ACERCA DE CODE-SHARES E FUSÕES AÉREAS
A evolução da aviação
comercial inclui, entre seus itens principais, a tomada de consciência de seus
altos executivos de que acabaram os tempos do pioneirismo, da aventura aérea
com três aeronaves tiradas da sucata, dos audazes pilotos cruzadores do Atlântico,
dos pools protetores do tráfego nacional. A aviação entrou na idade da razão e,
sob a pressão da competição crescente, as empresas entenderam aos poucos, e com
atraso, que não era suficiente aplicar princípios de marketing nas vendas para
fechar o balanço anual com lucro. Precisava muito mais, com as variáveis
regionais, para impedir mais falências entre nomes ilustres de empresa aéreas,
verdadeiros símbolos da indústria. Seus erros mais clamorosos deviam ser repudiados.
Nada de dívidas bilionárias , assumidas para enfrentar a concorrência com mais
e mais modernos aviões, ou abrir rotas deficitárias,ou gastos excessivos para
ter mais presença nas mídias mundiais, nem pagar comissões extra , fazer
descontos , gastar demais em escritórios de luxo.Ficou provado, de fato,que
tudo isso não havia salvado muitas airlines
da falência.
Foram também necessárias
algumas décadas para que a indústria entendesse que avião lotado podia não ser
rentável e que a sua tendência era crescer a qualquer preço, numa competição
estéril planejada pelas construtoras de aviões, que para tanto se serviam (como
ainda se servem) de empresa de leasing que deixam ao gosto da aérea a opção
entre o parcelamento para compra ou o simples aluguel da aeronave.
No Brasil, entre as vitimas
dessa engrenagem, sem excluir responsabilidades e culpas de seus maiores
executivos, ainda são lembradas a Real, a Panair do Brasil, a Cruzeiro do Sul,
a Transbrasil, a Vasp e a Varig. Suas falências não foram sempre decretadas pela Justiça, pois em muitos casos
amadureceram nas mãos de executivos incapazes ou desonestos, com ou sem a
cumplicidade de políticos, e houve até o caso da intervenção do ministro da
Aeronáutica, para transferir do dia para a noite as rotas da Panair para a
Varig.
Houve também o
desaparecimento de também aéreas menores, enquanto as grandes em geral foram
absorvidas por congêneres, perdendo sua identidade. Excelentes funcionários da
aérea que desaparecia foram as vezes aproveitados pela empresa herdeira, mas em
geral o seu destino era ficarem marginalizados, ou pedir as contas. Mais um
desperdício, que abriu o caminho á incompetência que se enraizava na indústria
de transportes aéreos nacional.
Atualmente outros parâmetros
são considerados no relacionamento entre empresas, prevalecendo o conceito que
a união entre congêneres qualificadas faz aumentar a força das empresas
Foi um processo que começou
com o code-share, sem dúvida uma
formula inteligente para dividir o tráfego de determinadas rotas entre aéreas,
permitindo aos passageiros de escolher uma o a outra, independente da origem de
emissão da passagem. A indústria ofereceu mais opções de escolha aos viajantes,
iniciando uma espécie de consolidação de serviços, cuja gradual ampliação
motivou o nascimento de Alianças em escalas regionais. Mas nem a StarAlliance,
nem suas duas concorrentes, eliminaram o crescimento de entendimentos mais
restritos, entre aéreas signatárias de code-shares ou de joint-ventures.
E foi encontrada também uma
formula para não demonizar as fusões entre empresas aéreas, em particular
depois das crises periódicas da indústria, das quais a de 2008/2009 foi a
última. Está acontecendo que, partir do momento em que as companhias se
conscientizam da impossibilidade de crescer sozinhas com rentabilidade, elas
optam por projetos de fusão, nos quais procuram salvaguardar os respectivos
nomes, como fizeram a Air France e a KLM em 2004 e como estão fazendo
atualmente a British Airways e a Ibéria. A idéia e manter sob uma mesma holding frotas e redes separadas,
devidamente identificadas. No caso da BA e da IB a primeira dará o aporte de
sua solida posição nas rotas do Atlântico Norte, enquanto a segunda, de idioma
espanhol, continuará se dedicando á América Latina. Somadas representam uma
empresa de US$ 8 bilhões e a sua fusão poderá ser o início de outras adesões,
com a etiqueta da mesma holding por elas escolhida, denominada Internacional Airlines Group.
Essa mega-fusão, que num
curto prazo visa incorporar também a American Airlines, foi a maneira escolhida
pelas duas companhias para enfrentar as adversidades econômicas atuais, tendo o
objetivo de reduzir as previsões de novas perdas através da sinergia de lucros e custos. Mas nem tudo
é fácil e o acordo não satisfaz plenamente as dezenas de milhares de empregados.
São assinaladas reações de alguns setores das duas empresas, como os
administrativos, de marketing e de vendas, cujos funcionários temem a perda do
emprego.
O problema, que está sendo
enfrentado realisticamente, não transforma a formula de fusão em negativa para
as forças de trabalho, pois se é verdade que as operações em code-share ou joint-venture não afetam em
geral a área trabalhista das aéreas, talvez no caso da BA e IB o risco de perda
do emprego seria mais grave se, forçadas pela conjuntura financeira, as
signatárias tivessem que afrontar a falência, pela impossibilidade de continuar
operando sozinhas.