QUANDO OS TRIPULANTES NÃO
SE ENTENDEM COM A EMPRESA
Mais
uma vez voltam a ser discutidos regulamentos dos aeronautas, a categoria que
representa as tripulações. Seus integrantes, pilotos e comissários, obedecem a
normas diferentes, ao longo das respectivas horas de vôo: uns, pilotos e
co-pilotos atuando na frente da aeronave; outros, os comissários, tendo
obrigações relacionadas com o conforto dos passageiros acomodados na cabine.
Deles sempre dependeu a imagem
da companhia aérea, ainda mais hoje que a compra da maioria das passagens é
feita pela internet. Os usuários conhecem a aérea a bordo e formam a sua opinião
sobre a empresa na qual voam baseados no tratamento que recebem durante a
viagem. Após o desembarque, serão a qualidade dos serviços recebidos e a habilidade
dos comandantes em oferecer-lhes uma viagem tranqüila, as lembranças básicas
que formarão a sua opinião sobre a empresa. Não há propaganda que possa
substituir a eficácia desse contato direto.
Em outros tempos, quando no
país os viajantes procuravam o melhor em termos de qualidade de serviços, coube
á Varig riograndense ser identificada como uma das companhias aéreas do mundo
cujo atendimento aos passageiros era considerado exemplar. Com todo o respeito
devido ás qualidades profissionais dos comandantes, cujo profissionalismo
criava o clima ideal para embarcar num longo vôo transcontinental sem receios
quanto á segurança, foram os ensinamentos dos que se dedicaram a aprimorar os
serviços de bordo, cujos nomes ainda hoje são lembrados pelos tripulantes, que
realizaram o sonho de perfeição de Rubem Berta e conquistaram para a companhia
um número sempre crescente de usuários. Talvez, houve até alguns excessos iniciais
que o patron exigia em matéria de qualidade
de serviços, ao contratar moças da society para entreter a bordo os passageiros
de primeira classe, mas foi partindo dessa visão que começou o sucesso da Varig.
Aos poucos a empresa conseguiu implantar em seus vôos um nível de atendimento oferecido
aos viajantes que anos mais tarde seria imitado pelas grandes companhias
internacionais e igualado somente pelas asiáticas. Alice Klaus e Sergio Prates
poderiam testemunhar como nasceu e se desenvolveu na aérea o culto dos serviços
de bordo de excelência, que se iniciavam com a qualidade dos cursos ministrados
aos comissários e com a permanente procura do melhor, para transformar o
intervalo dedicado á comida num festival de culinária.
Hoje muitas coisas mudaram
na aviação comercial do país. Com o virtual desaparecimento da pioneira
riograndense se encerrou uma época, e não tiveram o sucesso esperado as tentativas
de outras empresas para substituir com sucesso as imagens dela e de outras companhias
desaparecidas antes, quais a Real, a Panair do Brasil, a Transbrasil que – como
aconteceria mais tarde na fase inicial da Tam - nasceram e se desenvolveram sob
o impulso de presidentes dinâmicos e sonhadores. Atualmente, os dois herdeiros
principais da pioneira, estão com mais de 80% do mercado nacional, mas são
apenas pálidas sombras da aérea de outros tempos, por falta de brilho
individual, pois percorrem os caminhos ásperos dos serviços aéreos domésticos e
internacionais sem grande vocação, apenas seguindo preceitos de qualidade que
poucas vezes superam a mediocridade. A Tam, que adorava os tapetes vermelhos na
época de seu fundador, tem enfrentado duras provas, mas ainda acredita na
importância do bom serviço de bordo; muito menos dela, a Gol ainda confia no
equivoco das low fares que raramente tem aplicado, e pouco se tem esmerado na
qualidade de seu atendimento aos passageiros que aliás ,comparado com aquele da
época de seu lançamento, revela uma certa decadência.
Atualmente a Gol está evolvida em tensões
internas que com certeza não contribuem para melhorar as suas performances nos
setores técnico e de serviços. Seu dono parece estar influenciado pela origem e
pela experiência rodoviária, como já revelou na tentativa falida de manter sob
as asas da Gol o prestígio e a eficiência internacional da Varig, empresa que adquiriu financeiramente falida e pouco
fez para re-erguer. Enquanto isso a Gol permanece sem perfil próprio, revelando
certa incompetência em algumas áreas, como evidenciou durante a crise da outra
semana, quando seus planos de vôo foram pelos ares , seus passageiros ficaram esperando
nos aeroportos e seu prestígio foi afetado. Na emergência, suas tripulações se
revelaram insatisfeitas e aproveitaram para denunciar que a empresa estava
alterando suas folhas de ponto para exigir mais horas de vôo e evitar multas da
Anac. Mais de 400 vôos foram cancelados, pois várias equipes sob a ameaça de
demissão haviam superado as 9,5 horas de vôo previstas pela Lei do Aeronauta,
apelando por isso ao Sindicato que sem êxito havia solicitado a intervenção da Anac,
pois é notório que tripulantes cansados não são os melhores para cuidar da
segurança de vôo.
E´ opinião geral nos meios
aeronáuticos que com o crescimento do tráfego, a situação das tripulações da
Gol teria piorado na comparação com o passado, a começar pela remuneração
bastante insatisfatória, pois apesar do fato que o piso de 54 horas de vôo é acrescido
das horas extras (até um total permitido por lei de 85 horas mensais) o nível
de salários médios dos comissários estaria entre 2.100 e 2.800 reais e em cerca
de R$ 7.000 para os comandantes, a não ser quando as convocações do pessoal de
vôo superam os limites de horários, contrariando a regulamentação trabalhista.
Depois de mais uma amarga
experiência, a Gol talvez tenha entendido que a aviação comercial não é
comparável com os transportes terrestres que enriqueceram seus donos. Mas para
que corrija o seu rumo, voltando a seus dias melhores, parece essencial a
mudança da forma de relacionamento com as tripulações, depois de paga a multa
de 2 milhões de reais imposta pela Anac e de enfrentar as mais de 50 ações
judiciárias motivadas pelo caos aéreo criado na semana passada.
Simpática e necessária foi a
iniciativa de seu presidente, Constantino de Oliveira Júnior, ao pedir
desculpas aos passageiros pelos prejuízos causados pela companhia, admitindo que
houve erro na implantação no mês de julho de um novo sistema de planejamento de
vôos. Mas foi bastante piegas o anuncio que fez no mesmo speech, lamentando prejuízos
de R$ 51,9 milhões no segundo trimestre deste ano, contra lucro de R$ 353,7
milhões no mesmo período de 2009. Com essa admissão quis conquistar o perdão
dos usuários ?