PORQUE CRESCE O NÚMERO DE BRASILEIROS NOS EUA ?

 

Outro dia decidi voltar brevemente á minha atividade preferida, entre aquelas específicas do marketing. Imaginei entrevistar umas cinqüenta pessoas que se encontravam entre as centenas que diariamente desfilam na calçada da Embaixada dos Estados Unidos do Rio de Janeiro, interessadas em receber o visto para aquele país. Aplicaria critérios objetivos, dividindo os presentes entre homens e mulheres e equilibrando a amostra de suas idades entre aqueles abaixo de 25 anos e os que demonstravam mais.

 

Sabe-se que, em geral, poucos são os que apreciam ser entrevistados e que há sempre uma certa desconfiança sobre o real objetivo das perguntas feitas. Mas estando em fila, na espera de ser entrevistado, a pressão adversa é bem menor.E se tratando de falar sobre viagens  o pessoal gosta de falar sobre o destino de preferência e de contar seus planos de estadia, por remoto que ele seja, em particular se tratando dos Estados Unidos da América.De fato, a paixão para as cidades dos EUA, que explodiu depois da segunda guerra mundial e foi aumentando com o crescimento econômico daquele país, não diminuiu com o passar das décadas. Nesse longo período apareceram figuras de americanos detestáveis, mas se multiplicaram também as atrações da terra do Tio Sam, sob múltiplas formas. Desde os DisneyWorld aos ricos Museus de Nova York, da luminosa Time Square ás lojas enfileiradas na 5ª Avenue e nas ruas paralelas, dominadas por lojas de todo tipo, com destaque pelas vendedoras de artigos eletrônicos. Entrar e comprar no Macy´s é, como dizem os americanos, um “must” do qual poucos conseguem fugir, mas além desse enorme magazine há o fascínio de mil outras lojas, cheias de iPods sempre menores e de outras parafernália visuais e sonoras. São elas as que mais atraem os visitantes de todas as idades, pela abundância de artigos e, supostamente, pelos preços mais convenientes. E para quem optou para descobrir a Flórida, há a atração perene dos mundos artificiais criados pela fantasia de Disney, que encantam os pequenos com a cumplicidade não involuntária dos grandes.

 

Segundo as estatísticas divulgadas no último Pow Wow realizado em Orlando, foram cerca de 4 milhões os visitantes estrangeiros desembarcados em Nova York, pouco mais de 3 milhões os que chegaram em Miami e cerca de 2,1 milhões os que preferiram Los Angeles, de um total de 54,9 milhões de turistas que em 2009 estiveram nos Estados Unidos. A crise mundial interferiu no fluxo turístico mundial, reduzindo de cerca de 3 milhões a demanda por destinos americanos, na comparação com 2008.Mas também, com certeza o número de visitantes seria maior se as autoridades americanas, ainda sob o impacto do atentado terrorista de setembro de 2001, fossem menos rígidas na concessão de visto, expandido mais o chamado Visa Waiver Program, que já dispensa  da exigência os cidadãos de alguns países.

Mas no fluxo para os EUA, em 2009 não faltaram brasileiros, que aliás aumentaram de 770 mil para 890 mil no biênio, colocando o país no 7º lugar na classificação geral, depois dos dois países confinantes, Canadá e México, com respectivamente cerca de 18 milhões e de 13 milhões de visitantes. Depois, no ranking vem o Reino Unido (3,8 milhões), Japão (2,6 milhões) Alemanha (1,6 milhões), a França (1,2 milhões) e o Brasil. Todos os restantes países, tem números de turistas diminuindo progressivamente.

 

O Brasil, no mercado dos EUA, se distingue também pelos gastos de seus turistas, com valores entre os mais elevados do mundo. Mais deles somente os visitantes procedentes de alguns países do Oriente Médio e da Ásia, notoriamente grande gastadores, alcançam valores médios individuais mais altos. Numa comparação, do vice-presidente internacional da U.S Travel Association, Luiz de Moura Jr. feita durante o Pow Wow, ele se declarou impressionado pelo fato que enquanto os 13 milhões de turistas mexicanos gastaram cerca de 8 bilhões, os 890 mil brasileiros haviam gasto nos EUA, no ano passado, US$ 4,4 bilhões .Quase 40% do total de US$ 10,86 bilhões oficialmente divulgados pelo Banco Central como despesas feitas por pessoas físicas no exterior ,com cartões de crédito e outras operações bancárias.Mas não há dúvida de que essa quantia é apenas uma parte do dinheiro que os turistas brasileiros levam consigo para despesas no exterior.

 

Voltando á pesquisa, as perguntas eram simples e recebiam respostas imediatas dos entrevistados. A mais abrangente, que pedia a razão principal da viagem , obteve quase 95% de respostas indicando as férias. Das quatro categorias de respondentes, cerca de três quartos esclareceram melhor as férias programadas, afirmando que pretendiam conhecer as atrações mais famosas de N.York ou da Disneylândia, e quase todos completaram suas intenções acrescentando “compras, muitas compras”. Do “universo” de entrevistados, uma minoria (15%) citou os museus como as atrações principais, 60% se referiu ao centro de Manhattan e foram poucos os que deixaram de nomear as compras, principalmente de artigos eletrônicos, entre as motivações mais fortes da viagem.

Ninguém viajaria com quartos já reservados em hotel, cerca de 20% esperavam de se alojar em Albergues para a Juventude, e entre os restantes cerca de 60% esperavam e procurariam hotéis com tarifas diárias, por quarto duplo, em volta de US% 180.

 

Cabe evidenciar, que o segmento de viajantes entrevistado representava as categorias com disponibilidades financeiras entre médias e modestas, faltando os executivos e as pessoas de renda elevada, que costumam recorrer aos despachantes. Mas não pode ser ignorado que são eles os turistas mais numerosos, aqueles que com mais freqüência são encontrados nas ruas e nos hotéis de Nova York, sob o peso de volumosas sacolas de compras, adquiridas até fazendo economia na comida e na hospedagem. Mas essa evidência não é só brasileira.. Asiáticos e africanos seguem parâmetros “compristas” parecidos, imitados – quando o euro valia um pouco mais - também pelos europeus.

Pena que, se essa corrente engrossar, os valores mundiais de cultura e de arte, que no passado inspiravam o turismo para os grandes centros do globo, serão sempre menos procurados ao vivo. Para muitos há outras opções mais práticas no exterior. Assim, a visão de obras imortais ficou confiada á tecnologia, que hoje substitui qualquer realidade com as frias imagens reproduzidas por aparelhos eletrônicos, sempre mais perfeitos e acessíveis a quem viaja pelo globo. Entre um ”sale” e um Leonardo a escolha ficou difícil.