UM GRANDE SHOW POR CONTA DA VARIG

 

Tem épocas, ou dias ou horas na vida da gente nas quais as lembranças fluem sem ter sido chamadas. Hoje, agora, é o dia das Reuniões de vendas da Varig, uma cerimônia, um rito, uma tradição que consolidava a união entre todos. Durava dois dias, ou três, não importa quantos, pois aqui não se faz uma crônica nem se lembram fatos históricos, nem quando e onde aconteceram. Sabe-se, apenas, que até o começo dos anos 90 aconteciam todos os anos. Talvez algumas das lembranças pertençam á fabulosa reunião de Manaus, ou de outra num dos grandes hotéis onde acabaram sendo feitas.

 

Havia nelas sempre um programa a cumprir. Antes se convocavam os gerentes e representantes do Brasil e do exterior, se juntavam diretores e assistentes. Cabiam ao presidente as ações principais, após os relatos de um ou de outro e feitos os balanços, sempre cheios de esperanças, mas as vezes amargos. Nas últimas dessas reuniões o clima não era mais aquele dos anos de glória. Os presentes sabiam que as contas no head-office estavam causando problemas. O ambiente era mais tenso, todos pareciam mais objetivos e conscientes de suas graves responsabilidades. Na década anterior havia sempre tempo bastante para rir das últimas piadas do mexicano, para escutar e aplaudir os balancetes da granja no Nordeste, para receber os títulos de membro da Fundação Ruben Berta, ou para um trago amigo e um almoço de confraternização.

 

São dezenas as imagens de ex-gerentes e representantes. Motivados, orgulhosos por pertencer á empresa maior da América Latina, 26ª no mundo. Mas com a crise o seu número diminuía e depois veio a vez de suas representações grandes e pequenas, que deviam ser fechada para reduzir custos gerais, eliminar alugueis e salários. Na fase de declínio, havia uma saudade imensa dos velhos meetings de venda, onde dominavam motivação, confiança, decisão de lutar para melhorar o faturamento, superar o target, contribuir ao crescimento da companhia. Essas reuniões eram uma espécie de linfa que renovava a cada ano as esperanças de executivos e de funcionários.  Independente da origem, fossem São Paulo, Frankfurt, ou Montevidéu ou Nova York, havia para todos a mesma palavra de ordem, aumentar as vendas e  cortar os custos, dentro do possível. Depois os cortes se tornaram obrigatórios, foram decididos no Brasil, mas já era tarde, a roda do destino havia mudado de rumo.

 

Coube ao jovem paulista eleito presidente enfrentar todos os desafios múltiplos da época, a começar pelos leasings vencidos, e depois as ameaças de cortes do combustível, de restrições operacionais, a pressão dos credores, sem contar as conspirações internas para destronar-lo, que vinham de supostos colaboradores e colegas fieis.

 

Mas nas reuniões de venda não haviam somente os representantes e gerentes do exterior e seus colegas brasileiros. Também as chefias de equipes subordinadas que atuavam nos segmentos doméstico e internacional estavam presentes e com elas os diretores de toda a estrutura da Varig. As imagens de alguns desses executivos cruzam a memória, e parecem tão fora de foco que surge o impulso de querer vê-los melhor á luz fria de suas performances. E surge um pensamento amargo, quase uma convicção: não foram esses diretores, não, que ajudaram a Varig a prosperar. Ainda bem que existiram, espaçados no tempo,  punhados de exceções. Eram os mais técnicos, uns bons administradores e os autores dedicados dos serviços que eram oferecidos a bordo, alimentares e humanos. Mas para quase 30 mil, eram poucos os que estavam qualificados e possuíam dotes para dirigir e orientar um exército de devotos, fieis á empresa e vestindo sua camisa com entusiasmo maior de que um torcedor de futebol. Hoje é fácil perguntar o que se podia esperar dos diretores nomeados por méritos regionais ou por razões de rodízio, ou dos que haviam emigrado para o marketing vindo de setores primários. Mas a verdade é que então não importava o como e o por que, pois na grande família havia respeito para os chefes e suas mensagens eram ordens. Além da dedicação pessoal. Nas grandes cidades do país e do exterior havia quem madrugava para receber no aeroporto Vips e menos Vips, quem fazia das  relações públicas com autoridades e com firmas de prestígio uma grande arma de vendas, quem coletava  dados preciosos para o desenvolvimento de novas rotas. Mas não somente isso. Os devotos faziam muito mais.

 

Por isso, no salão da Reunião de vendas eles se empolgavam e extravasavam a sua grande paixão, numa fermentação e devoção que nem todos os diretores souberam apreciar e valorizar. Assim, se a Varig havia se tornado um culto, depois do furacão Berta e da bonança De Carvalho, as vezes essa cerimônia coletiva parecia se desenvolver num templo. Pois é: havia celebrantes, fieis, hinos, rezas e no final não faltaram os judas.