LEMBRANDO A VIAGEM DE
ESTUDO PARA O VÔO VARIG Á CHINA
Num dia de março de 1988 (já
se passaram 22 anos) éramos em seis a bordo do vôo RG-830 para Tóquio, formando
a missão de estudo á Ásia chefiada por José Simões Henriques, assessor de
transporte aéreo da Cernai, orgão de estudos do Ministério da Aeronáutica. Representando
a Varig havia Harro Fouquet, João Luiz. B de Souza,o escrevente,Pedro de
Carvalho e Uwenceslau Galera.Foi uma viagem de 19 dias, que após a chegada a
Tóquio nós levou para Seoul,Hong-Kong,Beijing,Bangkok,Cingapura, voltando ao
Brasil via Londres.
Na época a Varig já se havia
expandido nos mercados das Américas e da Europa, e mantinha vôos para a África
mais para homenagear os laços antigos estabelecidos pelos escravos, que por
interesses comerciais. Eram os anos da Ásia, com suas economias em boom e empresas
aéreas de grande prestígio, como a Japan, a Thai, a Cathay a Singapore
Airlines, enquanto surgia no horizonte a nova China, em crescimento econômico
rápido conquistando os grandes mercados do globo. Rubel Thomas, ainda no cargo
de vice-presidente, acreditava no futuro e por isso queria a Varig se
expandindo pela Ásia .A delegação por ele escolhida para essa viagem de
reconhecimento desses mercados, com destaque oara o chinês, reunia em volta do
diretor de Planejamento, Harro Fouquet,
técnicos com conhecimentos de pesquisas , além do assistente da
presidência e do representante da
empresa em Tóquio.
Naqueles anos se discutia no
Brasil sobre o caminho mais rápido e conveniente para chegar á Ásia. Se via
Europa ou via África, ou seja com escala em Frankfurt ou em Johanesburgo.Antes
havia sido sondada uma rota via Nairóbi, encontrando problemas de estada para a
tripulação, clima e doenças tropicais, frieza de parte das autoridades aeronáuticas
locais.Mas depois que Hong Kong e Bangkok foram acrescentados ,com resultados
modestos, na rota que já chegava á capital da África do Sul, ficou claro que a
ida á China devia passar pela Europa, também para aumentar o potencial de
embarques dessa longa e cara viagem.Vindo do Sul e do Norte os aviões da Varig
criariam um circuito dos mais interessantes para os turistas brasileiros, que
poderia abranger além de Beijing ,Bangkok e Hong-Kong ou Singapura e Seoul, com
escala na Europa na ida ou na viagem de volta.
Chegar a Pequim em 1988
ainda conservava sensações de aventura. O gigante chinês acordava, mas ainda
não havia previsões claras sobre seus rumos políticos, sociais e comerciais.Os
Estados Unidos ainda esperavam que o crescimento do grande rival encontraria
obstáculos maiores daqueles representados pela existência de um governo
conservador ilhado fora do continente desde a proclamação da República Popular
feita por Mao Zedong, algumas décadas antes, ou pelo grupo religioso que
divulgava pelo mundo suas condições de oprimido. E mais uma vez “tio Sam” fez
previsões erradas, que mais tarde repetiu na mesma Ásia e no Oriente Médio.
Ainda lembramos as avenidas
imensas e nuas da Pequim de 1988, milhares de ciclistas ao nascer e pôr do sol
desfilando nelas, e os primeiros perfis de edifícios maiores surgindo em toda
parte. Poucos táxis aqui e ali, comida simples mas também hotéis luxuosos. E já
operava o metrô a 0,20 yuan por corrida, havia mais de uma dezena de teatros e
salas de concertos, mais de 20 empresas aéreas estrangeiras com seus escritórios
abertos, muitos vôos chegando de toda parte e excursões, de um dia na cidade e
de até três semanas pela China inteira. A prefeitura de Pequim fazia questão de
regulamentar o passo-a passo dos taxis, e para isso divulgava folhetos
pormenorizados, nos quais se lia, entre outras informações, que a tarifa menor
era para uma corrida de
Nas horas livres nossa
delegação visitou os lugares clássicos da história da cidade, desde o Palácio
Imperial á Tiananmen Square, tendo seus momentos de aventura quando chegou aos
pés do acesso á famosa Grande Muralha. Naquele dia, 22 de março para a
história, faltou energia elétrica para movimentar o elevador que sobe até a
muralha e os visitantes tiveram que optar entre a frustração de não chegar onde
desejavam, ou de subir até lá escalando a pé algumas centenas de degraus, cada
um com mais de
O diretor do Departamento de
Assuntos Internacionais da Aviação Chinesa, Lu Ruiling, externou aos
representantes da Varig o interesse da nova China para a vinda ao país de uma
empresa aérea sul-americana e garantiu que facilitaria uma reunião bilateral, a
nível de governos, tão logo seu país recebesse uma comunicação nesse sentido.
Ele não sabia, ninguém naqueles dias podia saber, que forças ocultas, grupos
interessados em alterar ou destruir a imagem da Varig, empresas americanas de
leasing e credores nativos estavam agindo para cortar as asas da maior
companhia aérea do Centro e Sul das Américas. E que em pouco mais de dez anos,
depois do encontro de Pequim, eles conseguiriam estruturar o mais indecente de
seus objetivos, até o desfecho final selado pela Lei das falências.