ESSES NOSSOS PENALIZADOS TRANSPORTES
AÉREOS
Notícia recente informa
sobre o desenvolvimento do inquérito dedicado á ajuda financeira, de origem
governamental, que teria permitido á Airbus de consolidar a sua estrutura e
manter preços competitivos de suas aeronaves, prejudicando as vendas da Boeing
americana. Com certeza, independente das desmentidas, houve ajuda, para
permitir a essa indústria européia de competir com os americanos, que depois do
desaparecimento de numerosas congêneres ficou concentrada nas mãos da Boeing. As
indústrias de transportes aéreos do mundo deveriam agradecer aos governos que
se prontificaram a apoiarem a única construtora de aviões que poderia competir
com a Boeing, oferecendo aviões com características mais avançadas, na forma e
nas técnicas eletrônicas, obrigando a congênere a oferecer também modelos novos
á altura dos Airbus, a preços sem dúvidas menores daqueles que teria cobrado,
se não existisse a rival européia. Da mesma maneira, a Boeing recebeu grande
apoio do governo dos EUA, oficialmente através das encomendas de aviões para
usos militares, no bolo de uma contabilidade á qual somente poucos tiveram
acesso.
Passando ao amplo segmento
das empresas aéreas, logo após o atentado terrorista de setembro de 2001 as
americanas receberam oficialmente do governo ajudas declaradas de mais de US$ 5
bilhões, para compensar as perdas causadas pelo impacto que o ataco teve sobre
o tráfego aéreo. Seria um exercício inútil procurar os nomes de outros países
ou de aéreas que em épocas recentes foram contempladas com ajudas
governamentais. Sem esforços de memória, é fácil lembrar o caso da Alitalia,
que á beira da falência salvou-se graça á formula “á italiana” inventada pelo
governo para a sua recapitalização, esquecendo dívidas que cresciam a cada mês.
Ou a longa agonia da Japan Airlines, que por causas não totalmente
esclarecidas, de empresa poderosa e de grande prestígio entre as maiores da
Ásia/Pacífico, começou gradualmente a perder tráfego, somando dívidas
bilionárias com seus fornecedores e chegando também á porta da falência.
O governo japonês, depois de
longa indecisão, entendeu que não podia abandonar a aérea, apesar das
dificuldades econômicas atravessadas pelo país. Na França, o apoio financeiro
do governo aconteceu de maneira mais discreta, antes da crise investir publicamente
a Air France, que andava a curto de capitais para atualizar e ampliar a sua
frota e sofria, como ainda sofre, forte concorrência das empresas Lufthansa e
British, para não citar outras menores e as temíveis low-fare.
No Brasil, o governo teve, em
épocas quase remotas, iniciativas para apoiar a indústria de transportes
aéreos, motivado pela necessidade física de alcançar a esperada integração
nacional que – devido ás distâncias – podia ser realizada somente pela aviação.
Conseguiu resultados modestos, pois para voarem com rentabilidade as aeronaves
precisavam também do apoio aeroportuário, ou seja de
uma estrutura técnica que facilitasse pousos e decolagens em condições meteorológicas
adversas.Apoio que não veio e que, ainda hoje, falta em muitos aeroportos grandes
ou menores, em particular do Norte e Nordeste.E olhando na história , houve de
parte do governo - em nome de entidades particulares interessadas em promover
exportações para determinados países – participação no custo de rotas sem
futuro, como eram aquelas voadas pela Varig para países da África de idioma
português.Além disso, foram concedidos eventuais descontos em impostos de
importação de aeronaves e peças, que se ajudaram os balancetes mensais de pouco
serviram para fornecer ás empresas aéreas o apoio financeiro necessário para
competir com as congêneres estrangeiras e para atualizar suas frotas, sem ter
que assumir sozinhas rombos de centenas de milhões de dólares.E na hora do
juízo final, quando a Varig precisava de ajuda financeira para acalmar não
somente as empresas de leasing mas também fornecedores como a Petrobrás e até a
estatal Infraero, se viu o que se viu.O desfile de insensíveis ministros e
habilidosos técnicos em finanças e economia, afirmando que não competia ao
governo participar do esforço para salvar a empresa aérea utilizando fundos que
eram dos contribuintes e que tinham outros e bem mais elevados destinos sociais
para serem utilizados, limitou-se a recomendar á empresa aérea de enfrentar a
competição de mercado .Foram lembradas regras baratas de marketing,na obrigação
da aérea disputar com suas forças a conjuntura adversa, da mesma maneira como
no governo Collor se congelaram as tarifas aéreas, enquanto a inflação crescia
sem parar , e se pretendeu que a aviação comercial sobrevivesse tendo receitas
decrescentes e custos em permanente aumento.E hoje, ainda se fazem polemicas na
AGU ou nos tribunais superiores sobre a obrigação de reembolsar á aérea
desfigurada por uma política financeira maluca, o dinheiro das perdas de receitas
que lhe foram impostas. E até se querem cobrar taxas e ônus fiscais que a Varig
não podia pagar e que hoje resolveriam os problemas de sobrevivência de varias
milhares de aposentados.Três bilhões de reais, ou pouco mais , verdadeiras
gotas no mar imensos dos gastos eleitoreiros ou nos “serial roubos” que ocorrem
nas estruturas oficiais de governo ou de representação parlamentar.
Uma omissão enfeitada de
palavras de apoio, de promessas não mantidas, que confirma sob forma diversa o
total desinteresse do governo pela aviação civil do país, como se ela servisse
a dezena de milhões de cidadãos apenas por dever ou por prazer. Como se os
serviços aéreos não fosse atualmente o maior suporte para o progresso do país e
como se não dependessem de sua eficiência milhões de relacionamentos familiares
ou de negócios, e até as férias de crianças e a aculturação de jovens, nos
quais o país apóia suas melhores esperanças.
Não ter entendido o papel determinante
da aviação no progresso do país, sua importância no dia-dia dos brasileiros, a
obrigação de dar-lhe apóio nas emergências para que continue contribuindo ao
desenvolvimento nacional, foi sem dúvida uma das piores omissões do governo que
está encerrando o seu mandato. E na atualidade, ocorreria muito otimismo,
otimismo demais, para acreditar ou apenas esperar que haverá mudanças a partir
de 2011.