O AUMENTO DOS CONTROLES ANTITERROR

 

Quem viajou para os Estados Unidos e desembarcou num de seus principais aeroportos, deve lembrar o bombardeio de perguntas que lhe foram feitas pelo funcionário americano, encerrado em seu box branco, após percorrida a longa fila exclusiva para estrangeiros em solo de tio Sam que atravessava enormes espaços do aeroporto. Ele, que havia desembarcado com visto e tudo, e antes de ser admitido a bordo já havia remetido os seus dados pessoais ás autoridades americanas e havia passado por inspeções para ingressar na sala de embarque, ingênuo, achava que na chegada seria recebido como um cidadão comum, sem a desconfiança que fosse um terrorista.

 

Parece que todos os anglo-saxões se sentem herdeiros de Sherlock Holmes e tem no sangue uma paixão secreta por situações opressivas, como aquelas que Orwell celebrizou em seu famoso “1984”. Desses sentimentos, os norte-americanos, muito menos sensíveis, devido talvez á influência do lendário Farwest, absorveram os aspectos  e atitudes mais superficiais. E, quando apareceu em Nova York o fantasma do terror, que não souberam evitar, seus governantes reagiram de maneira primitiva, combatendo a suposta violência potencial com a violência real, diária, esquecendo liberdades constitucionais e violando os direitos dos prisioneiros, culpados ou não, suspeitos autores de atentados ou de ter ligações com o inimigo. A longa lista de restrições feitas pelo governo do ex-presidente Bush, ignorando as liberdades individuais, inclusive dos americanos, mereceria ser reunida numa coletânea,  para evidenciar o prejuízo que causaram á imagem dos Estados Unidos, além de sua modesta utilidade prática.  

 

Após o atentado contra Nova York o mundo foi alertado contra os inimigos médio-orientais, sem distinção de país. Mas eles demonstraram ser mais inteligentes que seus adversários, não realizando mais ataques em massa, que causariam vitimas inocentes, mas sim mantendo viva a possibilidade de que num ponto qualquer dos Estados Unidos ou do mundo poderiam explodir bombas de origem terrorista. E Bin Laden, depois de transcorridos quase dez anos, é ainda o líder mais conhecido e mais temido do globo.

Outro livro que juntasse dados estatísticos, feito em colaboração entre a União Européia e os Estados Unidos, poderia fornecer uma estimativa de quantos bilhões Bin Laden já custou aos militares que ainda hoje lutam para apagar a sua imagem revolucionária no Afeganistão, depois dos anos gastos no Iraque.

E para calcular quantos bilhões foram investidos nos aeroportos do mundo, para neles instalar máquinas sempre mais sofisticadas que, pelo visto, nunca conseguirão ser 100% seguras para detectar novos pós químicos e líquidos letais escondidos no corpo ou na maleta de um viajante.

 

Ninguém quer admitir essa realidade e as várias CIAS esparsas pelo globo inventam sempre novas medidas de defesa, que parecem  buscas com ar de minuetos, nos aeroportos e a bordo. E proporcionam rendas fabulosas aos inventores de máquinas que, atualmente, até deixam  nu diante do inspetor o passageiro a caminho do gate de embarque. Mas de todas, as mais fracas e primarias são a providências improvisadas pelas autoridades americanas depois do quase atentado que ocorreu na semana passada a bordo do avião da Delta. Elas revelam a pressa de quem se sente culpado por inúmeras omissões e uma forma de reação algo pueril como se, a partir de agora, todos os eventuais terroristas pretendessem utilizar a técnica de preparo e a formula química escolhidas pela nigeriano.

 

A história real dos meios utilizados para combater o terror nos aeroportos também mereceria ser relatada por um bom jornalista. Em sua busca, ele descobriria, juntamente com os controles válidos e essenciais, as imaginosas loucuras que passaram pela mente de supostos técnicos e logo foram transformadas em proibições pelas autoridades aeronáuticas. Quem não lembra a obrigação de incluir facas de plástico no snack dos viajantes, no lugar daquelas de metal (cuja duvidosa capacidade de corte de um bife bem cosido era notória) e, entre tantas outras imposições, aquela que, mais recentemente, obriga os passageiros a reunir num envelope plástico, transparente, os objetos de toalete que levam a bordo, sendo proibidos de incluir entre eles um liquido ou creme qualquer numa confecção de mais de 200 miligramas ? E os milhões gastos pelas aéreas para transformar a porta de acesso ao cockpit naquela de uma fortaleza inexpugnável ?

 

Em matéria de ameaça terrorista é fácil generalizar. Somos todos potenciais inimigos, a partir do momento do check-in, se de posse de qualquer objeto, líquido ou pó que supostamente poderia ser utilizado para ameaçar o comandante ou para danificar a aeronave. Assim,  pelo fato de ter havido a bordo a ameaça de um passageiro impugnando uma faca, ou diante das dezenas de possibilidades de misturas explosivas, milhões de passageiros – sem a menor  consideração pela origem, idade, profissão – estarão sujeitos a mais controles, desta vez de natureza discricionária, pois confiados á iniciativa da tripulação.

 

A Tam já anunciou que continuará inspecionando 100% dos pertences de mão e os sapatos de seus passageiros até o ingresso do finger, estando isentos apenas chefes de estado e de governo  e seus familiares. Agora, a bordo dos vôos internacionais, por exigência do chamado Emergency Amendment, os passageiros não poderão ser informados sobre a posição do aéreo quando cruza cidades norte-americanas e estarão sujeitos a obedecer as ordens da tripulação. Sabe-se todavia que algumas das últimas exigências, talvez as mais impróprias, de acordo com a TSA, Transport Security Administration, já teriam sido amenizadas .Entre elas havia a proibição dos passageiros irem ao banheiro sozinhos, na última hora de vôo, e de manter bagagens de mãos em seus colos , se precisarem abri-los. Quanto á proibição de visionar nas TVs de bordo os sistemas que indicam a posição da aeronave, ela ficaria dependendo de decisão, caso por caso, do comandante.

 

As novidades estariam no fator surpresa e no fato que em cada vôo as normas a bordo serão aquelas ditadas pelo comandante. E se ele for exigente, será bem desconfortável  para o passageiro ter que apelar para a sua compreensão,  expondo eventuais motivos de urgência, no caso precise ir ao banheiro quando ainda falta uma hora para que o avião chegue ao seu destino.