OS ÁSPEROS E TORTUOSOS CAMINHOS DA “DEREGULATION” A É R E A
Nunca, na década passada e
antes, Brasil e países europeus pensariam em assinar um documento como aquele
apresentado na Cúpula sobre Aviação Civil da União Européia e da América Latina
realizada na semana passada no Rio de Janeiro. Ele escancara a porta da
concorrência entre as empresas aéreas e foi debatido no seminário depois de ter
sido previamente discutido pela Anac, Agência Nacional de Aviação Civil e pelas
autoridades européias. Aprovado oficialmente pelo ministro da Defesa, Nelson
Jobim, deverá vigorar partir de 14 de julho.
O acordo, que basicamente
permite ás empresas aéreas brasileiras e européias operar vôos para qualquer
escala internacional da outra região,independente do país ao qual a companhia
pertence, é algo mais que o já famoso Airline Deregulation Act que em outubro
de 1978, por vontade dos Estados Unidos, revolucionou as relações aéreas
internacionais. Visto 32 anos mais tarde o Act, que agitou o mundo dos
transportes aéreos, perdeu seu impacto inicial, mas evidencia sua inegável
contribuição á evolução setorial e, em particular, á relativa abertura de
alguns mercados nacionais a relações sempre mais amplas entre congêneres.
Nestes últimos anos,
principalmente depois das crises e das vultosas perdas registradas pela
indústria, a revisão do sistema obsoleto de acordos bilaterais tornou-se um dos
principais objetivos da IATA, a Associação Internacional que reúne a grande
maioria das empresas aéreas do globo. Seu diretor geral, Giovanni Bisignani,
não perde oportunidade para alfinetar os governos que continuam obstruindo o
libero fluxo de capitais e de aviões entre os países do mundo. Ele considera
arcaico esse sistema que, com cerca de 4.000 acordos bilaterais, ainda regula a
maioria do tráfego aéreo. Para Bisignani é um sistema inadequado á evolução do
novo século, pois já passou a época na qual “as bandeiras pintadas nas caudas
dos aviões significavam quase uma forma de proteção, quando a empresa aérea era
como uma extensão da política nacional”. O problema atual é a rentabilidade dos
vôos, depois que nos últimos dez anos as empresas aéreas perderam mais de 50
bilhões; para sobreviverem precisam agora “se manter na onda de uma nova
realidade”, enfatizou Bisignani numa entrevista á Airline Business.
Ao longo das décadas ficou
evidente que quaisquer sejam as formas de desregulamentação, elas não trazem
vantagens para todas as empresas. Depois do Act americano, por exemplo, houve
progressos operacionais que favoreceram em particular as aéreas maiores, as que
dominavam em certos aeroportos e tiveram a habilidade de criar estruturas
nesses hubs que permitiram conexões quase imediatas (hub and spoke) entre seus
vôos, elevando a utilização diária das aeronaves e o seu aproveitamento, além
de reduzir os custos devido a concentração do tráfego em um ou mais desses
pontos centralizados. Ocorreu de fato que a Delta, que na época já dominava no
aeroporto de Atlanta com 87% de participação no tráfego total, e a American,
que controlava cerca de 64% do movimento do aeroporto de Dallas/Fort Worth,
junto com poucas outras empresas acabaram criando uma espécie de oligarquia que
penalizou as demais concorrentes.
No acordo da semana passada,
há quem afirme que o suporte total do Brasil, dado pelo ministro Jobim, estaria
carecendo de sustentação prática quanto a seu objetivo principal que seria a
integração dos sistemas de transportes aéreos entre o país e a União Européia.
O ministro afirmou, durante a Cúpula realizada no Rio, que em vista do fato que
foram assinados 13 acordos bilaterais entre Brasil e Europa, mas que somente 7
deles estão sendo utilizados, havendo ainda 20 países que nem possuem o
bilateral, “o novo acordo vai estimular as empresas brasileiras a usarem as
restantes rotas”. Ele não disse se a indústria nacional tem interesse nesse
oferecimento, quem deveria cobrir as rotas não utilizadas, ou qual poderia ser
a aérea , a não ser a Tam, disposta a voar para destinos cujo potencial está
sendo evidentemente considerado pouco rentável. Não teria cabimento supor que a
Gol/Varig ou outra empresas nacional voaria para lá. Mais realista, o Sindicato
Nacional dos Aeroviários já elaborou um documento contrário ao acordo, que
considera favorável ás companhias européias pois ,diretamente ou terceirizando
seus vôos ,elas poderão alcançar cidades brasileiras com potencial de tráfego
étnico ou de negócios que, devido a esses vôos diretos, seria desviado dos
tradicionais aeroportos internacionais do país. E são aguardadas, também,
restrições técnicas mais detalhadas de parte do SNEA, Sindicato Nacional das
Empresas Aeroviárias.
Atualmente são operados 198
vôos por semana entre Brasil e UE, representando um tráfego anual calculado em
cerca de 20 milhões de passageiros. O país com mais freqüências é Portugal, com
58 operações semanais, seguido pela França, com 46, Espanha com 30, Alemanha
com 21, Itália com 20, Inglaterra com 17 e Holanda com
Concluindo este flash sobre
desregulamentação, liberalização tarifária e assuntos decorrentes – de
profundas conseqüências para a sobrevivência de muitas empresas aéreas – se de
um lado devem ser reconhecidas a firmeza e capacidade inovadora da nova Anac,
sob a presidência de Solange Vieira, de outro não podem ser ignorados os riscos
que com as novas aberturas deverão ser enfrentados pelas aéreas nacionais.
Muito tempo passou e muitas companhias faliram desde a época na qual a Varig,
apesar de acusada de apoiar o seu sucesso no monopólio dos vôos internacionais
do país, não conseguiu evitar a falência, devido ás seqüenciais conjunturais
econômicas e políticas adversas, enfrentadas pelo país.
Desregulamentação e
liberalização estimulam a concorrência, que atualmente se apóia mais nos preços
oferecidos do que na qualidade de serviços, como se viu na recente crise. Com
resultados econômicos sintetizados pela perda de bilhões de dólares e a
urgência de fusões entre empresas, para reduzir custos antes que o
endividamento progressivo afete a sua sobrevivência.
Á luz dos recentes
acontecimentos, hoje há quem duvide que a progressiva, total liberalização das
atividades ligadas aos transportes aéreos, possa trazer resultados melhores
para a maioria das integrantes dessa indústria. Ainda mais, em relação ao
acordo assinado no Rio, depois que a União Européia entrou em plena crise
econômica e financeira.