MOSCOU AO ALCANCE DE TODOS

A minha geração lembra o desafio entre Khruschov, primo ministro da União Soviética, e John Kennedy, presidente dos Estados Unidos. Podia ser o início de outra guerra mundial. Foi há quase 50 anos, em 1962, quando Fidel Castro, mais uma vez ameaçado pelos americanos, apelou para a ajuda russa e recebeu de Moscou instalações bélicas que lhe permitiriam de bombardear os EUA, inclusive usando ogivas nucleares. Quando as armas desembarcaram em Cuba, foi alarme geral em Washington e houve um ultimato, que o líder soviético aceitou a contragosto reembarcando as instalações ,apesar de ter aceito o convite de Fidel para que o protegesse, lançando eventualmente um ataque nuclear contra os Estados Unidos. Em recente entrevista Castro admitiu que, á luz da história, atualmente não considera mais “válida” essa sua recomendação .

As relações mudaram entre EUA e URSS, depois é que a guerra fria entre as duas potências acabou. Houveram entendimentos, abertura das fronteiras, convites ao turismo recíproco. Ao Sul do continente, em vários sentidos, esse degelo demorou mais que no hemisfério Norte para chegar até os governos. Mas começaram a chegarem ao Brasil turistas russos, enquanto a viagem para Moscou representava – ainda há pouco tempo – quase uma aventura para os brasileiros. Talvez devido ao frio, ao idioma, á distância e, diziam, aos preços cobrados. Aos poucos, imagens imensas de neve branca, os clássicos monumentos e os ritos religiosos russos e fragmentos de páginas de história se espalharam pelo mundo: a revolução, a família do Czar massacrada, as teorias revolucionárias, e nomes como o de Lenin, o sonhador, ou Stalin o cruel, sem contar os milhões de mortos contra Hitler e episódios heróicos em Stalingrado e na defesa do solo pátrio invadido.

Um patrimônio histórico como esse impressiona, faz pensar, fascina, mas também afasta o observador superficial, o turista que se encanta na Disneylandia com os fantoches e os heróis de papel, com os milagres da técnica eletrônica e com lendas as vezes banais, que nada acrescentam á cultura e ao caráter das pessoas.  Sem contar as falsidades instaladas nas mentes da outra geração pela propaganda de Goering ou pela ideologia anticomunista, onde o diabo, assim como os soviéticos ,eram vestidos de vermelho. Porque pensar em fazer turismo tão longe, então?

Precisou que o tempo corresse para que as décadas criassem uma imagem nova da ex URSS, hoje Rússia. Uma nação enorme em potência, tamanho e em problemas, onde o petróleo é um item econômico prioritário e onde hoje dominam novas classes desvinculadas totalmente do passado. E voar para Moscou aos poucos passou a integrar os programas de viagens dos turistas, cansados, talvez, do repeteco visual do Coliseu, da Tour Eiffel ou do Central Park .

Mas no início foi necessário limpar o terreno das escórias burocráticas e os governos interessados começaram oferecendo a isenção bilateral de visto de turismo, enquanto as empresas aéreas promoviam a nova rota , cuja longa distância , saindo do Brasil para Moscou ,era coberta com uma escala. E já está sendo oferecida a opção sem escala, como sempre uma questão de preferência, pois nem todos os turistas em viagem de férias tem motivos reais para querer chegar algumas horas antes ao destino final, dispensando o stop numa cidade da Europa. Mas é uma questão de opção: parar antes num ponto intermédio, para relaxar ou ampliar o roteiro da inteira viagem, ou embarcar direto para Moscou, enfrentando numa só vez cerca de 10 horas e meio de viagem, saindo por exemplo do Rio de Janeiro.

No mapa das ofertas mais recentes, há um balanço do tráfego entre os dois países que é bem modesto: fala-se em 7 mil turistas russos, em média, que visitaram nos últimos anos o Brasil, voando cerca de 15 horas em duas etapas para chegarem ao Rio ou a São Paulo. Agora veio de Moscou a informação que no começo de janeiro a empresa Transaero operará um vôo semanal de Boeing 747, ligando o Rio a Moscou non-stop. Entretanto, o mesmo destino poderá ser alcançado com uma conexão na Europa, por exemplo saindo de Lisboa, para onde a Tap voa do Brasil nada menos que 70 vezes por semana, tendo programado para logo depois do Natal vários vôos extras seguidos para Moscou .Uma das diferenças entre as duas opções de viagem está na duração da permanência na Russia ou no Brasil, pois no caso do voo direto ela será em prevalência de duas semanas.

Com tudo isso, segundo informações recebidas, as partes interessadas estimam com muita prudência o crescimento de curto prazo do turismo entre os dois países: em particular, para o voo direto, o fluxo atual estimado não justificaria por enquanto mais de um vôo semanal, que seria mantido por bastante tempo até quando o seu potencial permitirá que seja dobrado, talvez com saídas ás segundas e sextas feiras.

Mas existem outros elementos a serem considerados no forecast, em vista das características de alguns países latino-americanos, lembrando que as facilidades abertas pela Rússia com a isenção bilateral de vistos de turismo incluem também Argentina, Chile e Uruguai. Em vista das numerosas conexões entre esses países e o Brasil, não seria surpreendente se houvesse uma participação de turistas originários do extremo Sul do continente talvez superior, em número de embarques, aquela dos próprios brasileiros. Sem contar o vice-versa, possível neste inverno europeu ,ou no próximo, para quem quiser trocar as neves de Moscou e São Petersburgo com o sol e o mar de uma praia carioca.