FLASHES PARA A HISTÓRIA DA VARIG
Nossos comentários sobre a
velha Varig tem chamado a atenção de muitos leitores. Eles, em geral,
escreveram que concordavam com as considerações feitas no último artigo,
publicado na semana passada, e alguns sugeriram que uma história da empresa
fosse apresentada nas paginas do site Aeroconsult. E nos atribuíram capacidades
potenciais para redigir-la, que lamentamos não possuir para realizar uma obra
que deveria ser definitiva. De fato o problema que impede a realização desse
projeto é tão amplo e complexo como são os mais de 70 anos de história vividos
pela empresa. Sem falar nos anos de guerra, e nos longos períodos de inflação,
nos planos econômico falidos, nas
centenas de dados estatísticos essenciais, nos perfis dos executivos que tinham a
responsabilidade de forjar o destino da Varig, no crescimento progressivo das dívidas e nas
tentativas desesperadas para evitar o impasse final.
Contar a história da aérea riograndense não se
resume na apresentação de pareceres de quem , por suas responsabilidades,
devia, queria, poderia ter resolvidos ou evitado parte dos problemas financeiros,
mas não o conseguiu ou não soube cumprir essa primária missão e agora,
apresentaria com certeza ao entrevistador uma interpretação dos acontecimentos
que geralmente atribui ás forças de oposição, e não a si mesmo e aos seus
diretos colaboradores, não ter conseguido realizar os seus projetos salvadores.
Na realidade, a falência foi o somatório de equívocos financeiros, indispensáveis para o crescimento de uma
aérea sem capitais adequados que, quando precisava de novas aeronaves, recebia
do governo apenas a autorização para importar-las. Mas sem elas a Varig, que no
decênio pré e após guerra (1937/1947) havia transportado um total de 157.722 passageiros,
não teria chegado na década 1977/1987 a embarcar 79.639.809 viajantes. Nesse
crescimento, alimentado pelos bons serviços prestados, devido ao custo dos
leasings e das despesas gerais faltou cash suficiente para honrar os
financiamentos dedicados á formação de uma frota que em 1990, de acordo com as
estatísticas da IATA, atendeu 6,9
milhões de passageiros domésticos e internacionais, e colocou a empresa no 26º
lugar entre as 50 maiores do mundo, pelo número milionário de pax/km embarcados.
Coube ao presidente Thomas se comprometer a reduzir para 95 aviões a frota, que
de fato em 2000 estava reduzida a 91 unidades, das quais 8 de carga. Mas era
tarde demais para tentar equilibrar as contas, pois além das dívidas de leasing
das aeronaves devolvidas, permaneceram aquelas já vencidas dos melhores aviões da empresa.
Desvendar e interpretar
causas e efeitos do monumental endividamento, no contexto da evolução da
empresa, numa conjuntura econômico/política do país que durante longos períodos
penalizou as iniciativas de progresso, além de ser um desafio muito grande para
quem quiser contar a história da Varig, poderá representar a outra face de
responsabilidades que se evidenciaram durante a curta administração de Harry Schuetz,
mas recaíram somente sobre os
presidentes seus sucessores.
Por tudo isso ninguém se
arriscou, ate agora, a se debruçar sobre os capítulos de uma história
fascinante, com heróis e vilãos, executivos competentes e simples aventureiros,
alguns dedicados outros apenas presunçosos. Sem contar o peso morto dos
recomendados, muitas vezes não preparados para os cargos, que por falta de
capacidade eram apenas motivo de frustração para quem vestia a camisa. E havia
muitos que vestiam a camisa na velha Varig, a nível de chefia mas principalmente
entre os funcionários de escalões inferiores. E foram eles os que mais sofriam
assistindo ao declínio progressivo da “sua” empresa. Eles eram crias esparsas
nos mais diferentes setores, sob a influencia realizadora de Ruben Berta e de
Erik de Carvalho, durante a breve pausa burocrática de Harry Schuetz e, novamente, nas presidências de Helio Smidt
e Rubel Thomas, sempre sensíveis aos problemas humanos de todos os funcionários.
Esses seis presidentes viveram,
em épocas distintas entre 1941 e 1994, as lutas, as glórias e a decadência da
Varig, seu esplendor a bordo dos 707 e DC10 e a amargura do cancelamento das
encomendas de novos 747 e 737-300, até o dramático confisco de seis 767-200ER
financiados pelo Eximbank, levados de volta para os Estados Unidos para ficarem
retidos no deserto de Tucson. Essas idas sem voltas, foram cruéis para todos e
mereceram lacrimas de quem assistiu ás decolagens.
Mas entre as causas de tudo, o contador da história deveria também avaliar o peso que teve no agravamento da situação financeira da Varig, antes da vinda do real, a decisão burocrática de uma ministra da Fazenda sem visão econômica, mas sensível ao tango. Isso aconteceu em 1986, durante mais um dos falidos planos econômicos daquela década, com o congelamento das tarifas aéreas, cujo prejuízo em bilhões de reais para a Varig é ainda hoje discutido na Justiça, visando recuperar valores que poderiam ajudar milhares de aposentados, se forem pagos pela União. Talvez, se descobriria que foi ali que, junto com o impeachment do presidente da República, veio aquele da Varig e a crise financeira da empresa começou a fugir do controle de seus administradores.