TURISMO BRASILEIRO
CONTINUA DECEPCIONANDO
A Organização Mundial do
Turismo divulgou as estatísticas das chegadas de visitantes estrangeiros nos
principais países do mundo em 2009. Ano difícil devido á crise, que as empresas
aéreas enfrentaram á espera de dias melhores. Que, parece, estão chegando.
Entretanto, no ano passado o
turismo mundial sofreu uma queda de 4,3%, totalizando 880 milhões de viajantes
para o exterior, contra 919 milhões em 2008. Com tudo isso a França recebeu
nada menos de 74,2 milhões de turistas, seguida pelos Estados Unidos, com 54,9
milhões, Espanha (52,2 milhões) a China (50,9 milhões) e a Itália, com 43,2
milhões. Mas não adianta procurar o Brasil entre os países que foram visitados
por um número próximo dos 30, 20 ou 10 milhões de pessoas. Ele, segundo os
discutíveis cálculos feitos pela Embratur na base de amostragem, sem ter meios
para separar brasileiros de estrangeiros que desembarcam nos aeroportos
internacionais, foram apenas 4,8 milhões, ou seja menos de 10% dos que
estiveram na China, um dos destinos mais longínquos do mundo ocidental, que há
poucas décadas entrou nas estatísticas do tráfego internacional. Para não falar
de outros países integrantes do longo ranking divulgado pela OMT, inclusive
situados na África ou condensados em minúsculas ilhas que conseguem viver das
receitas do turismo.
Sobre o assunto, o atual
ministro do Turismo, Luiz Barreto, tentou, como é tradição, justificar as
razões que motivaram a vinda ao Brasil de supostos 4,8 milhões de visitantes
estrangeiros, informando inicialmente que houve uma queda de 4,9% em relação a
2008, quando o número oficial de desembarques estava em 5 milhões. Aliás, são
pelo menos 6 anos que esse número se tornou praticamente fixo, depois dos anos
de euforia e fantasia da Embratur, que com constância e precisão imprimia seus
Anuários, acrescentando aos dados do período anterior multiplicadores porcentuais,
que na realidade reduziam o suposto crescimento firme a apenas o exercício de
cálculo de um solerte seu funcionário. Elaborado nas salas da entidade, em
Brasília, o novo índice era o resultado de acréscimos porcentuais
pré-determinados, que chegaram a ser ridicularizados no ano em que o “técnico”
decidiu aplicar um único, igual multiplicador a todos os países e continentes
do globo. Mas essa é história velha.
A nova está, até 31 de
dezembro, nos intenções do atual ministro. Em entrevista á Folha de S.Paulo, ele já fixou a meta para 2016: 10 milhões de
visitantes, equivalentes a 20% dos turistas que ano passado foram na China e que,
com toda probabilidade, serão bem mais numerosos no ano dedicado á realização
das Olimpíadas no Brasil. E ao ser indagado se “pelo tamanho do Brasil o número de visitantes não é pequeno demais”,
Barreto atribuiu essa escassez ao fato de o Brasil ser “um país de longa distância” sendo similar, perto de outros nas
mesmas condições. E citou o fato que “temos mais de 1 milhão de turistas que a
Argentina”. Com esses conceitos, demonstrou ignorar a distância que separa a
Europa da Malásia (que foi visitada por 23,6 milhões) ou da China e não deu o
menor peso á insignificância territorial da Argentina, comparada com a do
Brasil, sem contar com as atrações que um e outro país podem oferecer. Ele
disse que o Brasil deve lutar para aumentar o número de turistas sul-americanos,
e que a meta é chegar a 8 milhões de visitantes em 2014 e “continuar crescendo”, para chegar em 2016 próximo a 10 milhões, que
segundo ele “e uma marca muito grande”.
O ministro fez várias outras
previsões, que naturalmente não poderão se realizar durante a breve
administração dele, enfatizando a importância de mais vôos diretos entre Brasil,
Europa e EUA, citando em particular o fato que “há vôos para Europa de oito cidades brasileiras” e que “vai ter vôo da Tap da Europa a Campinas”,
como se essas ligações fossem o produto de iniciativas do governo. E tem
apresentado duas considerações interessantes, apesar de sem relação alguma com
a reduzida vinda de turistas estrangeiros, aliás completamente opostas. Ele
disse textualmente: “Estamos nos transformando
em um grande emissor de turistas. Uma coisa que tem que ser levada em conta é
que turismo, num país continental como o Brasil, tem que ser pensado como
mercado interno. Hoje 85% do mercado é interno”. Mas parece que Estados
Unidos e China, eles também países continentais, tem pensamentos diferentes,
tendo absorvido sozinhos em 2009 nada menos de 105 milhões de turistas
estrangeiros.
E quanto aos vistos, o
ministro achou positiva a queda dessa exigência para viagens á Rússia e o fato
que agora a validade dos vistos americanos é de dez anos, mas excluiu a
possibilidade de o Brasil rever o principio da reciprocidade e desobrigar que
turistas de países como os Estados Unidos precisem de visto. ”Não tem viabilidade nenhuma,nem a sociedade
brasileira aceita o princípio de flexibilizar a reciprocidade”, afirmou
taxativamente.
Assim, na conjuntura atual,
com mais integrantes da classe B voando e uma nova leva de passageiros que
pertencem á classe C descobrindo o prazer das viagens aéreas, a nova política
turística do Brasil, segundo o atual ocupante do Ministério, deveria incentivar
a procura de destinos nacionais. Como de fato está acontecendo, com a intensiva
participação das grandes e pequenas aéreas nacionais, evidenciada pelas
estatísticas mais recentes sobre o crescimento do tráfego doméstico. As
últimas, referentes ao mês de maio, informam que em comparação com maio de 2009
o número de passageiros/km transportados cresceu de 20,17%, para um aumento da
oferta que chegou a 17,94%. Ainda não foi alcançada uma utilização média ideal
(foi de 60,31% em maio), mas os destaques da Azul (85,81% de aproveitamento),
da Avianca (76,20%) e da WebJet (70,36%) indicam que as chamadas empresas menores
estão atuando com muito mais equilíbrio que as congêneres grandes (a Gol voou
com 58,82% de L.F. e a Tam com 57,11%).
Para concluir, se o turismo
receptivo vai mal, se o Brasil está se transformando em exportador de turistas (e
de moedas de referência como o dólar e o euro, de acordo com as estatísticas
oficiais (e parciais) já divulgadas), deve se supor que as crescentes receitas
obtidas por empresas estrangeiras nas sempre mais numerosas rotas que ligam o
país á Europa e aos Estados Unidos, vem em maioria de passageiros nacionais, no
contexto do atual oba-oba econômico brasileiro - sobre cuja duração há opiniões
contrastantes no governo e nos meios produtivos. Todavia não é recomendável que
os gastos dos turistas no exterior aumentem, se tornando excessivos, sem
compensação nas entradas propiciadas pelos visitantes. Talvez, contradizendo a
opinião de seu atual titular, teria chegado o momento certo para o Ministério
do Turismo rever sua política promocional, notoriamente fraca nos países de
maior potencial exportador, para que um maior fluxo de estrangeiros eleve para
índices aceitáveis os indicadores anuais do intercambio turístico do país.