PALAVRAS AO VENTO
Acredite se quiser: já se
passaram mais de 50 meses desde o dia em que os participantes do Aerus tomaram
conhecimento da intervenção do governo na administração do fundo de
aposentadoria. E descobriram, aos poucos, as irregularidades e os abusos
cometidos com o aval da Secretaria de Previdência Particular, incluindo a
criação de um privilegiado Plano II que absorveu capitais do Plano I - do qual
participa a maioria dos aposentados - que por essa irregularidade estão
recebendo nesta fase de transição pagamentos bastante inferiores aqueles aos
quais teriam direito se os seus fundos tivessem sido preservados. E não há
jeito de corrigir a injustiça, que continuará por mais alguns meses , até quando
acabarem as receitas obtidas com a venda dos ativos do Aerus, divididos
mensalmente dessa maneira discriminatória pelo interventor.
Ao longo de mais de quatro
anos, inúmeras foram as manifestações dos aposentados para chamar a atenção das
autoridades sobre a injustiça praticada pela intervenção do governo, depois que
seus representantes criaram uma situação financeira falimentar que não souberam
ou não quiseram evitar. A começar por não ter impedido o cancelamento por parte
das autoridades aeronáuticas da contribuição de 3% sobre as receitas do mercado
aéreo doméstico, que havia sido garantida quando foi fundado o Aerus. Desde o
presidente da República a seus ministros, passando pelo tortuoso caminho da
Justiça e pelos numerosos parlamentares amigos e dirigentes de entidades
sindicais, até jornalistas e, recentemente, a própria União representada pela
AGU, todos eles receberam direta ou indiretamente os sofridos apelos dos
aposentados, injustamente despojados de seus direitos.
E da maioria deles os
aposentados receberam promessas de iniciativas a favor, palavras de
reconhecimento da legitimidade da causa que estavam patrocinando, formulas de
solução para o reinício dos pagamentos, apoio moral. Sem, até agora, nenhum resultado
prático. Aliás, pelo contrario, depois da participação direta da AGU na analise
das contas referentes ao crédito da Varig devido pelo governo por ter cortado
suas receitas, a situação parece ter ingressado num caminho sem saída, pois as
conclusões das longas reuniões transformaram a empresa aérea de credora em
devedora, bloqueando assim a possibilidade de recebimento pelos aposentados de
parte da soma que supostamente a União reembolsaria á Varig.
Depois disso, advogados e
sindicato concentraram seus esforços nas evidências jurídicas dos abusos
cometidos contra milhares de aposentados, dando nova ênfase tanto á atuação
omissa dos representantes da União na administração dos capitais do Aerus, como
no descumprimento por iniciativa do antigo DAC da participação financeira representada
pelo fluxo da contribuição de 3%%%%, que deveria ser mantida por um período de
30 anos. E o problema vai se arrastando, com a prospectiva de eventualmente
chegar, dentro de breves semanas, na área pouco confiável das promessas
eleitorais, limbo eterno de mentiras a caça de votos, onde tudo é oferecido mas
pouco é lembrado na hora do cumprimento.
Atualmente são mínimas as razões
para acreditar numa solução do problema do Aerus, que permita aos aposentados
de voltar a receber os valores mensais que acreditaram ter garantido para a sua
velhice. Ainda acontece ,no plenário do Senado ,que mais uma vez um parlamentar
responsável e amigo divulgue em sua intervenção o total apoio á causa dos
aposentados; ou que apareça um vibrante artigo de jornal contra a injustiça que
o governo está perpetrando com sua omissão ; e não faltam os comunicados do
Sindicato, ainda confiante numa reação positiva vindo de Brasília.São
iniciativas que ajudam a manter viva a esperança de uma solução favorável , mas
os aposentados são agora mais realistas
e não querem alimentar esperanças, acreditando que no curto ou médio prazo
poderá surgir algum resultado prático.
De fato, se nada foi
conseguido com a firme atitude da presidente do Sindicato, nos encontros com o
presidente da República, seu ex colega nos movimentos sindicais do ABC paulista;
se as palavras pronunciadas no Senado por dignos parlamentares não saíram das
páginas frias do Diário Oficial; se o Judiciário parece insensível á questão
humana que existe atrás do processo que ainda não concluiu, é difícil acreditar
que ainda haja algum caminho inexplorado que possa levar á justa conclusão do
caso.
Raras vezes situações
constrangedoras e injustas tiveram tanto paladinos que tentaram solucioná-las,
como desde o dia da intervenção aconteceu com os problemas sociais que abrangem
milhares de aposentados. Raras vezes se ouviram e leram tantas opiniões
favoráveis, manifestadas por entidades e pessoas de respeito, serem ignoradas
nas altas esferas de Brasília. De fato, parece que a solução da causa do Aerus
está sendo rejeitada da mesma maneira que se viu quando, na crise da Varig, estavam
em jogo não somente o destino da maior empresa aérea da America do Sul mas
também a sobrevivência de milhares de funcionários. Parece que no Brasil os
caminhos da política não passam pelos céus de brigadeiro e por questões que não
rendem votos.
Talvez, somente o Poder
Judiciário poderia, num elevado julgamento, descobrir aquela formula de solução
que ainda não foi encontrada nos Códigos ou nas Leis econômicas. Poderia
esquecer todas as restrições inventariada até agora considerando, una tantum, que acima das razões legais há
uma questão humana e ética, e que seria sua função reparar uma injustiça que
dura há mais de 50 meses. Depois de tantas palavras levadas pelo vento, é do
Supremo Tribunal de Brasília que poderia vir a palavra final.