SOBRE A URGÊNCIA DE MEDIDAS RADICAIS NOS AEROPORTOS DO PAÍS
Pelos últimos acontecimentos, os problemas dos transportes aéreos do país não estão somente nos aeroportos. Estão nas empresas maiores, com destaques para a Tam e a Gol. A evidência que seus serviços tem decaído em qualidade é dada pela migração de milhares de usuários para aéreas menores, como comprovam as estatísticas mensais que apresentam as participações de mercado.De fato Tam e Gol tem perdido shares, apesar do crescimento da demanda que neste ano chegou a 25% .
Parece que elas não detectaram em tempo esse crescimento, não contratando e treinando um número de comissários e de pilotos suficiente para operarem mais vôos nos novos Boeing e Airbus que tem recebido, nem conseguiram reestruturar seus planos de vôo e os horários de trabalho de seus tripulantes de maneira rotativa, legal e eficiente. E para completar o panorama negativo, estão falhando também no atendimento nos aeroportos.
Acrescentem as falhas das empresas ás carências estruturais dos serviços de aeroportos e terão uma visão aproximada da situação na qual se encontra a indústria, que neste 2010 apresenta de positivo apenas o crescimento da demanda, fenômeno totalmente fora do controle das empresas. De fato, o número de embarque domésticos aumentou e um número bem mais elevado de brasileiros vai ao exterior devido a uma conjuntura econômica orientada pelo governo, que tem concedido melhorias salariais e redução de impostos, para favorecer a incorporação de novos segmentos, relativamente elevados, de cidadãos ao bolo de consumidores nacionais.Compram-se mais produtos ,perecíveis ou não, principalmente a crédito, e os que pertencem á chamada classe C começam a querer usufruir os prazeres das viagens aéreas, enquanto todas as classes sociais esbanjam milhões no exterior, incentivadas pelo câmbio favorável e pelas novas facilidades alfandegárias que encontram ao desembarcarem com suas malas cheias nos aeroportos internacionais do país.
Tudo cresceu neste ano que se encerra, menos a eficiência das empresas aéreas maiores. Das quais depende grande parte da responsabilidade pelo bom funcionamento dos transportes aéreos. Mas com regularidade, nestes últimos tempos, quando há aumento do tráfego Gol ou Tam revelam suas fraquezas estruturais, agravadas pelo investimento insuficiente em novos funcionários. Elas tentaram esticar os horários de trabalho a bordo para minimizar as falhas, mas acabaram infringindo normas internacionais que protegem a segurança de vôo, até que as vozes de comandantes e de comissários se levantaram contra os abusos, movimentando os sindicatos e a própria Anac.
Desta vez foi a Tam, que alegando problemas meteorológicos tentou justificar nos últimos dias de novembro o cancelamento seguido de 348 voos. Segundo a empresa, o seu plantel de tripulantes incorporaria 8.350 pessoas, ou seja praticamente 10 funcionários por cada um dos 840 voos que opera diariamente. E o seu presidente fez questão de garantir à Anac que não é a Tam a empresa que estaria vendendo assentos a mais neste propício período pré-natalino. Mas deixou de comentar se é verdade que, tendo comprometido grande número de aeronaves para operar os lucrativos vôos fretados da CVC, caso a rotatividade prevista de partidas e chegadas fosse interrompida por quaisquer acontecimentos, inclusive climáticos, faltariam á Tam aviões e tripulantes para os vôos regulares. Atualmente, com as aeronaves efetuando seguidos round-trips, com utilizações médias que chegam a 13 horas por dia, não é fácil manter em dia os horários de trabalho dos tripulantes e as revisões de rotina de aviões, efetuando idas e voltas in time. Eis que, se por qualquer razão, técnica ou meteorológica, como tem acontecido nestas últimas semanas, uma aeronave não cumpre o previsto deslocamento, a inteira série de vôos sofre uma alteração inicial que terá efeito dominó de impacto crescente na programação. E assim se multiplicam os inevitáveis cancelamentos e atrasos, que acabam penalizando os passageiros.
A Agência Nacional de Aviação Civil tomou uma iniciativa certa, ao convocar as seis maiores companhias aéreas para recomendar-lhes de estacionar nos principais aeroportos tripulações e aeronaves de sobreaviso, para atenderem durante as festas de fim de ano os passageiros eventualmente ilhados pelo mau tempo. Mas a prontidão não havia sido programada para começar na semana passada e se viu o que se viu. Foi uma espécie de alerta, uma ante-prima do que poderá ocorrer nos dias que antecedem o Natal e o Ano Novo, caso se confirme a previsão de 14 milhões de passageiros circulando nesses períodos pelo país.
Não há dúvida de que os acontecimentos da semana passada foram agravados pela falta de estruturas adequadas e de flexibilidade dos principais aeroportos. As palavras de Bisignani, da IATA, criticando ás infra-estruturas da indústria de transportes aéreos do Brasil em seus aeroportos, foram incisivas e alarmantes. E o fato que a reação oficial admitiu que ainda há bastante a ser feito nesse setor, além de ponderada foi correta. Caberá a uma nova organização do setor aéreo, que está sendo anunciada pela recém eleita presidente da República, uma revisão total da política de relacionamento entre o governo e as empresas aéreas, ao mesmo tempo em que a administração dos aeroportos deverá ser entregue aos técnicos, afastando de uma vez os políticos ambiciosos que somente prejuízos tem causados á imagem internacional da aviação comercial do país.
Mas será necessário bastante tempo para realizar as alterações exigidas. Planejamento em primeiro lugar, mas também firmeza, cobrança direta dos responsáveis inadimplentes, controles e inspeções técnicas para garantir a manutenção correta das aeronaves, multas, suspensões, cancelamentos de licenças, pois os transportes aéreos são uma indústria séria, da qual depende – além do sucesso comercial das empresas – a segurança de milhões de viajantes.
Pois, por incrível que pareça, de acordo com o jornal
econômico Valor, apesar ou porque
ofereceram serviços de qualidade inferior, “desde
2000, as companhias aéreas só registraram lucro em
três anos, de
“A entrada de novas operadoras no mercado, a adoção de formas de operação
destinadas a reduzir custos, a briga cada vez mais acirrada por passageiros, a
leniência das autoridades reguladoras e fiscalizadoras resultaram numa guerra
de preços que, como mostra o acúmulo de prejuízos nos últimos anos, ameaça
tornar inviável a sobrevivência financeira das empresas.
“Tramita no Congresso um projeto de mudança do Código Brasileiro de Aeronáutica
- conclui
o artigo do prestigioso jornal - que
extingue o regime de concessão - o que exime o governo da responsabilidade de
garantir o equilíbrio econômico-financeiro das empresas - e formaliza a
liberação dos preços das passagens. Mas mantém a obrigação do poder público de
estabelecer normas que impeçam a competição ruinosa das empresas e lhes
asseguram o melhor rendimento econômico. Essa obrigação já existe e não está
sendo cumprida.”