton, um sensível escritor suíço, depois de publicar nos últimos 15 anos volumes de conceitos filosóficos junto com o livro “A arte de viajar“, está voltando nestes dias ás prateleiras das novidades editoriais do país, com “Uma semana no aeroporto”. Uma experiência real que quis viver num dos melhores aeroportos do mundo, o inglês Heathrow, que demorou 20 anos para ser completado e custou cerca de 4,3 milhões de libras para começar a funcionar. Ele reuniu mais que uma coletânea de dados e sensações visitando em sete dias todos os setores do aeroporto, vendo os fluxos de passageiros, entrevistando muito deles, observando o andamento dos serviços, criticando: tudo por encomenda da administração londrina, que queria saber algo mais sobre o funcionamento do Terminal 5, em atividade há apenas dois anos. Uma idéia que é improvável passe pela cabeça da administração da Infraero de aqui, com seus horizontes ainda limitados pelo que se refere ao conforto dos usuários de seus aeroportos, cujo espaço dedicou em muitos casos mais ás lojas de shopping que á comodidade de quem os utiliza para embarques e desembarques.

 

De Botton circulou pelo inteiro aeroporto onde, em particular, ficou impressionado pelo fato que – contrariamente ao que imaginava – o enorme espaço aberto para facilitar idas e vindas de viajantes por via aérea, na realidade estava quase dominado por regulamentos que interferiam na liberdade de movimentos dos usuários. Sem contar a opressão “orwelliana”, em geral mal disfarçada, exercida pelas medidas de segurança, começando logo no ingresso das aéreas de embarque. O escritor, com humor e bom senso, relata no livro suas constatações visuais e algumas das “confissões” que recebeu dos numerosos entrevistados. Entre elas, conta aquela que lhe foi passada pela funcionária de um dos balcões de check-in. A moça lhe contou que, quando algum passageiro se dirigia a ela de maneira “impolite”, respondia á descortesia lhe comunicando que o seu nome estava entre os “up-graded”, que são os que as aéreas premiam colocando-os numa classe superior. Mas logo a seguir, enquanto o viajante se enchia de satisfação, ela mudava de expressão, aparentemente constrangida, dizendo que acabava de verificar que o computador havia alterado a lista e que por isso ele voltaria a ocupar o assento da classe que havia pago. Um dos dados sobre as ocorrências no Heathrow que mais impressionou ao escritor foi o número médio de falecimentos no aeroporto, que chega a três pessoas por semana, inclusive entre os balcões do free shop.

 

Mas há poucos aeroportos na Grã Bretanha como o Heathrow e, aparentemente, De Botton não viu um de seus lados menos simpáticos, comum á maioria deles: não registrou a freqüência com que passageiros brasileiros e de países subdesenvolvidos são barrados, em geral porque estão sem passagem de volta, ou não dispõem de libras bastantes para as necessidades dos dias de permanência, além de um passaporte valido ainda por pelo menos seis meses. Essa omissão, entre as observações do autor, poderia ser uma exigência da administração do aeroporto, que além de encomendar a pesquisa ficou com 50 mil cópias do livro, que pretende distribuir.

 

Outra é a consideração com que são recebidos, não somente na Inglaterra, chineses, árabes e japoneses. Enquanto brasileiros, latinos-americanos e viajantes procedentes de países da Europa Oriental estão sujeitos ás maiores restrições, os chineses, que aos milhões estão se transformando nos turistas que mais gastam no mundo , com apenas o visto de um dos 25 países da Europa podem circular pelo intero continente, menos na ilha inglesa. Por uma curiosa falta de critério, para entrarem no Reino Unido os chineses devem ter um viso específico e ainda pagar um taxa de embarque que chega a mais de 200 dólares por pessoas. Eis porque, dos cerca de 2 milhões que circulam pela Europa, apenas 10% chegam até Londres.

 

E há, ainda, o turismo forçado, clandestino, indesejado, combatido, massacrado. Os infelizes que tentam entrar nos Estados Unidos através da fronteira do México e que, no árduo caminho, perdem suas poucas economias, e até suas vidas, e quando chegam se deparam com um país em crise econômica, elevados índices de desemprego, onde no melhor dos casos conseguem apenas sobreviver. Ou os africanos que atravessam o Mediterrâneo em barcos inseguros que muitas vezes naufragam e, quando chegam a se aproximar das costas da Europa, são rejeitados, levados de volta sob escolta da marinha militar do governo italiano

 

Essas são algumas das faces contrastantes do turismo dos dias atuais. A classe C que pela primeira vez viaja por via aérea,  os dramas vividos por milhares que procuram no exterior uma vida melhor, os excessos de gastos atribuídos a milhões de chineses, japoneses e árabes, com os brasileiros ainda distantes deles, mas crescendo sob o signo do boom do dólar baixo. Eles gastaram no exterior, segundo o Banco Central, US$ 813 milhões somente em agosto passado. Mas os que mais impressionam são os turistas chineses, que há apenas duas décadas ainda se encontravam na lista dos subdesenvolvidos: está previsto que este ano cerca de 54 milhões deles viajarão para o exterior, quase 7 milhões a mais que em 2009, mantendo um crescimento anual superior a 20% desde 2001.

Poucos entendem o seu idioma e poucos deles falam línguas estrangeiras, mas suas bolsas cheias de euros e de dólares superam sem problemas esse obstáculo. Tapetes vermelhos os aguardam nas lojas mais caras do mundo, onde adquirem os mais caros produtos de marca, sonho de consumo dessa elite crescente. É a colaboração do turismo a mais uma etapa do enterro da luta de classe, oficialmente inaugurada em Moscou há menos de um século.