PESQUISAR: UMA ARTE QUE AINDA NÃO ESTÁ AO ALCANCE DE TODOS

 

Os resultados do primeiro turno das eleições brasileiras deixaram muitas pessoas frustradas. Afinal as pesquisas, registradas no Tribunal Eleitoral para eventuais controles, relacionados com a contagem dos formulários e com sua correta interpretação, vinham de empresas que há anos se dedicam a essa atividade. A freqüência com que foram divulgados os últimos dados, subavaliou as dificuldades de medir com pesquisas do tipo não probabilístico, por cotas, a opinião exata de mais de 100 milhões de eleitores, entrevistando 2 ou 3 mil pessoas de cada vez, supostamente seus representantes nesse universo.

 

Num livro de Alberto Carlos Almeida, professor de ciência política e diretor do Instituto de Pesquisa de Opinião da Universidade Federal Fluminense, publicado pela Fundação Getúlio Vargas em 2002, as pesquisas eleitorais e de opinião são divididas, como é praxe no mundo inteiro, em dois grandes grupos: as probabilísticas e a as amostras não probabilísticas ou por cotas. No primeiro grupo todas as unidades de uma população tem alguma chance de ser incluídas na amostra; no segundo isso não acontece, pois as pessoas entrevistadas foram previamente selecionadas apenas de acordo com algumas características, quais a idade, a classe social, a renda , a escolaridade ou o sexo.Este tipo de pesquisa com cotas proporcionais de todos os sub-grupos, que supostamente refletem na amostra o total da população, é relativamente barato e de rápida execução, sendo o preferido pelos institutos que querem apresentar as sucessivas opiniões dos eleitores pouco antes da publicação dos resultados.

 

Mas de fato, o melhor e mais preciso método de pesquisa, o probabilístico, encontra dificuldades insuperáveis para ser aplicado no Brasil, devido á necessidade de um contato pessoal entre o entrevistador e as pessoas sorteadas que representam as respectivas unidades da população. Entrevistas com essas pessoas, rápidas, domiciliares, sem a imprescindível ajuda do telefones fixos (cujo número ainda é reduzido e que atualmente é, em muitos casos, substituído pelo celular, carente da lista nominal dos usuários), são impossíveis de ser realizadas nas cidades grandes e médias, assim como em áreas rurais, vastas e difícil de ser alcançadas. Na amostra probabilística são aplicados dois conceitos importantes, comuns a todas, para atenuar as imperfeições das pesquisas: 1)a margem de erro do número porcentual que os institutos atribuem a cada candidato, que em geral varia para mais ou para menos de dois pontos e, 2)o intervalo de confiança, que estabelece o número de resultados da pesquisa, menor do total, que será considerado para a aplicação da margem de erro.

 

Por tudo isso, a mais utilizada no Brasil, entre as chamadas amostras não probabilísticas é a amostra por cotas. A Datafolha, o Ibope e outros institutos dividem a população a ser pesquisada em subgrupos (homens, mulheres, jovens, adultos, velhos, escolaridade, etc.) e atribuem a cada um deles um valor proporcional, dentro do total de entrevistas que serão realizadas. Do conjunto de características individuais surgirá o esquema para formar o universo dos que serão entrevistados, escolhidos ao acaso entre os identificados como pertencentes a cada subgrupo previamente selecionado.

O risco de alteração da representatividade dos entrevistados decorre quando há pessoas que possuem mais de uma das características determinadas, fazendo com que haja um ou outro subgrupo não representado corretamente, inclusive quando na busca for difícil encontrar o número previsto desses indivíduos. A omissão, apesar de involuntária, produz ás vezes distorções notáveis, também pela urgência de tabulação dos dados coletados. Nesses casos, a alteração da relação numérica entre a estatística da amostra e o parâmetro da população, modifica a real margem de erro atingindo também o intervalo de confiança dos dados válidos.

 

Nas pesquisas eleitorais de âmbito nacional, outro grave obstáculo para um calculo representativo da realidade, consiste no tamanho do universo investigado, cujo número de integrantes é mínimo, comparado com o número de eleitores potenciais. Uma distorção aparentemente pequena, produz alterações elevadas quando projetada no total do universo que representa : 3 mil o mais pesquisas para descobrir as intenções de milhões, em geral tem tudo para serem insuficientes nas pesquisas probabilísticas. Nesse contexto, pode-se afirmar que a diferença de 2 ou 3 pontos porcentuais verificada entre as previsões feitas pelos institutos de pesquisa e os resultados finais do primeiro turno das eleições de 2 de outubro, mínima de um ponto de vista quantitativo, assumiu importância imprevista ao causar a disputa de um segundo turno entre os dois candidatos com mais votos.

 

Sempre em matéria de pesquisas, deve todavia ser enfatizada a seriedade das amostras eleitorais, comparadas com aquelas que o Jornal do Brasil publicava, nas quais supostas equipes de entrevistadores qualificados (estudantes de turismo de uma universidade carioca) abordavam grupos de algumas centenas de turistas estrangeiros e, aplicando formulários e técnicas primárias nunca reveladas, chegavam a conclusões até impactantes sobre seus agrados e desagrados durante a permanência no Rio de Janeiro.  As entidades que reúnem os institutos que se dedicam com seriedade á difícil arte das pesquisas deveriam impedir a realização de amostras sem a participação de técnicos especializados. Pesquisa é coisa séria, que pode levar a decisões políticas erradas, prejudicar imagens de pessoas ou entidades, ou causar perdas a investidores desavisados pois, como vimos, também quando são feitas com seriedade, é mínima a margem que separa as possibilidades de acerto estatístico daquelas de erros graves. Tudo deveria ser feito para preservar e consolidar a imagem e a credibilidade das pesquisas como recurso estratégico, acabando para sempre com as bolas de cristal, ainda ao alcance de uma minoria.