O CARNAVAL NÃO É MAIS AQUELE

 

Com um título como este, quem escreve poderia justificar a aversão a alguns aspectos do fenômeno social brasileiro chamado Carnaval, que é a maior festa popular do país.  De fato, enquanto nem todos festejam o Natal, nem a Páscoa ou outros eventos relevantes , cresce sem parar a convergência de entusiasmo para os dias dedicados ao rei Momo. É uma alegria coletiva que se tornou institucional, uma  festa cuja duração tende a aumentar e é vivida por milhões com uma paixão incomparável.

Entre sexta e quarta-feira o Carnaval se transforma numa maratona, na qual o esforço físico alcança limites que superam o imaginário dos cronistas. São horas, dias, pulando e cantando, num banho de suor alimentado por litros de águas ou de cervejas. Um desgaste físico que, diga-se de passagem, talvez deixe milhares de camisinhas nos envelopes, apesar do incentivo oficial do ministério da Saúde. Assim, um dia alguém descobrirá que o Carnaval daqui é comparativamente menos pecaminoso que em outros países onde, sem excessos físicos,  as mascaras protegem o anonimato, abrindo o paraíso dos sentidos ás concessões amorosas. 

 

Seja claro, todavia,  que participar dele, depois dos 50, para a maioria não tem mais o fascínio  que conquista os jovens. O desfile das escolas vale pelas imagens multicoloridas, pelas danças, pelos corpos bonitos que enfeitam os carros. Quando é bem organizado, cada grupo apresenta um grande show, cujo enredo é um pretexto vindo da história ou da natureza, enfeitando com ritmos e costumes o desfile de milhares. Outro é o Carnaval que junta quilômetros de blocos, que assumem a aparência de uma maré unificada pela paixão individual, por um impulso compulsivo. Pontual, se repete e se renova todos os anos, com a mesma aparente espontaneidade, num ritmo contagiante. Visto de fora, aquele pisar no asfalto, por horas e dias, tem algo de ascético, apesar da alegria que quer comunicar com suas seqüências, contidas dentro do esquema pré-fixado do desfile. De fato, depois da primeira escola de samba, todas as variáveis das outras obedecem ao mesmo ritual, segmentado em etapas. É um desfile que poderia ser militar, se no lugar dos ritmos carnavalescos tivesse  musicas marciais ou se tivesse uniformes ao invés de costumes multicoloridos. Sem dúvida é nos blocos, animados pelos “ a solo” de cantantes ávidos de popularidade, que o povo vive mais a tensão carnavalesca, sustentada pelos concentrados musicais das aparelhagens eletrônicas. Nada ver com os bailes de salões hoteleiros, onde em geral há apenas exibições de luxo, para uso interno das socialites. 

 

O Carnaval não é mais aquele de uma vez, dizem os seus críticos. Segundo eles, aos poucos, a festa tem aceito interferências  e assumido valores e motivações novas. Dentro de sua moldura tradicional, se inseriram formas e compromissos menos jocosos, acima e além do suporte financeiro dos municípios, que visa a promoção turística da cidade. Os budgets crescentes da organização dos desfiles e dos blocos, exigiram das escolas de samba e dos organizadores compromissos ligados á circulação de capitais, sem os quais devido aos custos não haveria show, pois as receitas do Sambódromo não cobrem tudo. Mas isso não significa que o Carnaval esteja morrendo. Talvez esteja ameaçado, mas ainda não foi corroído pela avidez de alguns. Assim mesmo circula algum pessimismo em relação ao seu futuro.

 

Outro dia, saiu no JB um artigo bastante cruel, assinado por Marcelo Migliaccio, sob o título “Um minuto de silêncio pelo Carnaval”. O jornalista transformou o seu texto num daqueles discursos que não se fazem nem na hora do suposto enterro de um inimigo. “ O Carnaval virou um negócio milionário”, afirma, e mais adiante acrescenta “os desfiles hoje são feitos para a televisão”. E aceita ser chamado de saudosista pois para ele no Rio “o Carnaval de verdade era no tempo da Avenida Presidente Vargas....” . “Hoje não se desfila, se exibe, se mostra, se vende. Aquelas mulheres saradas e seminuas podem até ser lindas, mas não são mulheres, são mercadorias expostas em cima de carros alegóricos”. Ele afirma que “O público que vai ao Sambódromo também não é  mais aquele”....”há uma agressividade no ar”.....,”o álcool rola em corredeiras”.....,”o calor que emana do cimento quente parece deixar todos ainda mais incomodados,irascíveis”.

 

Antes das considerações finais, Migliaccio escreve :  “Quem tem dinheiro consome, gasta,  finge que entende de samba e que gosta de pobre; quem não tem fica do lado de fora,vendendo cerveja em lata num isopor imundo... “ , “ A festa foi contaminada pela violência......as garotas parecem preferir a truculência ao romantismo....sonham ser Ivete Sangalo, sempre regendo aquela turba movida a cerveja e energético em sua alegria falsa com data marcada.”

 

Por não ser uma opinião solitária, vale a pena ler todo o artigo, que na verdade é o desabafo de um cronista frustrado pela existência de uma realidade subterrânea, que estaria ameaçando a espontaneidade e as aparências mais vivas da participação coletiva, aos poucos transformando o Carnaval num mundo de figurantes, envolvidos em mais uma negociata, nas mãos de poucos.