GLORIAS E DECADÊNCIA DA FIRST CLASS

 

Já se foram quase 50 anos desde que este cronista entrou no magnífico mundo da aviação comercial. E, durante a sua permanência na Alitalia e na Varig observou e aprendeu as peculiaridades das empresas aéreas. Lembra que a orientação básica que, já como instrutor, transmitia aos funcionários de vendas era: “Os assentos do avião devem ser vendidos antes da decolagem. São perecíveis. Assentos vazios representam receita perdida, não recuperável”.  Quer dizer que entre a receita zero e uma passagem vendida a preço reduzido, esta devia ser a opção do vendedor. Com a devida prudência , pois na época circulavam pelas empresas e pelas agências de viagens dois inspetores da IATA, que não brincavam em serviço.Aplicavam multas elevadas quando, através do test-ticket, descobriam que o preço cobrado do passageiro não era aquele fixado para aquela rota.

 

Naquela época as empresas aéreas tinham frotas pequenas, capitais limitados, muitas interferências governamentais e temiam a concorrência. Por isso, as européias assinavam com as companhias de outros países os chamados “pool agreements”, nos quais se comprometiam de dividir lucros e perdas das respectivas rotas e de sempre cooperarem para melhor servir aos passageiros. Outros tempos. Tudo era feito para agradar os usuários, em particular os de primeira classe, que representavam os filé-mignons das receitas. E que pagavam passagens caríssimas, que eram praticamente exclusivas para quem tinha muito dinheiro e para os altos executivos de grandes organizações.

 

A decadência da first-class teve início quando as empresas aéreas começaram a ceder assentos “free” para agradar o deputado ou o general que mandavam  na Câmara ou no ministério, além de quem dizia representar a ordem e o progresso da indústria. E entre eles havia quem abusava dessa hospitalidade, enquanto começavam a se infiltrar na “primeira” diretores e executivos da aérea e das empresas congêneres, comandantes e famílias em férias,funcionários da companhia do segundo escalão, muitos  com passagens confirmadas ( ocupando lugares que podiam ser pagos) outros com tickets sujeitos a espaço.De fato, raramente o avião decolava com assentos de primeira vazios mas, quando isso acontecia, logo a seguir havia a migração da cabine de econômica de colegas ou de recomendados para ocuparem as poltronas restantes.Isso muitas vezes contrariava a expectativa de pagantes que esperavam viajar sem ter ninguém ao lado e alguns com certeza se aborreciam, pois sabiam que o “visinho” provavelmente não havia pago nem uma passagem de econômica.A intimidade que os infiltrados tinham com os comissários evidenciava o conluio.

 

 Assim mesmo, durante muitos anos a first –class andou aumentando o número de assentos, enquanto diminuíam proporcionalmente suas receitas. Mas até o fim o caviar, o champanhe francês e outras finas iguarias importadas eram servidas a bordo, se tornando privilégios de uma categoria de viajantes que, no começo, representava uma classe social distinta, mas nos últimos anos não era mais a mesma, pois reunia ricos e remendados, pagantes e “free”.

O processo foi longo, mas aos poucos os 48 ou mais assentos de primeira foram reduzidos, havendo empresas que ofereciam apenas 8 ou 12 deles, dedicados a uma minoria de pagantes reais que,  paulatinamente,  se convenceram que – na nova conjuntura social - não valia a pena pagar uma tarifa até dez vezes mais cara daquela da “econômica” para degustar uns produtos estrangeiros e ter um pouco mais de espaço para esticar as pernas nas viagens além-mar.

 

Hoje a primeira classe praticamente desapareceu na maioria das rotas, e atualmente o diferencial da econômica se encontra na classe Premium, antes chamada de executiva. Lá o passageiro encontra um mix de serviços de bordo mais refinados  e poltronas mais cômodas e funcionais daquelas da velha first, pois oferecem muito mais leg-room, graças a achados mecânicos que as transformam em pequenas camas. O preço da passagem não é tão elevado como era aquela de primeira classe, chegando em média a três vezes o custo de um bilhete de econômica.

Por suas características as classes premium dos vôos internacionais são apreciadas pelos executivos (em particular quando não é o próprio, mas a empresa que paga a passagem) inclusive porque a cada viagem acumulam para seus planos de fidelidade pontos dobrados que valem bilhetes free. Mas quem estava acostumado com a gloriosa first afirma que não é a mesma coisa, sem explicar por qual motivo deveria ser, uma vez que é muito mais barata e proporciona melhor descanso ao corpo dos viajantes.

 

É a velha história, que se repete sempre que há mudanças. Na aviação ela é ligada também ás ilustrações dos livros, com senhoras de chapéus e cavalheiros em terno clássico, desfilando antes do embarque, como se estivessem nos palcos de teatros parisienses. Lembrar os verdadeiros rituais de uma vez, as imagens de sonho e de aventura criadas pela idéia de voar nos DC-3 do após guerra, ou nos modelos mais recentes, já faz parte dessa história. Para muitos, essas lembranças causam saudade,quando aparecem no embarque “ pax”  de chinelos e calças curtas ou quando, em pleno vôo, tem os tímpanos feridos por conversas banais no silêncio da noite, sem consideração para  quem gostaria relaxar.

 

É verdade que a técnica fez passos gigantescos nos transportes aéreos, se aprimorou como em  poucas outras indústrias. Pena que a evolução educacional não tenha progredido com o mesmo ritmo entre os segmentos crescentes de seus usuários. Falta agora verificar qual será o resultado de uma nova experiência que está sendo anunciada para breve. Nas cabines de milhares de aeronaves haverá a possibilidade de uso de telefones celulares durante o vôo. Cruz para uns, delícia para muitos, a nova facilidade estaria precisando ser regulamentada universalmente antes de sua implantação, talvez determinando a duração e o número máximo das chamadas por passageiro, os horários da noite em que os telefones podem ser acionados.Afinal, com todo o respeito ao progresso, a maioria dos passageiros procura sossego a bordo e somente em raríssimas exceções as conversas telefônicas noturnas podem ser consideradas como urgentes.